Escreveu Saramago que "isto de relações entre patrão e empregado é negócio de muita subtileza, que não se decide e explica com meia dúzia de palavras, é preciso ir ver e ouvir".

Porque nada é estanque, neste 1.º de Maio quisemos debruçar-nos sobre o impacto das novas formas de trabalho nos direitos laborais. Assim, a Margarida Alpuim direcionou o olhar para um grupo específico: os trabalhadores das plataformas digitais. Nem tudo é mau, nas palavras de vários entrevistados — a flexibilidade de horário é apreciada, os salários podem ser compensadores —, mas falta garantir condições, nomeadamente ao nível da segurança, previsibilidade e transparência. Enquanto lá fora se avança com algumas decisões, por cá ainda estamos muito no papel e os sindicatos tradicionais precisam de "apanhar o comboio".

E como é já tradição, também foram muitos os que saíram à rua para levantar a voz, "lutar pelos direitos e combater a exploração". Em Lisboa, mais de mil pessoas desfilaram, a partir das 15h20, entre a avenida Almirante Reis e a Alameda, no âmbito das celebrações organizadas pela CGTP. À capital chegaram vários autocarros de diferentes zonas do país, com pessoas para participar no protesto — que se fez de máscara, mas com o distanciamento difícil de cumprir.

Na manifestação, entre as palavras de ordem ouviu-se "o trabalho é um direito, sem ele nada feito" e "tele-exploração enche os bolsos ao patrão". Além disso, os manifestantes ergueram vários cartazes com frases como "Não aos despedimentos, não somos descartáveis". No Porto e em Coimbra, bem como noutras cidades, as vozes uniram-se no mesmo tom.

Mas também houve quem ficasse por casa. As duas centrais sindicais comemoram pela segunda vez o 1.º de Maio em pandemia, a CGTP na rua, como é habitual, mas com menos gente, e a UGT em confinamento, com uma conferência online sobre os desafios da negociação coletiva. Nos dois casos, foram deixados alguns recados face à situação vivida no país.

CGTP-IN: A secretária-geral, Isabel Camarinha, afirmou hoje que "a resposta do Governo" à pandemia tem sido "desequilibrada", pedindo o combate à exploração laboral. Lembrando as celebrações de há um ano, em que "tentaram apresentar os que estavam na luta na rua como privilegiados", concluindo que "o tempo veio comprovar que o surto da covid expôs e agravou muitos dos problemas";

UGT: No encerramento da conferência da central sindical, Carlos Silva disse que a UGT "não se exime à discussão" sobre o teletrabalho, mas sublinhou que "uma intervenção legislativa nesta matéria, num momento atípico e de incerteza, deverá esperar por outra oportunidade, onde a poeira dos dias assente e permita uma reflexão mais clarividente". Por outro lado, o líder sindical afirmou que "se o parlamento quer legislar [sobre o teletrabalho], pois que o faça, obrigando as empresas a cumprir com o que já está no Código do Trabalho".

Numa análise sobre este último ano, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou também o Dia do Trabalhador, referindo que os portugueses têm vindo a sentir na pele os efeitos da pandemia da covid-19, a nível laboral.

"Os trabalhadores foram, naturalmente, muito sacrificados pela pandemia. Não foram os únicos. Muitos micro e médio proprietários [também] foram. Mas também os pensionistas, os reformados e os jovens. Mas os trabalhadores foram muito sacrificados e a palavra que tenho a dar-lhes é de agradecimento, como a todos os portugueses, por aquilo que aguentaram", salientou o chefe de Estado, durante uma visita aos Açores.

"É justo que celebrem o Dia do Trabalhador agora, olhando para o futuro e pensando como é que vamos reconstruir a economia e a sociedade", frisou, deixando também uma mensagem de esperança numa melhoria gradual da situação económica e social do país.

A pandemia suspendeu a vida dos portugueses — e de todo o mundo — durante mais de um ano. Mas estamos a ver, finalmente, chegar o tempo desse "período difícil de sacrifícios ser ultrapassado". Estas são as palavras do presidente, mas também as que todos querem ver de facto concretizadas.

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