João viveu na rua “muitos anos”, tantos que até se perde nas contas. Mas ainda sabe de cor todas as paragens desse percurso, num tempo em que “ninguém oferecia casa a ninguém” e a vida se fazia “da maneira que deus quisesse”.

João deixou a rua há três anos, com a ajuda da associação Crescer e do projeto Lisboa Housing First, inspirado no modelo internacional que parte da premissa de que a primeira coisa de que as pessoas precisam é de uma casa e depois então é que se trabalha tudo o resto.

A Crescer é a arrendatária das casas do projeto e ajuda nas despesas domésticas básicas e na ponte com os serviços sociais e de saúde, cabendo aos beneficiários comparticiparem com 30% dos rendimentos ou apoios que recebam.

“A rua é muito difícil. Você não tem sono… você pode deitar, ou deitar ou encostar, em cima de um papelão, pode tapar com uma manta… mas não tem segurança”, relata João, nascido em São Vicente, Cabo Verde, de onde partiu para a primeira viagem como marinheiro aos 16 anos.

Hoje, com 63 anos, diz que conhece “todo o mundo”, mas gostava mesmo era de um dia voltar à ilha original e de levar Eduarda consigo.

Conheceram-se na rua e estão juntos há dois anos. “Somos felizes”, diz.

Eduarda repete e acrescenta que encontrou em João um homem que a trata bem, ao contrário dos anteriores. “Até vamos casar para o ano, se Deus quiser”, deseja.

João e Eduarda são de poucas palavras, até porque estas lhes trazem memórias duras que ainda os fazem chorar.

Com 59 anos, duas filhas e nove netos, Eduarda é uma mulher sofrida e doente. Levou “muita porrada” na vida e a rua, diz, é um sítio “muito pior” para as mulheres.

Por isso, não esquece quem lá conheceu e, sempre que tem, ajuda como pode. “Temos de nos ajudar uns aos outros, também a mim me ajudaram muito. Estou muito grata”, reconhece.

Agora sonha com “uma vida melhor” e “boa”, que é o que “toda a gente deseja”. E que “dure muitos anos” a casa onde, por cima do televisor, João ergueu um altar ao Benfica e à Virgem Maria. E onde encontrou agasalho, juntamente com a sua “fofinha”.

Pedro Camenisch não tem a mesma sorte. Acaba de perder a companheira e sente-se “perdido”. Mas tem um porto seguro: a casa que a Crescer lhe atribuiu, há mais de cinco anos.

“Gosto muito da minha casa, tenho o meu cão. Fez diferença na minha vida, porque saí da rua. Vivermos na rua é uma coisa, viver dentro de casa é outra, completamente diferente. Ter um teto é um teto, estar dentro de uma tenda não dá para dormir descansado”, distingue.

“Nunca encontrámos ninguém que não quisesse sair da rua, dizer que as pessoas estão na rua porque querem é um mito”
“Nunca encontrámos ninguém que não quisesse sair da rua, dizer que as pessoas estão na rua porque querem é um mito”
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Pedro foi parar à rua quando veio deportado da Suíça, onde está toda a família, incluindo as filhas.

“Nos anos bons, vivia na Doca Seca, num buraco com um metro de largura por um metro de altura”, recorda.

Quando a Crescer se cruzou no seu caminho, vivia numa tenda, no Intendente.

Na rua, Pedro viu coisas que ninguém imagina.

“Nós somos os miseráveis”, descreve, acrescentando que “viver na rua doeu muito”.

Por isso, ainda que agora tenha uma casa, continua a considerar-se sem-abrigo.

“Vivi lá fora muito tempo também, sei o que passam”, explica, contando que, sempre que pode, partilha a comida e a roupa que recebe com as pessoas que ainda se encontram nas ruas.

Hoje, com 50 anos, Pedro não tem dúvidas de que ter uma casa “é fundamental” e levantou-lhe a autoestima.

“Tenho espelho, posso fazer a barba, tomar banho, cozinhar. Lavo a minha roupa, estendo a minha roupa”, conta, acrescentando: “É o nosso teto, a nossa fechadura, estamos no nosso canto, é o nosso refúgio”.

“Desde que arranjei a casa, tornei-me noutro homem. Mais feliz. Drogas, já não me meto… Já fui muito drogado, fui. Mas há 20 anos que não toco em drogas”, partilha.

As equipas técnicas da Crescer estão nas ruas todos os dias e vão assinalando casos para apoio, mas qualquer pessoa o pode também fazer para o email sinalizacoes@crescer.org.

“A lista tem muita gente e não para de aumentar. Recebemos sinalizações todos os dias”, conta Juliana, uma das técnicas da Crescer.