Se se candidata é porque acredita que a CDU pode juntar a Câmara Municipal de Lisboa ao leque de autarquias governadas pela coligação que junta comunistas e verdes na região da Área Metropolitana de Lisboa. É para isso que João Ferreira, eurodeputado de 38 anos e antigo candidato à capital em 2013, se sente preparado. Se isso não for possível, então que se fale. Primeiro para se saber o que está em cima da mesa, “um governo para quê e por quem”. Para que depois, sim, se possa fazer a primeira pergunta e redigir a respetiva resposta: “um governo com quem”.

Em Estrasburgo ficaria conhecido pelo tom crítico com muitas vezes se opôs às políticas da União Europeia tendo ficado célebre uma intervenção na presença do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. “Sabe de uma coisa, senhor Juncker? A Constituição da República Portuguesa diz que é da exclusiva responsabilidade da Assembleia da República organizar, elaborar e aprovar os orçamentos de Estado. Acalme lá por isso os seus burocratas (...)”, referiu.

Em Lisboa o papel não foi diferente, mesmo sem pelouro atribuído. "Ouço muitas vezes trabalhadores do município dizerem-me que estive mais vezes presente nos locais de trabalho do que vereadores com o respetivo pelouro", diz. Desengane-se, por isso, quem pensa que o facto de o eleito pela CDU dividir a sua vida entre Estrasburgo e Lisboa lhe diminui a presença na vida política da capital portuguesa. Desvalorizando as mais de 50 faltas em reuniões de Câmara, Ferreira diz que a CDU nunca faltou a uma sessão e que talvez nenhuma outra força política poderá dizer o mesmo. “Em 2017 estive presente em mais reuniões de Câmara do que Fernando Medina que se fez substituir várias vezes”, sublinha.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

O João Ferreira está em Lisboa há quatro anos como vereador e é há oito anos deputado europeu. Conviveu com o executivo de António Costa e Medina, cá, e com a presidência de Juncker lá fora. Que semelhanças e diferenças há entre o Paços do Concelho e Estrasburgo?

As semelhanças têm que ver sobretudo com o estilo de exercício do mandato que é próprio da CDU, baseado na proximidade face às populações, face a quem representamos, um esforço permanente de ligação às várias áreas da vida económica, social, cultural, do país ou da cidade, no caso de Lisboa. Um estilo baseado também na prestação de contas do trabalho que se desenvolve, ou seja, que presta contas quer num sítio quer noutro. Seja qual for esse mandato dos eleitos da CDU em cargos públicos. Estejamos no Parlamento Europeu, estejamos numa autarquia ou em qualquer outra instituição.

E as diferenças?

As diferenças creio que têm que ver, sobretudo, com a natureza das questões que são tratadas em cada uma dessas esferas, embora em algumas áreas haja uma proximidade que acaba por trazer uma relação de benefício no desempenho destas duas funções. Matérias que são discutidas no Parlamento Europeu, que têm que ver com desenvolvimento urbano, com questões de cidades e a aprendizagem e a experiência adquirida nessa frente, acabam por se revelar úteis também na cidade. Por outro lado a vivência que temos, que levamos da ligação à cidade, aos seus problemas, à sua realidade, acaba por ser útil também com a intervenção que temos no Parlamento Europeu.

Sente-se, portanto, mais bem preparado para desempenhar as funções de Presidente da Câmara de Lisboa após mais 3 anos em Estrasburgo?

Sim.

Isto tendo em conta que em ambos os casos o papel do PCP é de oposição, uma vez que o papel em ambos os casos é essencialmente de oposição.

Temos sido uma força de oposição, mas uma força de oposição construtiva que denunciou o que era importante denunciar, que criticou o que era importante criticar, mas que nunca abdicou de apontar soluções. E que também não deixou de apoiar aquilo que estava a ser bem feito. Quer cá, quer lá temos essa preocupação de contrapor à crítica e à denúncia a proposta e o projeto.

"Nós quando apresentámos a candidatura da CDU afirmamo-nos prontos e preparados para disputar e assumir todas as responsabilidades, incluindo a presidência da Câmara Municipal de Lisboa."

O que tem sido bem feito cá, em Lisboa?

Nós não partimos de uma posição de que tudo o que foi feito em Lisboa nos últimos anos foi mal feito, algumas das coisas bem feitas tiveram na origem iniciativas e propostas da CDU. Mesmo outras acabaram por ter o nosso voto favorável. Sei lá, desde algumas intervenções no espaço público que melhoraram efetivamente as condições de fruição do espaço público e até de mobilidade pedonal.

Como por exemplo as obras do eixo central?

Apoiámos a intervenção no eixo central precisamente porque tinha associada essa dimensão de qualificação do espaço público, de aumento das áreas de fruição pública, de melhoria das condições de circulação pedonal e, portanto, por aí nunca faltou o nosso apoio àquilo que de bom foi proposto e que permitiu melhorar as condições de vida da população e de fruição da cidade.

Mas não é isso, infelizmente aquilo que prevalece. O sentido geral de ação do município não é esse.

O que prevalece, então?

O que prevalece é a incapacidade ou a falta de vontade, ou ambas, de responder a problemas candentes da cidade. Do trânsito, ao estacionamento, à mobilidade, habitação, prevalece uma perda de capacidade da Câmara de intervir num conjunto diversificado de áreas da cidade que tem que ver com o desmantelamento de serviços públicos municipais, um desinvestimento na capacidade de intervenção no município, ao nível da higiene e limpeza urbana, do ambiente e espaços verdes, do saneamento, da proteção civil, da prestação de socorro à população...

Para que a CDU consiga intervir nestas áreas é importante que Fernando Medina não tenha maioria absoluta?

Não, importante é assegurar uma gestão municipal da CDU também em Lisboa, como acontece na maioria dos municípios da área metropolitana de Lisboa (AML). Isso é possível na maioria dos municípios da AML e portanto pode ser também possível em Lisboa. Nós quando apresentámos a candidatura da CDU afirmamo-nos prontos e preparados para disputar e assumir todas as responsabilidades, incluindo a presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

"É essencial que a CDU saia reforçada destas eleições. E se isso acontecer, estaremos disponíveis para discutir essas soluções para a cidade. Com quem quer que seja. Não apenas com uma força, mas com todas."

 

Mas o que é então uma vitória para a CDU no domingo? Somente a presidência ou também um aumento dos lugares de vereação?

Reforçar a presença da CDU no executivo municipal. É esse o nosso objetivo nestas eleições. Esse reforço irá tão longe quanto os eleitores o queiram levar. Sendo que nós estamos preparados para assumir todas as responsabilidades.

Se os eleitores deixarem em aberto um cenário semelhante ao que se passa a nível nacional. Poderá ocorrer um cenário de acordos que leve a CDU ao executivo?

O que aconteceu no plano nacional... a CDU nunca se demonstrou disponível para discutir lugares no executivo ou pelouros no executivo, independentemente de quais forem as políticas praticadas. E a primeira discussão que temos de ter, antes de discutirmos um governo com quem - seja na cidade, seja no país - temos que discutir um governo para quê. Para desenvolver a ação em benefício de que interesses. Para resolver que problemas. Para levar a cabo que políticas. É para essa discussão que nós estamos disponíveis.

E se as coisas correrem bem?

Depois, a discussão seguinte. Veremos na base da identificação da resposta a esta pergunta: um governo para quê e por quem é que vamos responder à pergunta um governo com quem.

Ou seja, eventuais acordos estão dependentes das pontes que um qualquer vencedor seja capaz de estabelecer com a CDU.

Dependerá do conteúdo das políticas que teria disposto a implementar na cidade. Nós temos vindo a fazer um esforço ao longo desta campanha para trazer para o centro do debate, não questões de lugares no executivo no sentido fechado, de repartição de lugares ou de pelouros, mas a discussão das políticas de que a cidade precisa e que não tem tido ao longo dos últimos anos. É do resultado das eleições do dia 1 de outubro que vai resultar também a força que cada uma das diferentes visões que se apresentam a estas eleições vai dispor.

"O cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa é incompatível com o de deputado no Parlamento europeu."

A força que a CDU vai ter também. Cresceu há 4 anos, com mais um vereador.

O que entendemos é que para abrir caminho ao novo rumo que defendemos para a cidade é essencial que a CDU saia reforçada destas eleições. E se isso acontecer, estaremos disponíveis para discutir essas soluções para a cidade. Com quem quer que seja. Não apenas com uma força, mas com todas.

Portanto, se PSD ou CDS ganhassem estariam igualmente disponíveis para encontrar uma solução.

A CDU tem por hábito, nas câmaras onde é maioria, distribuir pelouros por outras forças, não afunilando isso numa ou em duas forças. Tudo depende da vontade que cada uma delas tem em levar a cabo uma política em defesa do município e da população. Também temos por hábito onde, mesmo estando em minoria, quem detém a presidência da câmara e entenda atribuir-nos responsabilidades, e onde nós consideramos que temos condições para desenvolver um trabalho em prol das populações, aceitar esses pelouros. Em Lisboa não é diferente, não afunilamos isso numa ou noutra força. A nossa disposição é para conversar com todos.

Caso seja eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa,  já disse que terá de deixar o cargo de deputado europeu.

O cargo de presidente da Câmara Municipal de Lisboa é incompatível com o de deputado no Parlamento europeu.

Ou até mesmo um cargo de vereador com pelouro atribuído.

Também é incompatível.

"Não há nenhum vereador dos 17, da CML, que não se tenha feito substituir alguma vez. Não há nenhum que tenha estado durante os 4 anos em todas as reuniões. Eu estive numa grande maioria delas e naquelas que não estive fui sempre substituído por outro vereador da CDU."

Catarina Martins disse que Ricardo Robles é o único candidato que garante que vai estar os 4 anos em Lisboa. O facto de estar a concorrer como deputado europeu, e de nas últimas eleições ao não lhe ter sido atribuído um pelouro, permitiram-lhe ter mantido as duas funções. Agora pode ser diferente. Também garante que vai estar os 4 anos em Lisboa?

Como estive. A melhor demonstração de que isso vai acontecer foi o que se passou nestes últimos 4 anos. A CDU não faltou a nenhuma reunião de Câmara.

Mas você soma mais de 50 faltas. Não considera isso prejudicial?

A CDU, os vereadores eleitos pela CDU não faltaram a nenhuma reunião de Câmara. Não sei se alguma outra força poderá dizer isto, provavelmente não. Eu próprio estive presente numa larga maioria das reuniões de Câmara.

Mas ainda assim faltou a mais de 50.

No último ano estive presente em mais reuniões de Câmara do que o Presidente da Câmara Municipal. Desde que começou este ano. O registo das reuniões é público e pode ser consultado, espanta-me até que ninguém o tenha feito ainda, apesar dessa questão vir muitas vezes para cima da mesa. Em 2017 estive presente em mais reuniões de Câmara do que Fernando Medina que se fez substituir várias vezes. O que é natural. Não há nenhum vereador dos 17, da CML, que não se tenha feito substituir alguma vez. Não há nenhum que tenha estado durante os 4 anos em todas as reuniões. Eu estive numa grande maioria delas e naquelas que não estive fui sempre substituído por outro vereador da CDU.

E os 4 anos. Garante que os passará em Lisboa?

Não há ninguém que possa, à partida, dizer que vai ter um mandato a tempo inteiro. Por uma simples razão, quem atribui pelouros é o presidente da Câmara, nós não sabemos ainda quem vai ser. E não sabemos que pelouros ele vai atribuir porque isso depende dos resultados das eleições. Ora, quem não tiver um pelouro atribuído não vai estar a tempo inteiro na Câmara. Quem garante que vai estar a tempo inteiro na Câmara está a enganar os eleitores.

Ainda assim promete maior assiduidade?

Qualquer vereador que não tenha um pelouro atribuído não recebe um salário pela Câmara, não está a tempo inteiro na Câmara. Portanto terá, em princípio, uma outra atividade. Isso não torna a minha situação enquanto vereador sem pelouro ao longo dos últimos 4 anos igual à de todos os outros vereadores que não tiveram pelouros atribuídos exceto numa coisa: é que ao contrário dos vereadores das outras forças políticas, os da CDU tiveram uma presença constante na cidade. E isso é reconhecido por várias entidades da vida na cidade.

Pelas pessoas na rua, também?

Também, também. Mas não só, por um conjunto muito alargado de entidades da vida da cidade que reconhecem o trabalho que desenvolvemos, que reconheceram que tivemos presentes ao longo dos últimos anos. E mais do que isso, acho que isso é evidenciado pelo conhecimento que a CDU tem demonstrado ao longo desta campanha da real situação da cidade e dos vários problemas da cidade, em contraste até com aquilo que tem sido a falta de conhecimento que outras candidaturas têm evidenciado, mesmo algumas que tiveram vereadores eleitos.

Ainda da linha do reconhecimento da presença que tivemos, ao longo destes últimos anos, levei a cabo um contacto constante com variadíssimos serviços municipais.

Como por exemplo?

Limpeza e higiene urbana, proteção civil, educação, desporto... em variadíssimas áreas da vida da cidade. Ouço muita vezes trabalhadores do município dizerem-me que estive mais vezes presente nos locais de trabalho do que vereadores com o respetivo pelouro. Ainda hoje [quarta-feira, dia 27 de setembro] vamos às oficinas do Olivais, da limpeza e higiene urbana. Estive lá várias vezes e várias vezes ouvi esse comentário: "você vem cá falar connosco várias vezes, conhecer o problema, conhecer as dificuldades. Nunca cá vi o vereador do pelouro". Eu creio que isto também diz alguma coisa acerca da forma como encaramos os mandatos.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Não ter pelouro não significa que não está cá?

Exatamente.

Há pouco referiu as outras candidaturas. Recentemente o João acusou, sem referir nomes, de este estar a ser “ o tempo para aqueles que andaram a partir do Governo, em anos recentes, a semear a miséria em tantos dos bairros da cidade de irem hoje, de forma oportunista, procurar tirar dividendos da miséria que andaram a semear”. A quem se refere?

Acho que é evidente: ao PSD e CDS, que estiveram no governo entre 2011 e 2015, que aprovaram leis, nomeadamente a lei das rendas que expulsou tanta gente das suas casas em Lisboa, que ainda hoje faz com que tantas famílias sejam confrontadas com a perspetiva de um despejo, que aprovaram legislação que acentuou a especulação imobiliária em Lisboa e contribuiu para elevar os preços da habitação para preços incomportáveis, partidos que ao longo dos anos que estiveram no governo e que foram responsáveis pelo aumento das rendas nos bairros municipais, que foram responsáveis pelo corte de prestações sociais a tantas famílias de Lisboa, por um corte nos abonos de família, por cortes nos subsídios de desemprego, por cortes nos salários e nas pensões, por uma degradação como nunca se viu do transporte público na cidade, por levar empresas como o Metro e a Carris a uma situação de penúria do ponto de vista da resposta que se espera ao serviço público que lhes está cometido. Portanto, não podem vir agora esses partidos que tiveram responsabilidades diretas em tudo isto, procurar aproveitar de forma oportunista essa situação.

Considera que é hipocrisia?

É, foi isso que procurámos denunciar.

É essa a sua visão também do último mandato do PS? De degradação dos transportes, de especulação imobiliária, de uma política que tirou os lisboetas para fora da cidade?

Nessas situações existem responsabilidades partilhadas. Existem responsabilidades de quem esteve no governo e de quem está agora. Não eximimos de responsabilidade o atual governo, mas quem esteve também na Câmara de Lisboa pela ação que desenvolveu, não apenas não contribuindo para atenuar os impactos negativos das políticas nacionais, como em alguns casos até os acentuando.

Em que é que a maioria socialista tem falhado, na sua opinião?

Por exemplo, quando a Câmara de Lisboa alienou património seu, em condições tais que contribuiu para alimentar o processo de especulação não contribuiu para resolver os problemas de acesso à habitação em Lisboa, quando a Câmara Municipal de Lisboa, ao longo dos últimos anos, assistiu passivamente, mesmo tendo um lugar no conselho de administração da Carris, ao encerramento de carreiras, ao encurtamento de percursos, à supressão de horários à noite e ao fim de semana, à reformulação da rede num sentido que prejudicou a cidade, a Câmara tem responsabilidades também. Quando a CML defende para o futuro do metropolitano não um reforço do serviço prestado pelo metro na cidade, mas pelo contrário uma degradação do serviço...

O projeto circular?

Exato. Tem responsabilidades também na degradação do transporte público na cidade. Nisto e noutras áreas. Quando a Câmara opta ela própria por, ao longo de 10 anos, de governo do Partido Socialista em Lisboa, retirar dos quadros da Câmara 4 mil trabalhadores, a Câmara tem responsabilidades pesadas no que foi a degradação das condições de prestação de cuidados à população, na limpeza e higiene urbana, na gestão dos espaços verdes, no cuidado com o arvoredo, no cuidado com o saneamento.

Isso são os temas que a CDU quer reverter e colocar no centro do debate?

É uma das áreas que nós consideramos prioritária, o reforço da resposta dos serviços públicos municipais nesse conjunto de áreas da vida da cidade.

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Esse é um tema que virá, certamente, acompanhado de outros dois grandes temas desta campanha: transportes e habitação. Como é que a CDU olha para a proposta de rendas acessíveis que Medina apresenta?

Que apresenta agora, mas que já foi apresentada neste último mandato e não concretizada. Não há, das 5 mil casas prometidas até ao fim deste mandato, uma única. Uma única. Tinham sido prometidas 5 mil. O programa das rendas acessíveis tem dois grandes problemas. Em primeiro lugar, ele por si só, está longe de corresponder às necessidades no que respeita à habitação acessível em Lisboa. Este deixa de fora uma parte importante da população que fica também fora da habitação social, ou seja que não vai encontrar resposta num ou outro programa. E tem outro grande problema, que é ter como pressuposto a alienação de património municipal. Ou seja, esse programa, tendo aspetos positivos, que nós valorizamos, o próprio conceito de renda acessível, definido em função do rendimento efetivo das famílias, e não em função dos preços de mercado da habitação ou mesmo dos custos de construção, é um aspeto positivo que valorizamos. Mas tem um aspeto negativo que temos vindo a criticar que é o facto de ter como pressuposto a alienação de património municipal. Ou seja: alienar terrenos e habitações que podiam elas próprias ser postas ao serviço da criação de habitação a rendas acessíveis.

"Foi muito negativa a opção da maioria do partido socialista pela extinção da EPUL. Opção à qual não se opôs o PSD e CDS, apesar de agora chorarem lágrimas de crocodilo pela EPUL."

Com que ideias contrapõe a CDU?

A CDU sempre defendeu a necessidade de criar programas de rendas acessíveis, mas de outra forma que não desta. Aproveitando e valorizando o património municipal que existe e que está desaproveitado, reabilitando-o e retornando a iniciativa da Câmara no domínio em que a EPUL durante anos desenvolveu a sua ação: construção e reabilitação.

A EPUL que já não existe...

Desse ponto de vista, foi muito negativa a opção da maioria do partido socialista pela extinção da EPUL. Opção à qual não se opôs o PSD e CDS, apesar de agora chorarem lágrimas de crocodilo pela EPUL. Nenhum deles se opôs. A CDU foi a única força na Câmara a opor-se à extinção da EPUL. Entendemos que a Câmara deve retomar a iniciativa quer da construção, quer da reabilitação.

Construir e reabilitar. É por aí que passam as ideias da CDU para o futuro da habitação em Lisboa.

Deve ser criado um regulamento legislativo e regulamentar que preveja que por cada nova operação de construção ou de reabilitação profunda em Lisboa, obrigatoriamente um número dos fogos construídos ou reabilitados seja canalizado para rendas acessíveis. A proposta que fazemos é que esse número não seja inferior a 25%. Propomos também que a Câmara, em condições não especulativas, possa exercer o direito de preferência sobre edifícios que considere nucleares para a promoção do direito à habitação em Lisboa. Uma coisa que a Câmara não tem feito ao longo dos últimos anos.

Isto são propostas que no seu conjunto vão muito além do Programa Renda Acessível e que terão um alcance muito superior ao do Programa Renda Acessível. Algumas delas foram aprovadas pela própria Câmara Municipal ao longo dos últimos anos, como orientações a prosseguir. Mas que não foram levadas à prática.

"As dificuldades que o desenvolvimento do turismo tem colocado à cidade têm que ver com o facto de a Câmara se ter demitido de ter um papel regulador desse crescimento turístico."

 

Estas medidas são a manifestação da vontade da CDU em devolver o centro de Lisboa à classe média?

Sim, mas mais do que uma manifestação de uma intenção temos propostas concretas que nos permitam assegurar isso. Sem esquecer que ao contrário do que diz Fernando Medina, o problema da habitação social está longe de estar resolvido em Lisboa e até, num certo sentido, tendo em conta as necessidades que hoje em dia existem, considerar essa uma questão resolvida pode ser perigoso porque há hoje muita gente com menores rendimentos que não encontram resposta na habitação social e que também não vão encontrar resposta no programa renda acessível.

O turismo é outro aspeto que tem mexido, também, com o mercado imobiliário. Lisboa estava preparada para este boom?

As dificuldades que o desenvolvimento do turismo tem colocado à cidade têm que ver com o facto de a Câmara se ter demitido de ter um papel regulador desse crescimento turístico. O turismo foi, é e será uma parte importante da base económica do desenvolvimento da cidade, mas é necessário que a CML tenha um intervenção no sentido de potenciar o que de positivo ela possa trazer e ao mesmo tempo minorar o impacto negativo que resulta também de um crescimento muito acentuado da atividade turística. Foi por a Câmara se ter demitido dessa função, que permitia compatibilizar o turismo com outras funções importantes da vida da cidade, como a habitação, com a mobilidade, com a limpeza e higiene urbana, que nós assistimos hoje a um conjunto de impactos negativos do crescimento turístico desordenado.

"O Estado tem que assumir responsabilidade pelo financiamento de uma empresa como a da Carris."

 

A mobilidade. Esse é outro dos temas que a CDU faz representar no seu programa. Quais é são os vossos planos para a Carris?

Nós entendemos, em primeiro lugar, que é necessário assegurar um modelo financeiro sustentável para a Carris. A Carris é uma empresa da cidade de Lisboa, mas é uma empresa metropolitana, estruturante da mobilidade no conjunto da área metropolitana que hoje desenvolve a sua ação em 6 concelhos da AML, quanto a nós pode, no futuro, estender essa ação a outros concelhos. Densificando a rede nos concelhos onde só marginalmente tem atividade, não pode ser uma empresa financiada unicamente através dos bilhetes pagos pelos utentes, nem sequer das receitas do estacionamento na cidade de Lisboa. Isso é contraditório com um objetivo, que deve ser o de qualquer política de mobilidade sustentável, que é retirar carros da cidade.

Isso tem a ver com as obras do eixo central que a CDU apoiou e que há pouco estávamos a falar.

Ora se nós fazemos depender o financiamento da Carris das receitas do estacionamento e dos bilhetes pagos, em primeiro lugar vamos ter sempre bilhetes demasiados caros para tornar o transporte público atrativos. E em segundo lugar vamos depender que entrem carros na cidade para ter receitas suficientes para financiar uma empresa como a Carris. Portanto nós temos que cortar com esta perversidade e temos que perceber de uma vez por todas que, à semelhança do que acontece na generalidade das grandes cidades europeias, o Estado tem que assumir responsabilidade pelo financiamento de uma empresa como a da Carris.

E depois defendemos que ao contrário do que está previsto no atual plano estratégico da Carris definido por Fernando Medina que não chega a Carris ter daqui por 2 anos o nível de oferta que fica ainda aquém do que tínhamos ainda há 6 anos. Nós temos que repor no imediato os níveis de serviço que tínhamos pelo menos em 2011 levando a Carris às zonas onda ela deixou de ir, porque as carreiras foram suprimidas, repondo horários à noite e fins de semana onde eles foram suprimidos e repondo a frequência de carreiras onde ela deixou de existir com um sentido geral que é o do número médio de transbordos necessários. As sucessivas alterações que se fizeram na Carris ao longo dos anos, desde 2007, com a introdução da chamada rede 7, tiveram como consequência o aumento do número médio de transbordo necessário por deslocação. Nós defendemos uma reorganização da rede em sentido contrário. Diminuir o número médios de transbordos exigido a um percurso médio, nessa medida tornar a utilização do transporte público mais cómoda e mais atrativo.

Está também a falar da interligação entre CP e Metro?

Também, mas não só. Estou também a falar da própria rede da Carris que foi alterada desde 2007. Insisto: a Câmara assistiu a tudo isto passivamente. E a rede 7 piorou significativamente o serviço prestado pelo Carris na cidade. Isso é que é necessário reverter, mas é necessário reverter hoje não é por daqui a 10 anos como disse, quando assumiu responsabilidades pela Carris Fernando Medina.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

E o metro? Tem sido alvo de constantes críticas por parte dos lisboetas. Tempos de espera, degradação do serviço...

Sobre o metro o que temos dito em relação ao metro é que é necessário assegurar no imediato a reposição dos níveis de serviço em 2011. Isto exige contratação de pessoal, o governo prometeu até ao final deste ano 30 novos maquinistas. Por um lado eles não chegam, por outro lado ainda só 10 é que entraram. É necessário o investimento no metro que permita comprar as peças que faltam e que deixam composições neste momento encostadas.

E isso é necessário e é possível fazer-se desde já: repor os níveis de oferta que o metro já teve e deixou de ter.

Em relação à expansão da rede, a CDU não se mostrou muito fã do projeto circular.

É necessário pensar a expansão da rede em função de quem vive e trabalha na cidade e levar a rede a zonas onde ela hoje não existe e faz falta nomeadamente concretizando planos que estão estudados há muitos anos pelo próprio metropolitano, de expandir a linha vermelha para a zona ocidental da cidade, levando-a a Campo de Ourique, Amoreiras, Campolide, Alcântara e a partir daí para a Ajuda e Belém. Ligando a linha verde, a partir de Telheiras, à linha azul e prolongando a linha que chega ao aeroporto à Alta de Lisboa, ligando-a à linha amarela e levando a linha amarela até Loures. Isto são as opções que estão há muito tempo estudadas e que vêm ser postas em causa pela ideia agora da linha circular que não apenas vem comprometer o desenvolvimento da rede neste sentido, que está estudado há muito tempo, como vem degradar o serviço que é prestado em várias zonas da cidade.

Como assim?

Por exemplo, toda a zona norte da cidade que hoje tem ligações diretas ao centro da cidade irá perder com a linha circular essas ligações diretas. Por outro lado, o que está projetado para a linha circular é um nível de oferta que está aquém do que tínhamos na linha verde há 6 anos e a linha circular é a linha onde se vão concentrar meios o que só significa que todas as outras linhas, que são periféricas, passarão a ter níveis de serviço ainda inferiores a isso. Está previsto para a linha circular um nível de tempo de espera de composições de espera de 3 minutos e meio, nós tínhamos na linha verde há 6 anos 3 minutos de tempo de espera.

O metro atualmente não está preparado para esse aumento para o imediato?

Isso é uma evidência, nós temos desde já os níveis de oferta que existiram e deixaram de haver. É impensável que existam tempos de espera de 10 minutos e meio como vemos hoje. Esse é o primeiro e fundamental passo. Depois temos de pensar a expansão da rede, não em função do turismo e dos interesses ligados ao turismo, mas em função das necessidades da cidade como um todo, das necessidades da população da cidade, daqueles que vivem e trabalham em Lisboa. E isso exige não um investimento caro e muito exigente do ponto de vista técnico para criar apenas duas estações que permitam o funcionamento de uma linha circular na zona central da cidade, mas exige que se pegue nesse investimento que está previsto para fechar essa linha circular e concretizar os planos de expansão da rede que o próprio metro tinha estudado há vários anos. Só falta concretizá-los.

Falando de uma Lisboa para os lisboetas. A única junta de freguesia de Lisboa liderada pela CDU é a de Carnide, é um exemplo para extrapolar para a Câmara?

Carnide tornou-se num exemplo ao longo destes anos por duas razões. A primeira porque pese embora todas as dificuldades e constrangimentos que são hoje impostos às freguesias conseguiu-se que o trabalho que ali foi desenvolvido pela CDU um nível de qualidade de vida que é referência na cidade e assegurado à generalidade da população. Numa freguesia que é marcada por disparidades sociais importantes conseguiu-se assegurar a toda a população da freguesia um nível de qualidade de vida ímpar na cidade e que é referência hoje. Por outro lado porque há em Carnide um estilo de trabalho dos eleitos da CDU, uma forma de estar nos cargos, que demonstrou ser diferente também nos últimos anos. Este compromisso de quem está sempre ao lado das populações nas pequenas e grandes lutas, de quem assume a defesa dos interesses das populações perante qualquer tentativa de imposição, perante a negligência dos poderes públicos municipais ou centrais. Perante a prepotência como se viu em Carnide, no caso da imposição dos parquímetros. Nós tivemos a junta de freguesia na primeira linha de defesa do interesse das populações. Foi isso que tornou possível, por exemplo, que exista em Carnide desde 2014 um centro de saúde, que continua a faltar em tantas das freguesias desta cidade. Quer pela obra que ali foi desenvolvida, quer pelo estilo de trabalho que a CDU demonstrou ter nos últimos anos, ao nível de proximidade com as populações de não abdicar nunca de estar na primeira linha de defesa dos seus interesses, Carnide tornou-se um exemplo e uma referência na cidade.

Lisboa tem sido várias vezes designada como trampolim político. Será também para o João, especialmente dentro do partido?

Não. Acho que não há mais nada a dizer. Não temos essa visão e acho que por tudo o que disse anteriormente ficou já patente, mas não temos essa visão do exercício de cargos públicos seja em Lisboa seja em qualquer outro sítio.

*As fotografias que ilustram a entrevista foram recolhidas durante uma ação de campanha do candidato João Ferreira nas oficinas municipais, nos Olivais, a qual o SAPO24 acompanhou.

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