A perceção foi dada por telefone à agência Lusa pelo fotojornalista português João Sousa, “freelance”, que foi apanhado pelas explosões mortíferas e devastadoras no porto de Beirute, onde reside desde janeiro deste ano, e que tem estado a acompanhar a evolução da situação de caos que se criou na capital libanesa.

Cansada de uma classe política em que cada vez menos confia, a quem acusa de corrupção e de uma má gestão da pandemia de covid-19 e, agora com a “falta de ajuda do Governo” nas operações de rescaldo, alguns cidadãos da capital estão a edificar uma forca na Praça dos Mártires, no centro de Beirute, para, sábado, “simbolicamente”, “enforcar” os dirigentes libaneses em mais uma ação de protesto.

“Exigem a cabeça dos políticos. Mas se [sábado] aparecer alguém enforcado, a coisa pode resvalar e pode abrir um precedente perigoso, pois o ambiente é cada vez mais de raiva e de perplexidade, pois as pessoas estão saturadas e fartas” da classe política libanesa, advertiu.

“E é a forma mais recente de os cidadãos expressarem a sua revolta por um Governo que não tem ajudado a população que, à medida que deixa de lado a tese de um ataque de Israel, se revolta ainda mais para denunciar a incompetência” do executivo liderado pelo primeiro-ministro Hassan Diab, sublinhou à Lusa João Sousa.

Segundo o ‘freelancer’ português, de 42 anos e natural de Lisboa, e que trabalha como fotojornalista no diário libanês L’Orient-Le Jour, o único jornal em língua francesa no país, o Líbano viveu em outubro de 2019, com maior adesão, e em janeiro deste ano, com menor, um “movimento revolucionário” que, em parte devido à pandemia do novo coronavírus, não vingou.

“Isto tudo suscitou dúvidas sobre se esse movimento teria pernas para andar, mas, atualmente, essas mesmas dúvidas foram dissipadas e parece que há uma grande legitimidade para os insultos constantes aos políticos, desde o Presidente (Michel Aoun), ao primeiro-ministro, aos ministros, enfim, a toda a classe política”, sublinhou.

E é precisamente isso que João Sousa disse ouvir nas ruas, cada vez com maior intensidade e insistência [quarta-feira à noite houve fortes protestos na capital libanesa], sobretudo depois de se ter generalizado entre a população de Beirute a ideia de que não há funcionários públicos a ajudar na limpeza da cidade e que tal está a ser feito espontaneamente pelos próprios habitantes.

Surpreendido, João Sousa relatou à Lusa que observou centenas de jovens, voluntários, a aparecerem espontaneamente nas ruas de Beirute para ajudar nas limpezas – “a quantidade de vidros estilhaçados é impressionante e os destroços são incontáveis” – e, sobretudo, a montarem bancas em que distribuem água potável à população.

“Há uma abundância de água e de alimentos nas ruas à medida que os voluntários, na maioria, jovens vão chegando e isso impressiona”, frisou João Sousa, que também relatou o lado “negativo”, com a existência de saques nas residências que ainda ficaram de pé, mas sem condições de habitabilidade.

Pelas ruas, referiu João Sousa, vêm-se os comerciantes a “fazerem o que podem” para salvar as lojas, entaipando as montras ou janelas, carregando o que podem para locais seguros e lamentando os prejuízos, cuja verdadeira dimensão só conseguiram perceber no dia a seguir às explosões.

“Houve o choque, a reação ao choque, as mortes, os feridos, as idas aos hospitais, o desespero pela falta de notícias sobre familiares ou amigos, enfim, o ter de lidar com o acontecimento. Do que sei, poucas pessoas conseguiram dormir [na noite de terça para quarta-feira]”, observou.

Segundo os dados mais recentes, as explosões de terça-feira no porto da capital libanesa provocaram pelo menos 154 mortes e mais de 5.000 feridos, 120 deles em estado grave.

As explosões destruíram bairros inteiros da capital libanesa, deixando mais de 300 mil pessoas sem teto, havendo ainda cerca de uma centena de desaparecidos.

Cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio que estavam armazenadas no porto de Beirute estarão na origem das explosões, que levaram à declaração da capital como "zona de desastre".

Na quarta-feira foi decretado o estado de emergência em Beirute por duas semanas.

A tragédia atingiu o país que vive uma crise económica séria - marcada por uma desvalorização sem precedentes da sua moeda, hiperinflação, despedimentos em massa -, agravada pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou as autoridades a confinarem a população durante três meses.

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