Diz-se que há sempre um português em todo o lado. Quando menos se espera, lá se ouve alguém falar na língua que, como dizia o poeta, é a nossa Pátria. No Reino Unido não é diferente: muitos são os portugueses que por lá passeiam de vez em quando, mas muitos são também aqueles que lá fazem vida.

Um deles chama-se Maciel Vinagre. É madeirense, natural de São Vicente, e tem 45 anos. Chegou ao Reino Unido aos 18, deixando para trás estudos em contabilidade para trabalhar num restaurante, aprender a língua inglesa e "tentar uma vida melhor".

Diz que gosta do Reino Unido porque é dado "valor à experiência, a pessoas dedicadas e empenhadas e menos aos títulos académicos". E foi em terras de Sua Majestade que foi crescendo. Mesmo sem um curso superior, acumulou formações profissionais que lhe permitiram progredir na carreira: começou como empregado de limpeza no hospital, em 1997, e chegou ao atual posto de diretor adjunto dos serviços de limpeza e restauração dos hospitais de Ashford e de St. Peter’s, no sudoeste de Londres, perto do aeroporto de Heathrow, em 2011. Atualmente lidera cerca de 200 pessoas, entre os quais 30 portugueses.

Apesar no percurso notável, não é apenas por isso que hoje ouvimos falar de Maciel. O motivo é outro — e tem mão de Isabel II.

Vinagre é um dos 414 "heróis anónimos" a quem foram conferidas condecorações da Rainha em reconhecimento da intervenção "excecional" durante a crise, desde cientistas e enfermeiros a pessoas que produziram equipamento de proteção ou ofereceram refeições a profissionais de saúde e professores de ginástica que deram aulas gratuitas pela Internet durante o confinamento.

A Rainha agracia dezenas de pessoas duas vezes por ano, no Ano Novo e por ocasião do aniversário oficial, em junho, por recomendação do Governo. Como já não espanta, este ano a divulgação da lista foi adiada até outubro, para ter também em conta nomeações de pessoas que desempenham papéis cruciais durante os primeiros meses da pandemia, dando prioridade aos "heróis da linha da frente" e da comunidade que foram além das suas obrigações para ajudar os outros.

Para o português, tudo parecia mentira ou engano quando chegou o email com a boa notícia: tinha sido distinguido pela Rainha Isabel II pelo trabalho como responsável da limpeza de dois hospitais públicos britânicos durante a pandemia de covid-19.

"Estava no escritório e recebi um email do 'Cabinet Office' [ministério do Governo] a dizer que tinha sido distinguido na lista da Rainha. No princípio pensava que era mentira, só pode ser engano. Os meus colegas disseram-me para apagar porque podia ser fraude", contou, entre risos, à agência Lusa.

Mas não era uma fraude, era uma medalha, mais concretamente a do Império Britânico ('British Empire Medal', designada pelo título BEM). "Nunca na vida pensei que poderia receber uma medalha destas", afirmou, incrédulo.

A nomeação para a insígnia foi feita por colegas e superiores pelo "conhecimento e criatividade" que demonstrou para prevenir e conter a infeção pelo novo coronavírus dentro dos hospitais e proteger não só os doentes, mas também funcionários, introduzindo novas tecnologias e produtos.

Mas, afinal, o que fez Maciel? Uma das inovações foi a contratação de uma empresa especializada em desinfestação para aplicar através de vapor um produto desinfectante que encontrou e que mantém as superfícies livres de vírus e bactérias durante 30 dias. Segundo o próprio, a medida "valeu a pena", já que "o hospital tem uma das taxas de mortalidade mais baixas da zona".

A diferença foi também marcada pela resposta a um pedido da enfermeira chefe, em plena pandemia, que solicitou uma solução que permitisse esterilizar máscaras de proteção dos profissionais de saúde para serem reutilizadas porque não sabia se ia receber um novo abastecimento, uma situação que afetou vários hospitais no Reino Unido. A solução foi criar uma espécie de estendal: "mandei fazer uma linha tipo de secar roupa, pendurámos máscaras e esterilizámos 500 em três dias com luzes ultravioleta. Felizmente não foi preciso porque chegaram novas, mas se fosse preciso estava o processo pronto", contou Vinagre.

Além disso, o português também foi elogiado pela forma como conseguiu recrutar rapidamente trabalhadores para compensar as ausências e também pela forma responsável e sensível como soube motivar os empregados de limpeza numa altura em que muitos estavam preocupados com o risco que eles próprios corriam — e numa altura em que viram morrer quatro funcionários do hospital, um deles português.

Apesar dos "momentos muito difíceis" entre março e junho, os piores meses da primeira vaga da pandemia, quando os dias de trabalho chegavam a estender-se por 15 horas, a liderança de Maciel Vinagre ajudou a dar visibilidade e importância às equipas de limpeza hospitalar, pelo papel crucial desempenhado no combate à doença que já matou mais de 44 mil pessoas no país.

Maciel é o terceiro português agraciado pela Rainha Isabel II. Antes dele, a pintora Paula Rego foi ordenada, em 2010, Dama Oficial da Ordem do Império Britânico, e Lino Pires, proprietário de um restaurante, recebeu em 2013 uma BEM por serviços prestados à comunidade ao angariar fundos para causas sociais.

Em 2020 foi a vez de Maciel Vinagre. E, conhecida a condecoração, falta recebê-la realmente e festejar. Dependendo da evolução da pandemia, o português e todos os restantes BEM vão ser convidados para uma festa no Palácio de Buckingham, no próximo ano, na presença de membros da família real. Maciel já sabe quem quer levar consigo. "Os meus pais estão na Madeira e estão muito orgulhosos. Mas se eu puder levar alguém, levo a minha filha", decidiu.

É caso para se dizer que a vida de Maciel Vinagre mudou com esta condecoração — agora até pode usar a sigla da medalha na sua assinatura, após o nome —, mas não é só isso que está em causa. Com todo o seu trabalho no hospital, com a sua equipa, quantas vidas terão já sido mudadas este ano?

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