Obama ganhou as eleições de 2008 e chegou à Casa Branca, em janeiro de 2009, envolto na aura da sua palavra de ordem “yes we can” (sim, podemos) e nas promessas de mudança que continha. Mudanças aconteceram e promessas ficaram por cumprir.

No primeiro ano de mandato de Barack Obama, com a crise financeira a fazer estragos globais, cerca de quatro milhões de americanos perderam os empregos, segundo números oficiais, muitas centenas perderam a vida nas guerras do Iraque e do Afeganistão – Obama não acabou com os dois conflitos, mas viria a cumprir a promessa de retirar as tropas de combate norte-americanas dos dois cenários bélicos -, e a dicotomia política entre Democratas e Republicanos manteve-se profunda.

O combate interno que esperava Barack Obama ficou claro desde o início, com o líder republicano no Senado, Mitch Mcconnell a afirmar que “a coisa mais importante a alcançar é que o Presidente Obama seja um Presidente de um só mandato”.

No discurso inaugural da sua presidência perante o Congresso, Barack Obama surpreendeu analistas pelo tom pouco otimista. “Estamos a atravessar tempos difíceis e incertos”, advertiu o recém-empossado Presidente.

E o que poderia ser um momento de glória acabou por ser um embaraço, quando o comité Nobel decidiu atribuir a Obama o Nobel da Paz 2009, apenas meses depois da tomada de posse.

“Seria culpado de negligência se não reconhecesse a considerável controvérsia que a vossa generosa decisão gerou”, disse Obama ao aceitar o prémio em Oslo.

Na cena internacional, Barack Obama tratou de substituir o unilateralismo de George W. Bush por uma postura mais dialogante da maior potência mundial, e a sua afirmação, feita durante uma visita a Berlim, que “nenhuma nação, não importa quão grande ou quão poderosa, pode vencer estes desafios (o terrorismo internacional e a expansão ‘jihadista’) sozinha” foi recebida como o início de uma nova era.

Barack Obama teve durante o seu primeiro mandato um momento de catarse da “guerra contra o terrorismo”, lançada pelo seu antecessor George W. Bush, com a morte em 02 de maio de 2011 do líder da Al-qaida, Osama Bin Laden, abatido no Paquistão numa ação de forças especiais norte-americanas.

A mudança de postura de Washington, que foi também uma reação ao custo elevado – financeiro, em vidas e em capital político doméstico – da função de “polícia do Mundo” que os Estados Unidos tinham vindo a assumir, significou, no entanto pressão acrescida sobre os países aliados para que assumissem maiores responsabilidade, enquanto os Estados Unidos passariam a aplicar outro conceito nascido na administração Obama – a “liderança de segundo plano”.

O abandono da função de polícia do mundo esteve associado a uma das promessas que Obama deixará por cumprir no final dos seus dois mandatos – o encerramento do campo de detenção de suspeitos de terrorismo na base militar de Guantánamo em Cuba, onde ainda permanecem 60 detidos, sem julgamento.

A nova doutrina de retração da projeção de poder pelos Estados Unidos surgiu, no entanto, numa conjuntura que analistas consideram pouco favorável aos interesses norte-americanos, com os principais rivais de Washington – Moscovo e Pequim – a serem cada vez mais assertivos e com os aliados tradicionais na Europa enfraquecidos pela crise económico-financeira e virados para problemas domésticos.

A Síria tornou-se um exemplo dramático dos efeitos perversos da doutrina geoestratégica de Obama, com os Estados Unidos a recusarem intervir perante o agravamento do conflito, exceto no combate aos ‘jihadistas’, criando um vazio que foi ocupado pela Rússia.

Mas foi também essa mudança de posicionamento que permitiu dois triunfos diplomáticos que constituirão legado de Barack Obama – a normalização de relações entre os Estados Unidos e Cuba, alcançada em julho de 2015, e um acordo histórico entre países ocidentais e o Irão em abril de 2015, sobre a fiscalização do programa nuclear iraniano, mas que abriu também o caminho da normalização de relações.

Os mandatos presidenciais de Barack Obama produziram igualmente mudanças profundas na política doméstica dos Estados Unidos, conseguindo consensos na sociedade americana que ultrapassaram bloqueios tradicionais da oposição republicana, desde a rápida ratificação do acordo de Paris sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa até a criação de um sistema generalizado de cuidados básicos de saúde, que ficou conhecido como ‘ObamaCare’.

Essas “mudanças culturais” ficaram bem exemplificadas em junho de 2015, numa semana invulgar em que desafios legais ao ‘ObamaCare’ foram ultrapassados e em que o Supremo Tribunal reconheceu o casamento homossexual.

Obama perdeu outras batalhas, como a de legislar sobre o controlo do uso de armas, apesar de ter feito do assunto uma das suas prioridades.

Na frente económica, a administração Obama combateu a crise financeira com estímulos fiscais em grande escala e flexibilização da política monetária, no que o antigo secretário do Tesouro Timothy Geithner batizou como “uma parede de dinheiro”, que conteve a crise e fez a economia passar de um crescimento negativo recorde de -4,1% no segundo trimestre de 2009 para uma evolução positiva 2,4 por cento em 2015, segundo números do gabinete de análise económica do governo federal.

Mas a recuperação económica não eliminou as clivagens, com os media norte-americanos a identificarem os grandes debates centrados nas dicotomias entre “globalistas” e “nativistas”, entre “populistas” e “liberais”.

Barack Obama chegou a ser criticado como o “Professor Obama”, por ter uma postura fria e distante, mas chega ao fim de dois mandatos com níveis elevados de popularidade – 54 por cento segundo uma média de sondagens compilada pela empresa especializada Gallup – e com uma presidência reconhecida, tanto por apoiantes democratas como por rivais republicanos, como isenta de escândalos.

O tempo da história ainda não chegou para Barack Obama e o seu legado ainda não está consagrado, mas quando o 44.º Presidente dos Estados Unidos se prepara para deixar o gabinete oval da casa branca, sondagens indicam que 55% dos americanos acreditam que as esperanças de mudança de 2008 deram frutos.

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