O incêndio florestal, que entrou em fase resolução ao início da tarde de hoje, chegou sorrateiro aos Andreus, mas rapidamente ganhou uma força incontrolável, impulsionado pelo vento forte, e cercou, ao início da noite, a pequena e verdejante aldeia de São Simão, com pouco mais de 50 habitantes, na maioria idosos.

"Primeiro vi uma coluna de fumo branco, perto da aldeia. Até comentei para o meu neto, que estava ao computador, que andava fogo por perto. Passados poucos minutos já só vejo colunas negras de fumo e chamas enormes no meio da aldeia. Foram momentos de terror os que vivemos aqui", descreve Maria Fátima Lopes, 58 anos.

Com a casa ainda afastada das chamas e os bombeiros a salvar pessoas e bens em várias aldeias, "a primeira lembrança foi acudir ao gado" e pediu ajuda ao neto.

"Aquilo era um cenário tal que o meu neto entrou em pânico. Tivemos de ir de ambulância para o hospital com ele e só regressei hoje de manhã. A casa estava intacta e as ovelhas a salvo", nota.

Foi o vizinho Celino quem lhe salvou o gado e esteve a combater as chamas para lhe defender a casa.

"Foi o meu vizinho quem me salvou a casa, soube hoje. Fico-lhe agradecida para o resto da minha vida", reconhece Fátima.

Com as chamas ainda afastadas da sua habitação e o gado protegido, Celino Ribeiro, 67 anos, decidiu ir buscar mangueiras, baldes e enxadas para defender os bens alheios.

"Olhe, foram 24 horas em que não me deitei porque havia trabalho a fazer, a salvar o gado dos vizinhos e a ajudar a defender as suas habitações. Foi uma noite para esquecer", suspira.

Celino e toda a população de São Simão receberam ordem de retirada imediata da aldeia para a sede do concelho, perante o cair da noite e a ameaça das chamas sem controlo. Acatou as ordens, mas depressa regressou.

"Quando chego ao Sardoal bebo uma água e dizem-me que havia mais casas em perigo. Agarrei-me ao carro, fiz-me à estrada e lá consegui passar para a aldeia, no meio de um manto negro de fumo e chamas. Com a água dos tanques e de depósitos, baldes, mangueiras e enxadas para mandar terra para o fogo, salvei umas casas, ovelhas e apaguei o fogo em várias oliveiras. Só a casa de um vizinho é que não conseguimos salvar. Bem tentámos, eu e ele, mas já não havia hipótese", lamenta.

"A casa ardeu toda, à exceção de um anexo. Está tudo queimado. Quartos, telhado, sala. Ainda tentámos mas não conseguimos", repetem Bernard Huot e Ana Silva, residentes na única habitação que ardeu no concelho de Sardoal.

Para já, vão para casa de familiares, mas admitem que os escombros terão de ser deitados abaixo para “fazer tudo de novo”.

A ordem de retirada da população da aldeia de São Simão foi dada pelo presidente da Câmara de Sardoal, uma decisão que "não foi difícil" perante as circunstâncias e a dimensão do incêndio.

"Não foi uma decisão difícil de tomar porque primeiro estão as pessoas, depois os bens", salienta Miguel Borges, lembrando que "toda a aldeia estava em risco" e que é habitada por gente idosa.

Depois desta “decisão tomada a tempo e horas”, de manhã todos os moradores puderam regressar às suas casas, sãos e salvos.

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