Augusto Santos Silva, número dois do Governo, que regressou hoje a Lisboa vindo da Índia para estar presente nas cerimónias fúnebres de Mário Soares, falava aos jornalistas à entrada para o Mosteiro dos Jerónimos, onde o corpo do antigo Presidente da República está em câmara ardente.

"O facto de o primeiro-ministro manter a sua visita de Estado à Índia é, do meu ponto de vista, uma bela homenagem que presta ao doutor Mário Soares. Tenho a absoluta certeza de que o doutor Soares compreenderia, exatamente porque uma das muitas coisas que o doutor Soares nos ensinou foi que, justamente quando exercemos funções públicas, assumimos responsabilidades, temos deveres, em relação ao Estado, em relação ao país", declarou.

"E o que o doutor António Costa está a fazer na sua visita de Estado muito importante à Índia é justamente a defender os interesses de Portugal", acrescentou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Augusto Santos Silva disse que a notícia da morte de Mário Soares foi recebida pela delegação do Governo português na Índia "com enorme tristeza e enorme emoção".

Questionado se não poderia ter substituído o primeiro-ministro nessa visita de Estado à Índia, Augusto Santos Silva respondeu: "A nossa decisão foi exatamente simétrica, e parece-me essa ser a decisão mais adequada. O que nós decidimos é que seria eu a interromper a visita, visto que eu não protagonizo a visita".

"Estava como ministro dos Negócios Estrangeiros, naturalmente, acompanhando o primeiro-ministro na visita de Estado. E, portanto, por um lado isso permite manter a visita de Estado na Índia liderada pelo primeiro-ministro, e ao mesmo tempo permite que o ministro dos Negócios Estrangeiros, como é sua responsabilidade, receba todas as delegações estrangeiras que vão assistir ao funeral e homenagear o doutor Mário Soares. E como também acontece que eu sou o número dois do Governo, isso significa que, neste momento, sou o primeiro-ministro em funções", completou.

Augusto Santos Silva recordou Mário Soares como "uma pessoa moderada, um democrata, socialista, europeu, que acreditava na possibilidade da coexistência pacífica entre pessoas e entre povos", que combateu tanto "os perigos da radicalização à esquerda", nos anos 70 e 80, como "os perigos da radicalização à direita", mais recentemente.

Instado a partilhar uma memória de Mário Soares, o ministro lembrou a "derrota política" que este lhe infligiu, a si e a outros da sua geração, logo após o 25 de Abril, nos tempos do chamado Processo Revolucionário Em Curso (PREC).

Santos Silva disse que, na altura, inserido "no meio esquerdista", desvalorizava a importância da instauração em Portugal de uma "democracia europeia, pluralista e parlamentar", ao contrário de Mário Soares, que a considerava essencial.

"E tinha inteira razão. Portanto, ainda bem que ele ganhou", acrescentou.

Mário Soares morreu no sábado, aos 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa.

O Governo português decretou três dias de luto nacional, até quarta-feira.

O corpo do antigo Presidente da República está em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos desde as 13:10 de hoje, depois de ter sido saudado por milhares de pessoas à passagem do cortejo fúnebre pelas principais ruas da capital  com escolta a cavalo da GNR .

O  funeral realiza-se na terça-feira,  pelas 15:30, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, após passagem do cortejo fúnebre pelo Palácio de Belém, Assembleia da República, Fundação Mário Soares e sede do PS, no Largo do Rato.

Nascido a 07 de dezembro de 1924, em Lisboa, Mário Alberto Nobre Lopes Soares, advogado, combateu a ditadura do Estado Novo e foi fundador e primeiro líder do PS.

Após a revolução do 25 de Abril de 1974, regressou do exílio em França e foi ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro entre 1976 e 1978 e entre 1983 e 1985, tendo pedido a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1977, e assinado o respetivo tratado, em 1985.

Em 1986, ganhou as eleições presidenciais e foi Presidente da República durante dois mandatos, até 1996.

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