Maria Luísa subiu a custo e sem fôlego o último lance de escadas.

Depois do banho e com os pijamas vestidos, as crianças foram para a cama. Ela tinha por hábito deitá-las, mas não era sem dificuldade que as aquietava e apagava a luz antes de sair do quarto.

Cada dia que passava lhe custava mais fazer o que quer que fosse. Sentia-se muito cansada e durante a noite encharcava-se de suor. Ela não se compreendia. Como seu pai lhe havia ensinado a ser forte, não se queixava e nada dizia à senhora dona da casa.

Maria Luísa, mulher de meia idade, toda a vida, desde que saiu da casa de seus pais aos onze anos, criou filhos dos outros. Tinha muitos, mesmo sem dar à luz um que fosse verdadeiramente seu. Agora, servia numa casa senhorial. Era bem tratada, embora comesse na cozinha e dormisse num quarto anexo à grande moradia.

Os senhores trabalhavam todo o dia fora de casa.

Maria Luísa, a ama e criada da família, ficava todo o dia com dois meninos gémeos de quatro anos e duas meninas de idades aproximadas.

Cumpria as suas obrigações domésticas além de entreter as crianças. O que gostava mais de fazer, era passar a roupa a ferro, inventando histórias, com os quatro à sua frente, sentados no chão. Nem ela sabia de onde lhe vinham tantas ideias. Uma noite até sonhou que era escritora.

Os fins de semana eram difíceis. Havia muito trabalho e os patrões ficavam mais tempo em casa. Ela achava-se pouco à vontade. Sentia-se vigiada, o que a incomodava bastante, desejando a chegada do primeiro dia da semana

A sua maior preocupação era a dificuldade em movimentar-se. Tinha falta de ar e muito cansaço no peito. Exausta, tossia regularmente, mas evitava a todo o custo fazê-lo em frente dos senhores com medo que a despedissem.

Os meninos já eram seus mesmo sem o saberem. Tinha-os visto nascer, e embalado no colo um a um.

Num sábado ao final do dia, teve um acesso de tosse. A senhora ouviu, levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Nesse preciso momento, sem conseguir parar de tossir, Maria Luísa cuspiu sangue no lenço de pano branco que sempre trazia consigo. Assustada, a senhora levou-a de imediato para o hospital.

Lá ficou Maria Luísa, sempre a pensar nos meninos, sem qualquer pena de si própria. O resultado da análise chegou e com ele o veredicto: tuberculose.

Como não podia deixar de ser, Maria Luísa foi afastada e enviada para a sua casa na aldeia, de onde estava proibida de sair, até ficar totalmente curada, o que poderia levar meses. Essa foi a recomendação dos médicos, que ela acatou sem hesitações.

Maria Luísa ficou lá, fechada em casa.

Sozinha, com a excepção da enfermeira que entrava para as injecções de estreptomicina.

Nos primeiros dias, fraquejou e chorou a saudade dos meninos.

Depois, pediu que lhe trouxessem muito de papel e canetas.

Escreveu, escreveu, escreveu…

Já não chora a ausência dos meninos. Está livre.

Escreve todos os dias, para eles e não só.


Texto por M. Isabel. M. FigueiraHoje, dia 25 de abril, publicamos uma seleção dos textos que resultaram da iniciativa lançada pelo SAPO24 e O Primeiro Capítuloassinados por novos nomes de quem tem na escrita uma forma de expressão. 

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