Há vários tipos de máscaras, cada um com uma filtragem diferente. O fim, no contexto em que vivemos, tem sido o mesmo: evitar a propagação do novo coronavírus.

Dada a evolução da pandemia, alguns países ponderam o uso obrigatório de máscara cirúrgica ou FFP2 na via pública, face à maior capacidade de transmissão das novas estirpes — e outros já o fizeram. Nesse sentido, o Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) está a preparar orientações sobre a utilização de máscaras faciais comunitárias.

Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) já veio alertar para a pouca eficácia de muitas máscaras faciais caseiras na proteção do novo coronavírus, sobretudo para a nova variante inglesa, e sugeriu a obrigatoriedade de utilização de máscaras cirúrgicas. A ministra da Saúde, Marta Temido, já disse que o ministério questionou a Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a necessidade de revisão das medidas de prevenção contra a covid-19, mas até agora as recomendações mantém-se inalteradas.

Ao SAPO24, Vasco Ricoca Peixoto, médico e investigador na Escola Nacional de Saúde Pública, recorda que "as máscaras são diferentes e [que], neste momento, já existem vários estudos observacionais sobre a sua utilidade — mas que são difíceis de fazer, porque não podemos aleatoriamente dar máscaras a uma pessoa e garantir que as utiliza bem e a outras não dar e ver o que acontece". Desta forma, e considerando as "muitas variáveis que não conseguimos medir", importa analisar o que está ao nosso alcance fazer.

"Há uma coisa fundamental, que é perceber que um vírus que está na nossa mucosa respiratória, para ir parar à mucosa respiratória de outra pessoa, vai em gotículas e em aerossóis microscópicos, que se movem de uma certa forma no ar e de forma diferente consoante se estiverem num espaço interior com ar parado ou não, consoante a humidade e outros factores", explica.

Depois é preciso ver que "a máscara tem duas coisas críticas: a primeira é a filtração, que tem a ver com o tamanho das partículas que não passam. A outra é a qualidade do ajustamento à cara".

"Eu até posso estar com uma máscara com FFP2, que tem uma filtração muito elevada para partículas muito pequenas, mas se estiver pessimamente ajustada à cara, quando falo há sempre ar que sai por fora", exemplifica.

Com o objetivo de aumentar a filtração, há quem utilize duas máscaras sobrepostas, mas será que tal é sinónimo de maior proteção?

"Posso ter 500 máscaras e se estiverem pessimamente ajustadas ao rosto há-de sempre entrar ar e sair ar pelas folgas"

O diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, confirmou esta segunda-feira que a utilização de duas máscaras deve garantir uma maior proteção contra a covid-19. "Se temos uma proteção física com uma camada e colocarmos outra camada por cima, é senso-comum que deve ser mais eficaz e essa é a razão pela qual vemos pessoas a usarem as duas máscaras", apontou.

Para Vasco Ricoca Peixoto, a utilização de duas máscaras não deve ser a prioridade — embora possa reconhecer a sua eventual eficácia. O mais importante, reitera, é utilizar bem o equipamento de proteção.

"Obviamente, se eu tiver duas máscaras, uma por cima da outra, isso aumenta a filtração — mas têm de estar bem ajustadas [à cara]. Por exemplo, se eu uso uma máscara comunitária por cima de uma máscara cirúrgica e a máscara comunitária me ajuda a ajustar melhor a máscara cirúrgica [o rosto], isso pode aumentar a filtração, porque de facto o ar tem mais barreiras para passar".

"Em termos físicos, mecânicos, o ar tem de passar por mais camadas de fibras e a probabilidade de as gotículas, principalmente as maiores, ficarem presas antes de chegarem às vias aéreas é maior". Ou, se quisermos explicar de outra forma, "a probabilidade de uma gotícula ou de um aerossol conseguir passar aquelas barreiras todas sem ficar agarrado a alguma fibra da máscara é menor", explica.

Neste sentido é "claro que para as gotículas mais pequenas as máscaras FFP1 e FFP2 [com maior capacidade de filtração] são mais adequadas, mas a questão é que eu tenho muito mais probabilidade de ser infetado por gotículas de uma pessoa que está próxima [partículas maiores] do que por aerossóis [partículas mais pequenas] de uma pessoa que está longe, embora possa efetivamente acontecer", acrescenta.

E explica o porquê: "É preciso maior pressão, mais tempo, maior carga viral desses aerossóis e é preciso que não vão parar a lado nenhum até chegar ao pé de mim. Portanto, a probabilidade — mantendo a distância e o arejamento — de ser infetado por um aerossol é baixa, e torna-se mais baixa ainda com máscara", aponta o investigador.

Reforçando a teoria, Vasco Ricoca Peixoto recorda um estudo de caso com em que se cruzou, num "programa europeu de epidemiologia de campo de intervenção, do ECDC, durante dois anos, com vários módulos sobre investigação de surtos".

"Tínhamos um case study sobre um surto de peste pneumónica em Madagáscar, que foi uma epidemia que aconteceu há uns anos. Um dos estudos que fizeram lá foi entre os profissionais de saúde dos hospitais e uma das perguntas que fizeram era se usavam uma máscara cirúrgica ou duas máscaras cirúrgicas, uma por cima da outra, e mais umas variáveis", diz.

"De facto, nesse estudo, verificaram que as pessoas que usavam duas máscaras cirúrgicas tinham sido menos infetadas, após ajustamento, do que as que usavam só uma. E isso é interessante e há de facto um racional de aumentar o potencial de filtração. Mas o ajustamento da máscara à cara é fundamental, porque eu posso ter 500 máscaras e se estiverem pessimamente ajustadas ao rosto há-de sempre entrar ar e sair ar pelas folgas", reforça.

Então, qual é a conclusão, duas máscaras ou só uma? "No final do dia, nem sei se faz sentido usar duas máscaras. Se tiver uma boa máscara bem ajustada, eu diria que não me parece haver grande necessidade [de usar mais uma por cima], embora saibamos que há alguma evidência e claro que tem limitações. Mas não posso recomendar isso diretamente", remata o investigador.

"Muita gente anda com máscaras pessimamente ajustadas, muito largas de lado, e com buracos enormes em cima no nariz. Há sempre aerossóis e partículas que acabam por sair por aqueles buracos, para além de que eu quando respiro também estou a respirar o ar que entra por aqueles locais. Se tenho ali um buraco enorme, o ar também acaba por entrar", nota.

Nesse sentido, e considerando "que a nova variante [do Reino Unido] aparenta ter mais carga viral, naturalmente que uma máscara melhor [com maior capacidade de filtração] tem melhor potencial de contenção". No entanto, mais do que a escolha da máscara, o foco está em ter "a máscara bem ajustada à cara", reitera. E, se toda a gente seguisse o preceito, "já fazia uma diferença brutal".

E quando a máscara não tem o tamanho certo, é simples: "a pessoa faz um nozinho nos elásticos", diz Vasco Ricoca Peixoto.

"Nos lares toda a gente devia usar FFP2, não há hipótese, devia ser obrigatório já há muito tempo"

E se todos usássemos máscaras FFP2?

Muito se tem falado da necessidade de adotar a utilização de máscaras FFP2, que são constituídas por um respirador e têm uma capacidade de filtração de partículas igual ou superior a 95%. Segundo o médico de Saúde Pública, este uso deveria ser repartido consoante a necessidade — uma vez que em causa também estão factores de produção e de escassez do material no país.

"Nos lares toda a gente devia usar FFP2, não há hipótese, devia ser obrigatório já há muito tempo", defende. "Temos montes de surtos em lares, muitos com transmissão de pessoas assintomáticas".

Todavia, nos transportes públicos e nos empregos a opção que defende seria outra. "Devia ser obrigatório usar máscaras cirúrgicas bem adaptadas e máscaras comunitárias com certificação de qualidade do CITEVE".

Já nos supermercados, a máscara FFP2 não será necessária — mas têm de existir outros cuidados, diz Vasco Ricoca Peixoto. "As pessoas têm de ter disciplina para manter a distância. Podem perfeitamente usar uma máscara comunitária, não podem é estar a ir umas para cima das outras e a fazer fila juntinhas umas às outras". "Nos transportes públicos é muito mais difícil controlar a densidade, num supermercado é possível manter a distância se as pessoas quiserem", acentua.

Contudo, se um cenário em que apenas seriam utilizadas máscaras FFP2 poderia trazer benefícios ao nível da propagação do vírus, há que considerar também algumas complicações.

"Teoricamente, se toda a gente usasse FFP2 bem ajustadas, de certeza que teria um impacto. Mas isto é uma questão de oferta e de procura. Neste momento, se quiséssemos pôr toda a gente de FFP2, não conseguíamos", diz. Então "eu priorizaria para os lares e para os cuidados de saúde — o que já acontece em muitos locais. Nos transportes garantia a utilização de máscara cirúrgica ou comunitária certificada pelo CITEVE", aponta.

E dá um exemplo. "A Alemanha e a Áustria obrigam a máscaras FFP2 nos transportes públicos. Eu, se andasse de transportes públicos, provavelmente utilizaria essa máscara. Mas temos de ver que vai ser preciso aumentar a produção dessas máscaras se quisermos começar a utilizá-las mais", diz o investigador.

Questionado sobre os possíveis impactos para a saúde pela utilização de uma máscara com maior capacidade de filtragem (ou por duas sobrepostas), Vasco Ricoca Peixoto estabelece a diferença entre pessoas já com problemas respiratórios e pessoas saudáveis.

"Para as pessoas que têm doença pulmonar grave, há que considerar a resistência acrescida de uma máscara FFP2 bem ajustada. Ou seja, o diafragma e o pulmão têm de fazer uma ligeiríssima tensão maior", diz. Assim, "as pessoas que têm doença pulmonar grave avançada podem não utilizar essas máscaras porque como já têm muita fragilidade pulmonar podem acabar por acumular um bocadinho mais de CO2 no sangue".

Por outro lado, para as pessoas saudáveis a situação é diferente. "Pode estar 20 horas com uma máscara, se for saudável, e não vai ter nenhuma alteração no CO2 no sangue, nem no oxigénio. Nós temos mecanismos fisiológicos que regulam isto", garante. "E isto só acontece com as FFP2, nas outras a resistência que oferecem é mínima. Por exemplo, uma pessoa saudável pode fazer desporto com uma máscara cirúrgica que não lhe acontece nada. É importante desmistificar isso", atira.

O investigador da Escola Nacional de Saúde Pública deixa ainda um aviso: "se estamos preocupados com efeitos adversos de alguma coisa [como a utilização de máscaras], o melhor é começarmos a preocupar-nos com os efeitos adversos a longo prazo do vírus", diz.

"Há aí potenciais riscos neurológicos, até em termos de fertilidade e de outras coisas potenciais no futuro. Há vários estudos a apontar essa direção, claro que ainda não podemos ter certezas. Mas há um grande potencial de a infeção aumentar o risco daqui a cinco ou dez anos de algumas pessoas terem algum tipo de doenças neurológicas e outras", acentua.

"O vírus tem potencial de infetar células de todo o organismo: do coração, do pulmão, dos vasos sanguíneos, do cérebro, do pâncreas, de tudo e mais alguma coisa". Por isso, as regras-base para evitar problemas futuros são a chave: essencialmente, é preciso manter o distanciamento, usar (e bem) a máscara e desinfetar as mãos.

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