O Dia Internacional de Mulher foi o mote e, sempre com distanciamento social e máscara na cara, as pessoas foram ao longo da tarde ocupando o seu lugar no Largo Amor de Perdição para um protesto com muitas caras, mas um só denominador: a igualdade.

À Lusa, Márcia Oliveira, dirigente do MDM testemunhou que “continua a existir um longo caminho a percorrer no que toda à igualdade entre homens e mulheres”, situação que, frisou, foi “agravada pela pandemia, utilizada muitas vezes como desculpa para retrocessos de direitos”.

“E houve, particularmente na área laboral, já que são as mulheres as mais penalizadas, somando ao teletrabalho o terem de cuidar dos filhos e a diminuição do rendimento laboral e, noutros casos, a não renovação de contratos a termo, acentuando-se, assim, a precariedade laboral”, elencou a ativista.

Envergando coletes da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), Clotilde Fernandes e Sónia Rodrigues distinguiam-se num aglomerado a quem ao som de palavras de ordem eram distribuídos cravos vermelhos.

Agente principal no Comando da PSP do Porto, Clotilde explicou à Lusa que não estava ali para reclamar, mas para mostrar que as “mulheres polícia têm os mesmos direitos que os colegas”, pese embora, no exercício da profissão o sentir “muito pouco”.

Exemplo disso, relatou, foi a “nega” com que foi confrontada em 2020 durante a sua “última gravidez, de risco”, que a obrigou a ficar em casa.

“Foram-me recusados os suplementos de turno e de patrulha a que tinha direito, situação que se estendeu nos cinco meses em que fiquei em casa depois do nascimento do meu filho”, disse de um assunto que, lamentou, ainda não foi resolvido.

E prosseguiu: “Fiz há um ano uma exposição ao Comando da Polícia e contínuo sem resposta ao meu pedido de atribuição dos meus direitos. E isso só aconteceu no comando do Porto, pois outras colegas de outros comandos, como Lisboa, Coimbra e ilhas receberam-nos”.

Ao lado, Sónia Rodrigues acrescentou mais exemplos da desigualdade: “Temos um grande problema na polícia, que é o dos ordenados baixarem quando somos mães. E também no período de amamentação as mulheres polícia ficam prejudicadas a nível monetário”.

Novo tema e nova crítica da agente, que reclamou, também, da “falta de condições para fardamento”.

“A colega [Clotilde Fernandes] ainda há pouco me dizia que se farda nos vestiários dos chefes, ou seja, os chefes têm de sair para entrarem os elementos femininos e se poderem fardar. Isto não pode continuar”, assinalou, terminando a admitir ser “por estes e outros motivos que há cada vez menos gente a querer entrar na polícia”.

De Vila Nova de Famalicão até ao Porto, a família Dias, mãe e duas filhas, com lenços minhotos na cabeça e ao ombro, juntaram-se à manifestação para “exigir igualdade e um futuro melhor”, disse à Lusa a mãe Fátima, “trabalhadora fabril que vive com o salário mínimo”.

Mais expansiva, a mais velha das filhas, Tânia Silva destacou o facto de “não ter filhos, logo ser mais fácil conciliar a vida familiar com o teletrabalho”, mas essa não é a realidade das colegas que “se veem obrigadas a trabalhar mais horas diárias para compensar a atenção que têm de dar à família”.

Susana Malheiro, de 21 anos, interrompeu o registo fotográfico do evento para falar à Lusa e, estudante universitária, foi da falta de igualdade nessa comunidade que apresentou lamentos.

“Na comunidade universitária a igualdade ainda é algo que não está implementado. Ainda somos vistas como um objeto e não como mulheres”, apontou.

A irmã mais velha, diligente, completou-lhe o raciocínio: “Isto é um problema cultural, pois continua a haver quem pense que houve algo mais, um extra, quando uma mulher consegue singrar no seu trabalho”.

“Não somos valorizadas pelo nosso papel de mulher, mãe, trabalhadora e estudante. E é por isso que estamos aqui hoje”, disse.

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