Quatro mulheres, de gerações e vivências diferentes, viram-se, de um momento para o outro, obrigadas a mudar de vida para agarrar os negócios de família. Não o fizeram como opção, assumem. Atiraram sonhos e empregos para trás, abrandaram carreiras artísticas, deixaram a cidade, regressaram ao campo, meteram as mãos nos vinhos, nos chás, nos legumes e plantas biológicos, saltando da praia para um boutique hotel de luxo com restaurante com estrelas Michelin. Ficaram com um bebé no colo ao qual deram nova vida. E que se transformou na vida delas.

A 2ª edição do “Mulheres com Tomates”, organizada pela NUTS Branding no âmbito da Lisbon Food Week, foi o ponto de partida para uma conversa moderada por Sandra Nobre. O título foi trazido pela storyteller, que na conclusão da troca de palavras tida na Second Home, Mercado da Ribeira, em Lisboa, disse: “às vezes é preciso tê-los. E elas tiveram”. Elas são Joana Macedo (Quinta do Poial), Leonor Freitas (Casa Ermelinda Freitas), Joy Jung (Vila Joya) e Madalena Motta (Chá Gorreana).

Numa mesa em forma de confessionário que tinha como pretexto a gastronomia à volta do tomate que derivou para uma conversa de vida a que se juntou Leopoldo Calhau (ex-arquiteto e cozinheiro) e Nicollò Corallo (chocolates Corallo); respetivamente, um influenciado pela Tia Comba e pela mãe Joana na opção de vida que tomou, e o outro, que segue lado a lado com a progenitora (Bettina) na condução dos negócios de chocolate e cacau de São Tomé e Príncipe à venda em Lisboa.



Rebobinado o filme, a morte repentina de quem geria os negócios está na linha da frente para a razão da mudança de vida destas quatro mulheres. "A minha mãe [Maria José Macedo], morreu sábado e na 2ª feira já estava a trabalhar no projeto. Caiu-me em cima, comecei sem saber o que estava a fazer. Não hesitei, não pensei", recorda Joana Macedo, atriz de corpo e alma (conhecida no meio artístico como Joana Sarrazy), que "vivia em Paris e a ia a caminho da Austrália" e em 2016 agarrou na Quinta do Poial, em Azeitão, projeto pioneiro da agricultura biológica em Portugal.

Madalena Motta, professora, que "aos 35 anos" respondeu ao apelo do pai para pisar os terrenos na fábrica de Chá Gorreana, em São Miguel, nos Açores. E, em menos de dois dias, fica, por razões de morte familiar, à frente de uma plantação com 135 anos, sendo a sexta geração de mulheres à frente do negócio. Leonor Freitas (vinhos da Casa Ermelinda Freitas), assistente social, estava longe de sonhar voltar ao campo de onde saiu "aos 10 anos". Mas voltou. Com a morte do pai, "a minha mãe sozinha não tinha capacidade e não queria vender", recorda. Não venderam e passaram de 60 para 400 hectares. Por fim, Joy Jung que num dia brincava na areia que banha o hotel batizado em sua honra, Vila Joya, em Albufeira, assumiu, aos 26 anos, as lides de um projeto de luxo que inclui um restaurante hoje galardoado com duas estrelas Michelin. "A mãe morreu e prometi tomar conta", relembra.

"A sorte de ter mulheres que mesmo sem mandar, mandavam"

"A Quinta do Poial era o irmão mais novo que roubava a atenção da minha mãe [uma economista que largou tudo para abraçar a vida no campo], que não via os meus espetáculos", recorda Joana Macedo. "Agarrava e deitava fora? Não dá! A agricultura não dá para fechar a porta", exclama. "Fiquei sem empregados, foi uma descida aos infernos", relata a atriz a meio tempo que se dedica às ervas aromáticas, legumes, frutas e minilegumes que são procurados pelos chefes em Portugal. "A minha mãe inovou com o tomate-cereja, o pesto e o manjericão. Eu tenho 60 variedades de tomate e 15 beringelas", enumera.

O "mérito" do projeto é "da minha mãe" e "acredito naquilo que defendia", caso contrário não "tinha feito nada", sublinha. "Ainda não é o meu bebé. Estou a tomar conta de um irmão. O bebé é da minha mãe", confidencia a atriz que tem ainda a seu cargo o Collector’s Hostel, em Braga, instalado na casa de família onde nasceu.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

Num português com sotaque alemão, Joy Jung recorda o dia que ficou responsável pelo boutique hotel Vila Joya. "Gerir o hotel e lidar com as pessoas que me conheciam desde que nasci... a idade no começo foi uma dificuldade e não tanto essa coisa de ser mulher", nota. "Cresci com o turismo. Aos 12 anos andava pela Vila Joya em vez de dormir. Foi tudo muito cedo", ressalva. Olha para o hotel de luxo e vê-o como o "bebé da minha mãe e uma arte". Em relação ao restaurante "o sonho é hoje meu", declara.

Leonor Freitas é a quarta geração de mulheres a assumir as rédeas da Casa Ermelinda Freitas. "Há um azar na linha masculina (morrem cedo) e elas levaram uma casa rural para a frente". Filha única, a assistente social que teve a "sorte de estudar noutro setor que não fosse agricultura", regressou ao campo onde nasceu, a 50 quilómetros de Lisboa. "Há 50 anos era um mundo isolado e não havia luz elétrica", recua no tempo.

Tomar conta da casa agrícola fê-la reencontrar-se com a sua "paixão", diz. "Quando cheguei havia quem dissesse que não negociava com mulheres. Por vezes, era a única mulher numa reunião. O vinho era um setor de homens. Hoje não", sustenta.

Na altura "podia errar. Hoje não posso", dispara. Passou dos 60 hectares para 400 hectares e acrescentou "vários prémios e a internacionalização", destaca. "Tudo com uma mulher que nem estava preparada", frisa. Porém, deixa uma nota final: "não há lugares para homens nem mulheres. Há pessoas certas nos sítios certos".

Cresceu nos Açores, em São Miguel, no meio de uma plantação de chá. O Chá Gorreana é um negócio que está na família de Madalena Motta desde 1883. Ao longo dos anos, vários foram os episódios que enfrentaram. "Foi a única fábrica nacionalizada no 25 de Abril", mas "nunca fomos uma família de chorar" e tivemos "a sorte de ter mulheres que mesmo sem mandar, mandavam", graceja.

Com um curso de artes, a professora de São Miguel, viu-se na contingência de entrar dentro da mais antiga, e atualmente única, plantação de chá da Europa com 35 hectares. "Entrei na fábrica e o chá ia para o lixo". Agora, "é um sucesso". Exportado para vários pontos do globo, esse mesmo sucesso é algo que partilha com quem trabalha.

"As minhas outras profissões foram uma paixão. Esta, o chá, é o amor da minha vida", sublinha enquanto anuncia a construção de uma nova fábrica. "Neste negócio secular a tradição não pode morrer e temos que acompanhar os desafios da inovação", atira.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

"It’s a man’s world", mas não seria nada sem elas

"This is a man's world", cantou James Brown, em 1966. A letra da canção, um tanto ou quanto chauvinista e sexista ("tudo no mundo foi obra do homem") acrescenta, no entanto, uma linha: "But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl" ("mas que não seria nada sem uma mulher").

Deixando de lado o sexismo e, provavelmente, pegando na última parte, Leopoldo Calhau revela a razão pela qual escolheu, por opção, dar um novo rumo à vida. Depois de seis anos como arquiteto no Baixo Alentejo, muda-se para Lisboa em 2009. Aos 35 anos deixa o ateliê e atira-se aos pratos por influência materna e da Tia Comba, dando, assim, asas à sua paixão de infância.

Com o Alentejo "sempre no frigorifico", viaja pelas memórias alentejanas e pelos dias em que a tia "não deixava provar nada, mas provava tudo" e em que a "sala de estar é a cozinha". Inspirado pela culinária do lado feminino da família, diz que se a mãe "aprendeu a cozinhar por correspondência com as cartas da minha tia", ele não lhe chega "aos calcanhares" — reconhece com humildade este cozinheiro, como se gosta de apelidar, que já teve dois restaurantes mas que "agora não tem nenhum".

Trabalhar numa fábrica de chocolates estará, por certo, no sonho de grande parte das crianças. Para Nicolló Corallo a realidade surgiu com naturalidade desde tenra idade. "Não foi uma escolha. Trabalho desde que tenho memória", relata.

E à memória surge uma história de amor que começa no Zaire, país onde a mãe, então com 18 anos (filha de diplomatas nascida em Portugal) e o pai (italiano) decidiram casar e abraçar as plantações de café e cacau; que passou pela fuga "devido à guerra" até chegarem a São Tomé e Príncipe, em 1991; que tropeçou na Argentina (país onde nasceu) e aterrou em Lisboa, cidade onde depois da separação dos pais "começaram do zero" e ano em que a mãe Bettina abriu a primeira loja (2008), no Príncipe Real.

Nicolló regressaria à capital para, juntamente com a mãe e o irmão (Amedeo), ficar à frente de uma nova loja na Rua da Escola Politécnica. "Em 2013, voltei a Lisboa, continuei ao lado da minha mãe e conseguimos a fábrica", remata numa noite que era para se falar de tomates na culinária e se transformou num confessionário de vidas de quatro mulheres e dois homens influenciados pelo lado feminino da família.

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