“Eu não quero que o povo das minhas paróquias, Porto Martins e Fonte do Bastardo, se sinta abandonado pelo seu pastor, quero que eles sintam que ele está presente, que ele pensa, que ele se preocupa espiritualmente com eles, quero dar a palavra que todas as semanas lhes dou”, afirmou, em declarações à Lusa, José Júlio Rocha.

Pároco na ilha Terceira, nos Açores, Júlio Rocha transmitiu pela primeira vez uma missa na rede social Facebook e chegou a ter mais de 600 visualizações, repartidas entre quem estava na ilha, mas também nas comunidades emigrantes.

“Houve pessoas que se levantaram às 04:30 na Califórnia para poderem ouvir a missa”, contou.

A pandemia levou a Diocese de Angra, como outras pelo país e pelo mundo, a suspender as celebrações eucarísticas presenciais e, apesar de se terem multiplicado transmissões de missas na televisão, na rádio e na internet, Júlio Rocha não quis deixar o seu “rebanho abandonado”.

Com 51 anos, confessa que “percebe pouco de novas tecnologias” e diz que até à leitura do Evangelho transmitiu a missa de lado, porque não se apercebeu de que o telemóvel devia estar noutra direção, mas, ainda assim, vai-se adaptando, porque sente que as pessoas “têm sede de Deus” e que precisam agora, mais do que noutras alturas, de uma palavra de “conforto”.

Na capela do Seminário Episcopal de Angra, onde dá aulas, celebrou missa com apenas quatro colegas nos bancos, “com as devidas distâncias” acauteladas, e diz ter-se sentido sozinho e ao mesmo tempo acompanhado por uma imensidão de pessoas que não podia ver.

“Tinha uma sensação de ausência do meu povo. Há uma altura ali a meio da homilia em que tive de parar para não começar a chorar. É uma série de sensações que nos percorrem durante aquela celebração, de estarmos a celebrar para o desconhecido”, revelou.

“Eu já tive celebrações com mais de 5.000 pessoas. Acho que nunca estive tão nervoso como com ninguém à minha frente”, acrescentou.

Júlio Rocha admite que a missa sem os fiéis “não é a mesma coisa” e não tem “valor pleno”, mas critica uma ala mais conservadora da Igreja Católica que defende que os cristãos devem continuar a deslocar-se às igrejas.

“Não há nada mais patético do que isto. Eu recordo que na Idade Média, em meados do século XIV, quando houve a peste negra, que dizimou uma terça parte da população da Europa, as pessoas se refugiavam nas igrejas, porque acreditavam que Deus, na sua bondade, não deixava que a doença se transmitisse na igreja e esta foi a principal causa de mortandade. Não estamos na Idade Média, estamos no século XXI”, sublinhou.

Na última missa que celebrou nas suas duas paróquias, pediu aos fiéis que agissem como se todos estivessem doentes e as pessoas respeitaram a decisão.

“Quando eu anunciei que iam acabar as missas, disse-lhes claramente que as pessoas doentes não podem ir à missa, mas podem de alguma forma receber as graças da Eucaristia. Neste momento, todos nós somos doentes. E as pessoas aceitaram isto”, adiantou.

Além de transmitir a missa no Facebook, o pároco açoriano recorre todos os dias às redes sociais para apelar a que as pessoas fiquem em casa.

“No normal da nossa vida, amar é unir-se, é dar as mãos, é abraçar-se. Hoje, por muito que dure esse hoje, amar é precisamente o contrário”, salientou.

Em alturas de maiores dificuldades, de guerra, fome ou doença, os católicos dividem-se entre os que colocam em causa a existência Deus e os que se voltam mais para Ele, mas Júlio Rocha acredita que a maioria se agarra à fé.

“A maior parte das pessoas, mesmo aquelas que deixaram de ir à missa, que foram abandonando a fé dos seus pais, a esmagadora maioria volta-se para Deus, como a tábua de salvação”, apontou.

O pároco açoriano rejeita que se esteja a viver um “cenário apocalíptico”, mas realça que “ninguém na humanidade consegue controlar” a pandemia, “nem prever o seu fim”, e que isso causa “uma incerteza e uma angústia” que são colmatadas com a fé.

“A Humanidade não consegue controlar isto. Se a Humanidade não pode, quem é que pode? Tem de haver um Deus, uma tábua de salvação, alguma coisa a que a gente se possa agarrar, porque o ser humano não consegue viver sem se agarrar a alguma coisa”, concluiu.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, surgiu na China, em dezembro, mas espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

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