“O Nobel da Paz entregue a Abiy constitui um enorme embaraço para o Comité do Nobel [norueguês, que decide o Nobel da Paz. Os restantes cinco Nobel são concedidos por instituições suecas], sem dúvida. Constitui um dano importante para a reputação do prémio que ele tenha sido atribuído no ano passado a um líder de uma guerra, ainda por cima, acusado de crimes de guerra generalizados, de crimes contra a humanidade e mesmo de genocídio, como alertaram já organizações não governamentais como o Genocide Watch, e a conselheira especial das Nações Unidas para a Prevenção de Genocídios [Pramila Patten]. Isto é embaraçoso para o Comité do Nobel”, considerou, em declarações à Lusa, Kjetil Tronvoll, professor no departamento de Ciência Política e Relações Internacionais na Bjorknes University College, na Noruega.

Ana Gomes, antiga eurodeputada e candidata à Presidência da República, considera, ao contrário, que “Abiy merece crédito por ter aberto a Etiópia como nunca” e que “o Nobel foi-lhe dado como incentivo a prosseguir nesse caminho de democratização”. Ana Gomes visitou a Etiópia em fevereiro de 2019 e diz que, desta vez, a terceira em que esteve no país, encontrou “a população feliz por ter uma abertura como nunca”.

“Ao mesmo tempo, Abiy estava a ter imensos problemas, porque estava a defrontar-se com tremendas frondas organizadas pelo TPLF, não apenas no Tigray, mas noutras partes do país”, acrescentou a antiga eurodeputada, que chefiou em 2005 uma missão europeia de 200 observadores às eleições legislativas etíopes, durante o regime de Meles Zenawi, e desde então se mantém ligada ao país, que a acarinha e a conhece como “Anna Gobese”.

A Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF, na sigla em inglês), o partido dominante de entre quatro partidos regionais que formavam a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF, também na sigla em inglês), a coligação no poder na Etiópia nas últimas três décadas até ao ano passado. A TPLF era o único partido na oposição no Parlamento etíope e dirigia as instituições regionais do estado do Tigray, no norte do país, até ser posta em fuga com a operação militar federal iniciada em 4 de novembro último.

“Acho que o Nobel foi-lhe dado como incentivo a prosseguir nesse caminho de democratização, mas ficou para mim claro quando lá fui que era muito complicado e que ele ia ser torpedeado. E ele estava perfeitamente consciente disso”, acrescentou a candidata presidencial.

Kjetil Tronvoll diz, ao contrário, que Abiy Ahmed deixou claras “várias tendências de recuo” ao longo de 2019, que deviam ter feito o Comité do Nobel recuar na intenção de atribuir o prémio.

“A minha crítica é que era um risco demasiado grande para o Comité em outubro de 2019 atribuir o prémio a Abiy, quando sabia que os dois aspetos-chave justificativos do prémio, processo de paz com a Eritreia e o processo de reformas internas, tinham parado. Fizeram um julgamento claramente errado e não consideraram o que aconteceu no período que antecedeu a divulgação da decisão propriamente dita”, explicou ainda Kjetil Tronvoll.

O Comité Norueguês do Nobel manifestou-se em meados de novembro “profundamente preocupado” com o conflito no Tigray e apelou para o fim da violência. “O comité está a acompanhar de perto os desenvolvimentos na Etiópia e está profundamente preocupado”, disse na altura o seu secretário, Olav Njølstad. “Repetimos hoje o que dissemos anteriormente, nomeadamente que todas as partes envolvidas partilham a responsabilidade de parar a escalada de violência e de ajudar a resolver disputas e conflitos por meios pacíficos”, acrescentou.

Abiy Ahmed enviou o exército federal para Tigray, estado etíope no norte da Etiópia, na fronteira com a Eritreia, para substituir os líderes da TPLF, que vinham a desafiar o governo central há vários meses, por “instituições legítimas” e conduzi-los perante justiça.

Não existe até agora qualquer balanço preciso do número de mortos e feridos resultantes do conflito em Tigray. Os combates forçaram mais de 50.000 pessoas a procurar refúgio no vizinho Sudão e deslocaram mais de 63.000 pessoas dentro da região, de acordo com as Nações Unidas.

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