“Se tem de ser, tem de ser”, disse Christopher Sousa, que veio da freguesia da Lomba da Fazenda e espera do lado de fora da farmácia do centro da Vila do Nordeste para ser atendido através do postigo.

Com quase cinco mil habitantes, segundo os dados da PORDATA referentes a 2018, o concelho do Nordeste é o menos povoado dos seis municípios da ilha de São Miguel. Faz fronteira, a sul, com a Povoação e, a oeste, com a Ribeira Grande e compreende 13 freguesias.

O Governo Regional dos Açores tinha imposto a cerca sanitária a todos os concelhos da ilha de São Miguel no âmbito da luta contra a covid-19, mas decidiu, na semana passada, levantar aquela medida em todos, exceto no Nordeste.

É naquele concelho que está instalado um lar de idosos que tem registado um grande número de casos de infeção por covid-19 (50) e de mortes (10), entre utentes e funcionários.

Hoje, a Autoridade de Saúde dos Açores ordenou o encerramento daquela instituição, que conta atualmente com 31 casos ativos e nove pessoas recuperadas.

Residente na Vila do Nordeste, João Medeiros lembrou à agência Lusa que aquele concelho, além de “pequeno”, é também “muito envelhecido” e lamentou que “o caso maior [de infeção pelo novo coronavírus] seja ali no lar de idosos”.

“Vai embora muita gente”, afirmou.

O nordestino é filho da proprietária da “única funerária do Nordeste”, onde também trabalha.

No seu trabalho, João Medeiros lida com as mortes por infeção de coronavírus “dentro do normal, igual a uma pessoa que não tem coronavírus, com a diferença” de que mantém “precauções – luva, máscara, fato…”.

Fora dele, os cuidados são outros: “Eu não acredito que a máscara resolva alguma coisa. Posso estar enganado, como é óbvio, mas não acredito que faça alguma coisa. Se for a uma farmácia, que não é como esta [com atendimento através de um postigo], a uma mercearia, se for a algum sítio assim, em que sou obrigado a usar, uso, mas, assim, para dar um passeio, não uso”, explicou.

Já a sua mulher, que trabalha no Centro de Saúde, tem atenção redobrada. “Já não a vejo há mês e meio (…). Faz o seu turno e tem de ir para uma casa que não é a nossa, pior ainda porque a minha filha está grávida”, disse o agente funerário.

“Se é para ajudar as pessoas que têm o coronavírus, é uma obrigação. É o que tem de ser”, considerou.

Sobre a manutenção da cerca sanitária, João Medeiros concorda “plenamente, se for para o bem do Nordeste”, considerando que as autoridades têm “lidado muito bem” com a situação.

Também residente na Vila do Nordeste, João Paiva defendeu que “os delegados de saúde tiveram culpa no cartório” e atira a responsabilidade maior para o hospital de Ponta Delgada, afirmando que “deviam ter feito as análises necessárias”.

O açoriano referia-se ao primeiro caso registado no concelho, o de uma utente do lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia, de 88 anos, que contraiu a infeção numa ida ao Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, através de contacto com uma profissional de saúde.

Para João Paiva, que está na pré-reforma, o confinamento “é indiferente”, já que está “habituado a estar alguns dias em casa, principalmente quando está mau tempo”.

Habituada às contingências atuais está também Ana Pacheco, que já usa “máscara, desde janeiro”, altura em que foi ao hospital de Ponta Delgada com a sua mãe, que tinha partido um pulso.

Na altura, perguntou aos profissionais de saúde se não tinham “medo do vírus que vem aí” e a resposta foi negativa. “Não tinham máscara, nem nada”, conta.

Ainda sem quaisquer indicações nesse sentido, Ana decidiu adotar precauções, porque já estava “a ver estas coisas desde janeiro, pela internet”, explicou à Lusa.

Sobre a forma como as autoridades estão a lidar com a situação epidémica no concelho, a residente considera que “nada é perfeito no mundo – todos fazem o possível”.

“Cada um tem de cuidar de si. O presidente da Câmara está a fazer o que pode fazer. Ele, coitado, também não quer ver gente doente, mas tem gente que ainda nem usa máscara”, alertou.

No único concelho português que continua isolado, “todos estão ‘berrando’ [desejosos] para sair”, adiantou a residente.

“Eu estou ‘berrando’ para dar um passeio, só ver o país, que é tão lindo, dar uma caminhada, mas paciência. A vida é assim, é preciso paciência. Muita coisa vem por aí”.

E a responsabilidade é de cada um, salientou Ana Pacheco: “Muita gente grita a Nosso Senhor, que o que tem de ser, tem de ser. Sim, mas nosso Senhor tem muitas coisas para cuidar, que são piores que isto. Nosso Senhor cuida das pessoas que cuidam de si”.

Para esta ex-emigrante, que viveu 47 anos no Canadá, os portugueses têm “sorte, porque o governo de Portugal tem levado isto muito a sério”.

“A gente tem um país que não tem o dinheiro que outros têm, mas estão fazendo muito bem. Tenho muito orgulho”, afirmou.

Os Açores registaram, até ao momento, um total de 144 casos, verificando-se 64 recuperados, 14 óbitos e 66 casos positivos ativos, sendo 50 em São Miguel, dois na ilha Terceira, dois na Graciosa, dois em São Jorge, cinco no Pico e cinco no Faial.

Em Portugal, morreram 1.074 pessoas das 25.702 confirmadas como infetadas e há 1.743 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

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