Milo Yiannopoulos nasceu Milo Hanrahan. Deixou cair o nome por alegadamente a mãe ter ficado desiludida quando lhe revelou que era homossexual. Mais tarde, encarnou um outro nome: Milo Andreas Wagner, sob o qual publicou dois livros de poesia: A Swarm of Wasps (2006) e Eskimo Papoose (2008).

Descreve-se no Facebook como “o mais fabuloso supervilão da internet”. Aos 33 anos, Milo Yiannopoulos escreve sobre a “cultura da internet, videojogos, tecnologia e o fenómeno da justiça social”, como pode ler-se na sua biografia enquanto autor. Cresceu no Reino Unido, mas está a trabalhar nos EUA, onde tem sido um defensor acérrimo de Donald Trump.

Diz não se enquadrar no movimento da extrema-direita radical que tem ganho voz nos EUA, já que é um “judeu homossexual que nunca se cala sobre o seu namorado negro”. A avó materna era judia, o que leva a revista online judaica ‘Tablet’ a dizer que Yiannopoulos é “meio-judeu”.

Filho de pai grego e mãe britânica, Milo nasceu em Atenas, Grécia, a 18 de outubro de 1983. Cresceu em Kent, cidade no sudeste de Inglaterra, mas é nos Estados Unidos que tem sido protagonista de várias polémicas. Os pais divorciaram-se quando tinha seis anos e passou grande parte da adolescência com a avó materna, que o criou como católico -- ainda hoje, Yiannopoulos se considera praticante.

Em 2011 foi um dos cinco co-fundadores da revista online de tecnologia ‘The Kernel’. Apesar de virada para o mundo digital, a revista de Yiannopoulos abordava ainda outros temas clássicos do jornalismo, como política e notícias dos media. Assumia que a ‘The Kernel’ tinha um estilo aguerrido: “Não sei se devia estar orgulhoso do facto de gastarmos o dobro em advogados daquilo que gastamos na produção”. Depois de dívidas e batalhas legais com autores que o processaram por falta de pagamento, vendeu-a em 2014.

Um ano depois, tornou-se editor da ‘Breitbart News’, de que agora se demitiu por causa da polémica em torno do vídeo onde o acusam de defender relações sexuais entre adultos e crianças. Pelo caminho, destaca a BBC, “escreveu crónicas com os títulos ‘Planeamento Familiar torna as mulheres feias e malucas’ e ‘Preferia que o seu filho tivesse feminismo ou cancro?’”.

Ultraconservador, provocador de direita e caído em desgraça

O futuro de Yiannopoulos parece, por estes dias, estar a sofrer um revés. A última polémica levou a que até a extrema-direita se desencantasse com a celebridade. A situação tornou-se inclusive indefensável para a editora que lhe alegadamente adiantou cerca de 240 mil euros pela biografia Dangerous.

Depois de um vídeo de 2016 onde parece defender atos sexuais entre adolescentes e homens adultos ter sido repescado, o escritor e jornalista viu agora serem-lhe cancelados contratos e já se demitiu do cargo no site americano da extrema-direita ‘Breitbart News’, intimamente ligado à administração de Donald Trump. O diretor executivo, Steve Bannon, não só liderou a campanha presidencial de Trump, como foi também nomeado para ser um dos principais conselheiros na Casa Branca.

Na segunda-feira (20 de fevereiro), a Simon & Schuster anunciou que ia desistir de publicar o próximo livro de Yiannopoulos, depois de o ter defendido ao longo de semanas sob uma chuva de críticas.  A editora tinha sido alvo de inúmeras críticas por estar, segundo os opositores, a promover e financiar o discurso de ódio. Críticos literários e livrarias anunciaram um boicote aos livros da editora.

Também a organização da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), que se realiza entre hoje (22 de fevereiro) e até ao dia 25 em Maryland, nos Estados Unidos (EUA) rescindiu o convite para que o polémico Yiannopoulos falasse na conferência anual da União Americana de Conservadores.

Em julho do ano passado, este britânico que tem sido “porta-voz” da alt-right americana foi banido permanentemente do Twitter, depois de ataques à atriz de Ghostbusters Leslie Jones. Na altura, Milo Yiannopoulos disse que a suspensão da sua conta foi “cobarde”, acrescentando que a rede social se confirmava como “um espaço seguro para terroristas muçulmanos e extremistas [do movimento] Black Lives Matter [as vidas dos negros importam], mas uma zona fechada a conservadores.”

Agora, a polémica é em torno de um livestream (vídeo em direto na internet) onde surge a dizer que relações entre jovens rapazes e homens adultos podem ser benéficas, já que “podem ajudar um jovem homossexual a escapar da falta de apoio ou entendimento em casa”. Ressalva, contudo que “não [está] a falar de algo ilegal”: “Não me estava a referir a rapazes pré-pubescentes”. No vídeo pode ouvir-se Yiannopoulos dizer que a “pedofilia não é atração sexual por alguém com 13 anos, que é sexualmente madura”.

Milo admite que as relações inter-geracionais entre jovens e adultos, desde que consensuais, podem ser positivas para o desenvolvimento desses rapazes. Afirma, porém, que não defende a pedofilia. No Facebook, o autor disse já que o vídeo divulgado foi “editado seletivamente” como parte de um “esforço coordenado” com o objetivo de afetar a sua imagem perante os republicanos do establishment.

A sua história corrobora um perfil tudo menos óbvio. Foi vítima de abuso sexual na adolescência. “Entre os 13 e os 16 anos, dois homens tocaram-me de formas que não deviam. Um desses homens era um padre. A minha relação com os meus abusadores é complicada pelo facto de eu, na altura, não perceber que o que se estava a passar era abusivo”, disse Yiannopoulos na conferência de terça-feira (21 de fevereiro, onde pediu desculpa pelas declarações de 2016 sobre pedofilia).

Há três meses, foi impedido de discursar na sua antiga escola em Kent, depois de a escola básica para rapazes ter sido contactada pela unidade de contraterrorismo do Departamento de Educação britânico. Ameaças de protestos contra Yiannopoulos junto à escola levaram a direção a cancelar o convite para o discurso.

“Se fores tão talentoso, inteligente e bonito quanto eu, não precisas de um curso para ter sucesso”

Jennifer Kite-Powell, cronista da revista ‘Forbes’, chamou-lhe, numa entrevista em 2012, “Citizen Kane dos media digitais”. Nesse artigo, Milo Yiannopoulos diz que uma das razões para ter escolhido jornalismo foi poder “ver os vilões sofrer”.

O seu papel na internet ganhou proeminência no chamado “GamerGate”, uma “guerra troll” online acerca da representação das mulheres na cultura dos videojogos. A revista especializada em tecnologia ‘Wired’ chamou-lhe mesmo, no verão do ano passado “troll king” (rei dos trolls).

Banido do Twitter, Milo Yiannopoulos tem na rede social Facebook uma das suas principais plataformas para falar com o vasto público que o segue. São perto de dois milhões (mais precisamente 1.898.368 à hora em que escrevemos este artigo) que acompanham o “mais fabuloso supervilão da internet” na rede social de Zuckerberg.

No YouTube, conta com perto de meio milhão de subscritores.

Apoiante fervoroso de Donald Trump

Chama “daddy” (papá) ao presidente dos Estados Unidos. Ávido apoiante de Trump, Yiannopoulos foi cabeça de cartaz de um evento chamado “Gays por Trump”, na Convenção Republicana no Ohio em julho passado.

Trump defendeu Yiannopoulos depois de outra conferência do polémico autor ter sido cancelada em Berkeley na universidade da Califórnia, EUA. O presidente dos Estados Unidos ameaçou retirar os fundos federais àquela universidade se “não permitir liberdade de expressão”.

“O politicamente correto é uma doença que está a matar pessoas. Tento combatê-la sendo o mais ofensivo possível”

Não se considera membro da alt-right (grupo nacionalista que se diz contra o politicamente correto e o feminismo e inclui supremacistas brancos, anti-semitas e neo-Nazis), apesar de a elogiar, dizendo, em entrevista à BBC, que é um movimento “energizante e excitante”, e de ter mesmo escrito um “guia para a alt-right”, como lembra o Público.

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