Este caso começa a 16 de julho, data em que Luís Grilo saiu de sua casa na Aldeia de Cachoeiras, pertencente ao concelho de Vila Franca de Xira, para fazer o habitual treino de bicicleta, que ocupava entre hora e meia e duas horas. Engenheiro informático de 50 anos, Luís Grilo tinha o triatlo como paixão e treinava com frequência. Tendo prometido regressar a tempo de levar o filho de 12 anos à natação, a mulher, Rosa Grilo, estranhou a ausência de comunicação ao fim de quatro horas. Após repetidas tentativas de contactar o marido, Rosa Grilo deu o alerta do seu desaparecimento em conjunto com familiares no posto da GNR de Castanheira do Ribatejo.

Os esforços para descobrir o paradeiro de Luís Grilo desdobraram-se, não só pelas redes sociais, como também pelas diferentes localidades da região. Cartazes com a sua figura e os contactos da família foram afixados e os amigos e familiares de Luís fizeram várias vezes os percursos habitualmente percorridos pelo triatleta em conjunto com os bombeiros e a GNR, em busca de provas ou sinais.

Dois dias depois do desaparecimento, a 18 de julho, a primeira pista significativa foi encontrada. O seu telemóvel estava à beira de uma estrada próxima aos Casais da Marmeleira, localidade a apenas 6 quilómetros de casa mas fora dos percursos habituais de Luís Grilo. Encontrava-se desligado, fora da bolsa de plástico habitualmente utilizada para transportá-lo em atividades de ciclismo e tinha dinheiro e o cartão do cidadão do informático.

A investigação, que passou para a dependência da Polícia Judiciária, continuou ao longo das semanas, reportada por órgãos de comunicação como O Mirante ou o Observador. Nas peças publicadas por estes meios permanece o sentimento de esperança da família e amigos, mas com as expectativas realistas de que a cada dia que passava, diminuíam as probabilidades de encontrar o triatleta com vida. No pior dos cenários, encarava-se a possibilidade de ter tido um acidente e de que o seu corpo estaria algures ocultado depois de uma queda.

Contudo, a 24 de agosto, pelas oito e meia da manhã, o corpo de Luís Grilo foi finalmente encontrado. O seu cadáver foi descoberto a 134 quilómetros de casa, perto de Alcórrego, parte do concelho de Avis, no distrito de Portalegre. Luís Martins, um local, fez um desvio junto à Estrada Municipal 1070 e deparou-se com o corpo num caminho de terra batida num eucaliptal. Depois de ligar à mulher, reportou o caso à GNR, que se dirigiu ao local, mas sem saber ainda que se tratava de Luís Grilo. 

O corpo encontrava-se com marcas de agressões - incluindo uma alegada pancada no crânio - nu, virado para cima, de braços abertos, com um saco de plástico a cobrir a cabeça, depositado junto a uns arbustos rasos com um tapete nas imediações. Dadas estas circunstâncias, a GNR passou o local do crime para a equipa de Homicídios da Polícia Judiciária. Após a perícia ao local, a PJ verificou que o crime não se consumou onde o corpo foi encontrado porque se encontrava com sinais de ter sido arrastado.

Dois dias depois foi realizada a autópsia, que identificou o corpo como sendo o de Luís Grilo. Após análise ao cadáver, a Polícia Judiciária verificou que as marcas de violência teriam sido causadas por terceiros - não estando esclarecido se terão sido um ou mais indivíduos - e que a morte de Luís Grilo teria sido violenta e por homicídio.

O que se segue?

A PJ procura agora pistas para reconstituir o crime, sendo que há muitas as pontas soltas ainda por atar num caso que está a ser tratado como um homicídio. Em primeiro lugar, não foi ainda determinada a causa ou a hora da morte, não se sabe como é que Luís Grilo foi parar a este local nem o móbil do seu alegado assassinato.

A Polícia Judiciária ainda não revelou publicamente dados da sua investigação, mas, de acordo com uma reportagem do Observador, há dois eixos importantes de análise. Revela este órgão de comunicação que o Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária está a analisar o saco que se encontrava à volta da cabeça de Luís Grilo. Sem avançar com teses definitivas, persistem várias hipóteses para a utilização deste objeto, tanto para asfixiar como para impedir o informático de ver o caminho, caso estivesse ainda vivo. Por outro lado, também o tapete pode ter pistas importantes para o caso. De grandes dimensões, encontrava-se apoiado ao alto num dos arbustos junto ao corpo. Sem se saber ainda qual o motivo para se encontrar no local do crime, é possível que tenha servido para transportar o corpo caso o homicídio tenha ocorrido noutro local.

A razão de Luís Grilo ter sido encontrado num lugar tão longe de sua casa também permanece um mistério, adensado pelo facto desta não ser uma região alheia ao triatleta, que costumava pedalar nesta zona, já que a terra dos pais da mulher, Benavila, fica a 20 quilómetros do local do crime. Pela familiaridade, é possível que tenha vindo à região, mas, como apurou o Diário de Notícias, é improvável que Luís Grilo se tenha dirigido à casa dos sogros no dia do desaparecimento porque dava sempre conhecimento da vinda e a tia da sua mulher é que tem a chave de casa.

De resto, as poucas pistas apuradas quando as autoridades estavam a investigar o seu desaparecimento revelaram-se infrutíferas. Não havendo testemunhas, imagens das câmaras de videovigilância de uma empresa em Casais de Marmeleira mostram um vulto impercetível a passar de bicicleta às 17:40 de 16 de julho, dia do desaparecimento, mas não se consegue aferir se é Luís Grilo. Mais tarde, uma mulher em Arruda dos Vinhos diria tê-lo visto a discutir com outro homem, mas não foi capaz de corroborar esta afirmação, podendo apenas confirmar que tinha visto um ciclista. Outra das peças essenciais para compreender como Luís Grilo foi parar a tão longe, a sua bicicleta, ainda não foi encontrada.

Outro dos mistérios deste crime é a motivação para o mesmo. É defendido consensualmente pela sua família e amigos que a natureza da morte de Luís Grilo é diametralmente oposta à vida que vivia. Dono de uma loja em Alverca chamada Gsystem, em conjunto com a mulher, o engenheiro informático é descrito como um pequeno empresário sem problemas financeiros ou laborais, sem quezílias com a família ou terceiros, de caráter reservado mas simpático.

A tese de suicídio também parece pouco provável, dada a sua dedicação à sua família, particularmente ao seu filho. Ao Público, Luís Barradas, treinador de Luís Grilo na Wikaboo, empresa de treinos, mostrou estupefação perante a morte do colega, não conseguindo encontrar explicação para este desfecho e garantindo que o informático tinha uma vida perfeitamente normal e que estava “um bocado eufórico porque a prova que tinha feito em Frankfurt correra bem e tinha planos para o futuro”. Luís Grilo encontrava-se no rescaldo da participação a 30 de junho numa prova Ironman, uma das mais difíceis no triatlo, em Frankfurt, na Alemanha. O triatleta conseguiu bons resultados na competição - cujo trajeto incluiu 3,8 quilómetros de natação, 180 de ciclismo e 42 de corrida - ficando no 663º lugar em 2300 participantes, 55º do seu escalão composto por 298 atletas.

No entanto, a SIC confirmou que a família já tem uma data planeada para o funeral, com o corpo a ser entregue ao fim da tarde de quarta-feira, 29 de agosto, apesar do Instituto de Medicina Legal continuar a realizar exames. O enterro decorrerá esta quinta-feira, 30 de agosto, às 15:30, na aldeia de Cachoeiras.


 [Notícia atualizada às 17:17 de 29 de agosto com a informação da data do funeral de Luís Grilo]

*Fotografia retirada do perfil público de Luís Grilo no Facebook