Curitiba é uma cidade fria, para os padrões do Brasil. E 28 de Agosto — hoje — pleno Inverno. Ainda há poucos anos nevou tanto aqui que deu para fazer bonecos. Mas, como dirá um curitibano mais adiante, “roubaram nossas nuvens”. Até Curitiba no Inverno já não será o que era quando o sol sai. É o caso deste 144º dia da prisão de Luís Inácio “Lula” da Silva, o mais popular político da história do Brasil, duas vezes presidente, e favorito a uma terceira em todas as sondagens em que apareceu, antes da dramática eleição de 7 de Outubro. Dramática por várias razões, começando pelo facto de o favorito — que já tem substituto, mas ainda não retirou o nome — estar numa cela da Superintendência da Polícia Federal de Curitiba. É para lá que vou, directa do aeroporto. Meio da manhã e o sol já queima, céu azul-vibrante.

Contornamos a cidade, com os seus arranha-céus, os transportes que em tempos fizeram de Curitiba um modelo, subimos ladeiras, subúrbios de casas modestas. O condutor pára num cruzamento, aponta para a esquerda: “A Polícia Federal é ali em baixo, a um quilómetro, mas o acampamento do Lula é para esse lado.” E vira à direita, por uma estrada de baldios e armazéns, já meio floresta. Pouco depois, numa pequena colina junto à berma, surge um acampamento de guerra: sacos empilhados como numa trincheira; atrás e por cima bandeiras, cartazes, faixas multiplicando a cara de Lula. Lula jovem de barba negra, Lula presidente grisalho, Lula a sorrir, Lula sério, Lula a preto, Lula a branco. “LULA INOCENTE”, “ELEIÇÃO SEM LULA É FRAUDE”, “#LULA VALE A LUTA”.

Na ponta inicial, um estandarte vermelho seguro por dois paus anunciando: “Acampamento Marisa Letícia”. O nome da mulher, companheira de sempre, de Lula, que morreu no ano passado. Os rostos de ambos, amorosos, colados, aparecem dentro da estrela do Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula. Na ponta final, um outro estandarte, enorme, negro, com um Lula no auge da vitalidade, e as letras vermelhas por baixo: “LULA LIVRE”. Ao lado, um nicho com uma santinha coroada, claramente anterior ao acampamento. Casualidade que calha bem ao crente Lula e a muita gente do PT, tantas vezes aliado da Igreja Católica, sobretudo da Teologia da Libertação.

Subo o barranco, entro pela abertura a meio da trincheira. Logo uma figura de casaco laranja vem vindo. Apresento-me, pergunto pela assessora com quem marquei. “Ah, ela fica na Vigília, aqui é o Acampamento”, distingue a figura, Alba Cordeiro de seu nome, 57 anos, fundadora do PT, curitibana.
E, como virei a descobrir, além do Acampamento e da Vigília há vários “pousos” colectivos em roda da Polícia Federal, e ainda casas onde militantes estão a dormir. Entre PT, Movimentos dos Sem Terra (MST), outros movimentos sociais e sindicatos vários, a campanha Lula Livre espalhou-se por estas redondezas de Curitiba.

Alba faz as honras do Acampamento. “Tem uma formação acontecendo agora”, explica. “Você pode ver o espaço, depois assistir à formação, antes de ir para a Vigília.” O espaço é um terreno entrando pelo mato. Lonas contra a chuva, barracas de contraplacado, paus segurando plásticos, tectos improvisados, sofás velhos na gravilha, móveis avulsos, o que resultou de doações; cobertores, edredons, espumas, roupa pendurada; pequenas tendas de campismo. Alba aponta uma amálgama de tenda, panos, cartazes: “Aqui é o meu triplex...” Um pouco menos luxuoso ainda do que o afinal mal-amanhado triplex que Lula teria aceite de suborno, principal acusação no processo que o levou à cela de Curitiba, por decisão do juiz Moro.

Pequenos cães saltitam aos nossos pés. Entre troncos cortados, há um recanto feminista: “Mulheres do Brasil, a força está em nós! Vamos em frente!” Cestos com pinhas, talismãs indígenas, apanha-sonhos a oscilar nos troncos. Descendo por uma vereda de terra batida, WC improvisados, grafitis em tapumes, um cheiro pesado. Voltando a subir, Alba mostra a cozinha, um grande rectângulo central, sustentado por colunas de tijolo bruto, com plásticos e chapas contra a chuva. Fogões, panelas, mercearias, garrafões, tudo doado. O cilindro de tirar água tem um autocolante a dizer: “Eu apoio a Constituição”.

Daqui vamos para a “Praça Dilma Rousseff”, onde Dilma está desenhada como “presidenta legítima”, faixa vermelha com estrelinha no i do seu nome. Por baixo, entre flores, um retrato de Madonna com bambino. E ao lado, emoldurada no chão de terra, uma deusa das águas, espécie de Iemanjá branca, nada africana.
Aqui já se ouvem as vozes na formação, porque estamos mesmo em cima da barraca das reuniões, protegida do sol por bandeiras do PT e LGBT.

Entramos. Em torno de uma mesa, alguns dos acampados debatem com Edna Dantas — candidata estadual do PT no Paraná, estado de que Curitiba é capital — e uma visitante, a jurista Camile Nóbrega, que veio falar das questões constitucionais relacionadas com o processo de Lula. “.... retrocesso na cultura, na educação, estão tirando o direito do nosso povo, do jovem pobre, periférico, que não tinha acesso à educação”, discursa Edna. “A partir de Lula, o jovem negro periférico vem disputar o espaço da elite branca, que se sente ameaçada. E o que é que eles fazem? Eles derrubam a Constituição!”

Um moreno risonho, que responde pelo diminutivo DK, 33 anos, estudante de Direito depois de cursar Teologia numa instituição luterana, “bolsista graças ao Lula”, faz questão de resumir estes 144 dias, enquanto a formação prossegue. “Nos primeiros dez dias ficámos na porta da PF [Polícia Federal], mas aí teve um interdito. Já no primeiro dia meteram bala [de borracha], bomba [de gás] na gente, tivemos mais de vinte ou trinta feridos.” Proibidos de acampar em frente à sede da PF, os activistas foram à procura de um terreno, e alugaram este. Estão a pagar 3000 reais por mês (625 euros). “Pagamos água, tudo. E não recebemos verba de partidos, nem do MST. Nos primeiros dias, sim, mas agora é só com vaquinhas da Internet.”

DK não estava no PT antes de tudo isto. “Quando o Lula foi preso eu me filiei.” E veio da sua terra, em Minas Gerais, para aqui. Ao todo, são cerca de 30 pessoas a morar em permanência no acampamento, de sete movimentos e dez estados brasileiros.

Edna, por exemplo, é filha de pernambucanos. Mas não apenas: “Da cidade do Lula!”, conta ela, quando termina a formação. “Vim para Curitiba com sete anos.” Nordestina, negra e mulher, numa cidade sulista, branca e conservadora. Está com 48 anos, metade dos quais passados no PT. E desde o começo acampada em nome de Lula. “Fomos obrigados a sair de lá [a sede da PF], mas todos os dias descemos para dar o ‘Bom dia!’, o ‘Boa tarde!’ e o ‘Boa noite’ ao presidente. Vamos com megafones e bandeiras, chamando ‘Lula Livre.’”

Lá se encontram com quem estiver na Vigília, os participantes não acampados, que vão e vêm, ou dormem nos outros “pousos”, para todos juntos cumprimentarem o presidente. É um dos rituais da campanha, pontualmente às 9h, 14h30 e 19h, como daqui a pouco veremos. “Lula está num quarto andar e a cela não dá para a Vigília, então não dá para ver ele”, conta Edna. “Mas a gente sabe que ele nos ouve, porque ele já disse.”

Lula recebe visitas com uma série de restrições. Dias antes, no Rio de Janeiro, falei com um dos seus advogados, o curitibano Reinaldo Santos de Almeida, que me traçou um primeiro retrato do quotidiano prisional. “Ele está num tipo de cela a que chamamos de Sala do Estado Maior.” Por ser ex-presidente. “É um cubículo com uns 10m2, mas fica sozinho, essa é a vantagem. Tem cama, escrivaninha, banheiro e acesso a TV. Não tem celular, e tudo é por intermédio de advogados, sem contacto directo com o exterior. Ele escreve muito, cartas, bilhetes. E recebe visitas diárias de advogados, que são vários, porque são vários processos.” Jornalistas estão vedados, mas família e alguns amigos têm entrado.

A pressão a favor do prisioneiro foi recentemente fortalecida pela ONU, através do seu Comité de Direitos Humanos. Tendo recebido uma petição de Lula em Julho, o comité analisou-a e concluiu, a 17 de Agosto: “Os fatos relatados indicam a existência de possível dano irreparável aos direitos do autor […] o Comitê requisita ao Estado-Parte a adoção de todas as medidas necessárias para assegurar que o requerente usufrua e exerça todos os seus direitos políticos enquanto está na prisão, na qualidade de candidato nas eleições presidenciais de 2018, o que inclui o acesso adequado à imprensa e aos membros de seu partido político; requisita também que o Estado-Parte não impeça o autor de concorrer nas eleições presidenciais de 2018 até que todos os recursos contra a sentença condenatória sejam julgados em processos judiciais justos e a sentença esteja transitada em julgado.” Lula foi condenado a 12 anos de prisão.

Hoje mesmo, o dia em que estou em Curitiba, dois dos principais advogados de Lula, Cristiano Zanin e Valeska Fernandes, publicaram um texto na “Folha de S. Paulo”, argumentando: “A natureza do pronunciamento emitido em 17 de agosto pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU no caso do ex-presidente Lula é de decisão, e seu cumprimento é obrigatório pelo Brasil, nos três Poderes. Lula não pode ser impedido de concorrer nas eleições de 2018, como decidiu a corte internacional.” E alertam: “O país terá a oportunidade de mostrar ao mundo que respeita a democracia ou definitivamente assumirá que voltou no tempo e se utiliza das mesmas desculpas da ditadura para violar garantias fundamentais e as normas internacionais que se obrigou a cumprir.”

Pepe Mujica, o presidente uruguaio que tanta gente de esquerda gostaria de replicar para os seus países, veio ver Lula. Chico Buarque e Martinho da Vila também. O Papa Francisco mandou mensagens. E depois há toda esta gente em volta, dia e noite, fora dos media, em maioria.

“O estado do Paraná nunca elegeu uma deputada estadual negra”, diz-me Edna. “Eu estou lutando para ser a primeira, e meu mote de campanha é: ‘A voz de Lula no Paraná.’ Sou a primeira candidata acampada em defesa de Lula e do povo brasileiro.” Porque as eleições que têm a sua primeira volta presidencial no dia 7 de Outubro são gerais: Presidência, Congresso (Câmara de Deputados e Senado), Governos Estaduais e Assembleias Legislativas.

“Só saio daqui com ele”

Alba vai acompanhar-me à Vigília antes de descansar. “Não dormi ainda porque fiz a guarda esta noite.” Fazem turnos nocturnos no Acampamento, como em qualquer guerra. “Temos de fazer.” No fim de Abril aconteceu serem atacados a meio da noite. Acreditam que por “bolsominions”, como os lulistas chamam aos partidários de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita que está em segundo lugar nas sondagens, e defende a ditadura militar, os torturadores de então ou a esterilização dos pobres, entre outras bandeiras (a 6 de Setembro será esfaqueado num acto de campanha). Alba está no Acampamento para o que der e vier. “Só saio daqui com ele.” Lula.

Um quilómetro depois de começarmos a descer, aparece um edifício novo, cheio de encaixes e esquinas. Mais um não-exemplo de arquitectura contemporânea. É a Superintendência da Polícia Federal. Algures no quarto andar, lá estará Lula. E do outro lado da rua, literalmente, a Vigília, uma grande tenda branca, cheia de bandeiras vermelhas e brancas, que funciona apenas durante o dia, para cumprir a interdição de acampar. Mas antes de eu lá chegar, Alba quer apresentar-me ao pessoal da cozinha colectiva, onde todos se encontram. Fica um pouco acima, dobrando uma esquina, numa casa com quintal alugada pelos activistas. Um vigia de vermelho à porta, a grade do portão abre e logo somos recebidos por uma sorridente Marielle Franco grafitada no grande muro branco do pátio. Não está sozinha. Segue-se a trindade Marx, Engels, Lenine, logo depois Rosa Luxemburgo, mais adiante José Martí e Fidel Castro inacabados. É um mural em progresso, estão na calha por exemplo Che Guevara e o Papa Francisco.

Marielle — a deputada carioca, negra, feminista, lésbica, assassinada a 14 de Março no Rio de Janeiro, que se tornou o símbolo de uma geração (ver reportagem "Este povo preto, periférico, lgbt, de Marielle Franco, com mais mulheres do que nunca na frente") — é não só a primeira do mural, como dá nome a esta cozinha colectiva. Aliás, para quem anda no Rio atento a tapumes, murais, graffitis, Marielle Presente e Lula Livre são o par de 2018. Eles dominam a luta de rua nestes estranhos tempos.

Alba despede-se e parte, a dormir enfim. Ao centro do pátio há uma grande araucária, e a cozinha, semi-aberta, foi construída em volta do tronco. Lá estão militantes a cortar cenouras, cebolas para o almoço. Um sambinha tocando (“Saudosa maloca / maloca querida...”). E ao balcão três maduros de esquerda a lembrar episódios da luta (“... o primeiro acampamento do MST! A burguesia curitibana ficou louca!”)
Um dos três é repórter da “Carta Capital”, revista de esquerda, despede-se. Outro é um veterano do MST, Roberto Bagio, 54 anos. Já aqui estava, diante da Polícia Federal, quando o helicóptero que trouxe Lula ainda nem aterrara. Lula fora abraçado por aquela maré de gente em São Bernardo do Campo, sua morada paulista, e de lá a polícia o trouxera. Entretanto, em Curitiba, preparava-se a batalha.

“Havia um grupo pró-Lula e um grupo anti-Lula”, lembra Roberto. “Nós ficávamos na frente da PF e atrás eram os coxinhas [expressão que passou designar genericamente gente à direita, pró-golpe, anti-pêtistas]. Nesse dia tinha milhares de pessoas aqui, mais de dez mil. Quando o helicóptero chega, os coxinhas soltaram fogos. E a PF lançou bombas, spray de pimenta, bala de borracha. Aí, o pessoal começa a correr, muitas pessoas se acidentaram, gente internada.” O cenário em que Lula foi levado para a cela.
“E tomámos a decisão de manter a Vigília até à liberdade. Vamos para onde ele for. Se for transferido, vamos junto.”

O plano de actividades está sempre em curso. “Aqui, além de espaço de comer, vai ser para debate, vai ter um cinema. Por isso que estamos ornamentando com arte, pintura. Vamos fazer aqui um espaço de formação política, tipo uma escola da militância.”

Chega Curi, um metalúrgico de São Bernardo, como Lula. Alojado com quotização dos trabalhadores, explica ele, como o pessoal que aqui está do sindicato dos químicos, dos bancários.” Tornaram-se habitantes do bairro, casas de classe média-baixa. Como é a relação com os vizinhos? “No começo, tensa”, diz Roberto. “Agora mais amistosa. Tem uns a favor do Lula e uns contra.”

Na Vigília

O sol arde. Atravessando a rua para a tenda da vigília, vejo as últimas tarefas antes de almoço. Há quem pendure panos Lula, e quem venda camisetas Lula em forma de mapa do Brasil ou de lata de fermento. Há uma ardósia com as actividades do dia. Há um canto para a comunicação, onde a militante Denise Veiga alimenta as páginas Lula Livre nas redes sociais. Há uma foto de Chico Buarque, com a camiseta da Vigília. Há um pequeno cartaz de solidariedade ibérica, Portugal e Espanha.

Neudi de Oliveira, assessora de Lula — vinda do Movimento dos Atingidos por Barragens — conta-me o quotidiano dele. “Segundas de manhã sempre tem visita dos advogados...” Incluindo Fernando Haddad, que neste dia 28 de Agosto ainda é oficialmente apenas o vice da candidatura, mas que a partir do próximo sábado, quando o tribunal rejeitar a candidatura de Lula, passará a funcionar como candidato de facto, ainda que o prisioneiro não desista de apresentar recurso (ex-ministro da Educação de Lula, depois prefeito de São Paulo, com elogios de muita gente, Haddad falhou a reeleição para essa prefeitura em 2016, época que considerou um auge do anti-pêtismo).

“Ainda na segunda, às 16h, o presidente Lula tem visita religiosa”, prossegue Neudi. “Ontem foi a Irmã Inês, católica, mas já teve pai-de-santo [figura das religiões afro-brasileiras, candomblé ou umbanda], monja, frade, pastor... Veio Frei Betto. E o Boff foi quem abriu as portas.” A imagem de Leonardo Boff, nome lendário da Teologia da Libertação, sentado, à noite, sozinho, diante da Políca Federal, até poder ver Lula, correu mundo. “Na quinta-feira, o presidente Lula recebe a família. E às 16h e 17h tem duas visitas aleatórias. Já veio Dilma, Pepe Mujica, Chico Buarque, Martinho da Vila...”

Também recebe livros. Por exemplo o “LULALIVRE LULALIVRO”, antologia em que participam 90 autores brasileiros, lançada há dias no lendário Teatro Oficina de São Paulo. O não menos lendário fundador do Oficina, José Celso, disse então: “Lula é um ser cosmopolítico, ele não é só um político, é um ser da vida. Ele prefere ficar preso do que ser libertado e não concorrer às eleições. Muita gente não compreende a grandeza dessa causa.” O livro é um grito de “inconformismo daqueles que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano no tapetão, na cara dura”, segundo os organizadores Ademir Assunção e Marcelino Freire. Neste dia 28, Lula já tem o seu exemplar lá em cima, e mandou um bilhete a agradecer, por uma das visitas.

Minutos antes da uma da tarde tudo some para a Cozinha Marielle Franco, a fome aperta. Forma-se uma fila enorme ao longo do mural Marielle mais os reis magos esquerdistas. Os militantes cozinharam para 150 pessoas, hoje. Entro na fila com um amigo carioca, poeta e músico, Dimitri Rebello, acabado de mudar para Curitiba. A namorada, a artista e activista Laura Formighieri, conta que Lula também teve um papel directo na sua vida, por ter estudado numa daquelas muitas universidades fora das metrópoles criadas nos governos dele.

A cara sorridente de Marielle está mesmo por trás de nós, e Laura mostra-me imagens de uma sua amiga artista, Flavia Naves, que “há dois meses está fazendo uma performance em que só veste roupa com a frase ‘Quem matou Marielle?’”. Imprimiu a frase em algumas camisas, noutras prende a frase.
Chegando a nossa vez, enchemos o prato com arroz, feijão, frango, cenouras e, mesmo de prato na mão, Roberto vai-nos mostrar as traseiras do quintal, onde vai nascer o cinema, e estão 1500 mudas de araucária, um projecto. “Para que todo o mundo que vem aqui leve uma, com uma carta de Lula.” E por cada dia na prisão estão a plantar uma árvore.

Entretanto, Tarcísio Leopoldo, 29 anos, militante do MST desde 2015, continua a trabalhar no mural. Foi ele quem pintou tudo o que já lá está, em menos de duas semanas. Projecta as figuras e depois pinta com um aerógrafo. “A gente tem a compreensão do que é esse momento”, diz. “Temos de mostrar a nossa indignação 24 horas por dia.”

Quase 14h30. Todo o mundo volta à tenda da Vigília para um dos três grandes momentos diários. Será o “Boa tarde, presidente!” Punhos no ar, camisetas e bonés militantes, vermelho a dominar, bandeiras, megafone na voz de quem hoje fará a voz principal, e todos gritam em coro cinco vezes:
— “BOA TARDE, PRESIDENTE!”
— “BOA TARDE, PRESIDENTE!”
— “BOA TARDE, PRESIDENTE!”
— “BOA TARDE, PRESIDENTE!”
— “BOA TARDE, PRESIDENTE!”

Olhos ao alto, para onde imaginam que Lula esteja. Ele consegue ver pelo menos a copa das duas araucárias gigantes, que sobem da Vigília para o céu, dizem-me.

Quando a emoção acalma, alguém me apresenta Vilmar Pacífico, 60 anos, um dos sete que estiveram em greve de fome junto ao Supremo Tribunal Federal, lá em Brasília, até ao passado fim de semana. Está a recuperar. Mostra-me as frutas dentro do seu saco de pano: banana, pêra, maçã. Mais sopa de legumes, duas vezes ao dia, é tudo o que pode comer agora, para já, “para ir calçando o estômago”, depois de 26 dias só a água com soro. Emagreceu 12 quilos. Mas um dos sete grevistas chegou a emagrecer 14.

“Sou de São Miguel de Iguaçu, paranaense com muita honra”, diz-me. Militante do MST, morador no Acampamento Fidel Castro, em Centenário do Sul. “Iniciámos a greve dentro do tribunal e continuámos fora, em frente ao gabinete de Cármen Lúcia [a muito discutida presidente do tribunal]. A gente via todo o escritório dela.” Recebeu-os, e depois foram recebidos pelo homem que lhe sucederá em breve, Dias Toffoli. “Ele disse que não ia colocar em pauta os habeas corpus do Lula. Ao todo falámos com cinco ministros [juízes] e dois assessores.” Mas com a campanha eleitoral a começar, o tribunal em peso ia sair de Brasília. Tudo somado, decidiram interromper a greve.

Vilmar traz um crucifixo ao pescoço. Católico, como a base do MST. Agora está a ficar ela por ela, católicos e evangélicos, diz. Metalúrgico como Lula, desde 1979 nas lutas ao lado dele. “Um cara que foi duas vezes presidente e está aí preso... imagine nós. A gente tem de viver meio-escondido.” A cautela é grande, é o que quer dizer. Estão no alerta. Desde que Dilma foi derrubada, o mundo que tinham visto avançar recuou. “A fome, a miséria, o desemprego, a matança, o preconceito, tudo isso voltou. As cestas básicas, os auxílios do governo começaram a ser cortados. Gente que perdeu o emprego começou a procurar os nossos acampamentos. Mas os acampamentos têm limite também.” No dele são 295 famílias, 700, 800 pessoas. “Mais do que isso começa a ficar complicado.”

Epílogo brasileiro

Dias depois, sábado, o tribunal eleitoral rejeita a candidatura de Lula. Haddad salta para candidato de Lula na prática, mas o candidato Lula continuará a recorrer. À hora a que este texto é publicado, ainda não deixou de ser candidato. Mas falta-lhe o epílogo, ainda em Curitiba, a 28 de Agosto.
Fazem-se passaportes e outras burocracias nas Polícias Federais. O que significa que, enquanto a Vigília Lula Livre fervilha do outro lado da rua, há gente a entrar e a sair do edifício onde Lula está preso. Gente que vai tratar da vida, dos papéis. Em vários casos, papéis para deixar o Brasil, um êxodo que Portugal está a receber em boa escala.
Então, é possível sair do Acampamento, da Vigília, entrar naquele edifício, onde os serviços estão descritos na parede até ao terceiro andar, como se o quarto não existisse. O piso dos prisioneiros. Voltando à direita, uma repartição igual a milhões, cadeirinhas cheias de gente à espera da sua vez, caixas automáticas para levantar dinheiro, famílias, bebés a chorar. Tudo isto por baixo da cela de Lula. E a cereja no fundo do bolo talvez seja a placa na entrada. A placa que diz que este edifício foi inaugurado a 2 de Fevereiro de 2007 pelo “Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva”.
Então Lula será um dos poucos prisioneiros do mundo numa cela de um edifício que ele próprio inaugurou como presidente. E certamente o único ainda candidato, embora já não candidato, à reeleição.

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