O que aconteceu?

Sábado à noite, num jogo designado de alto risco, milhares de adeptos do clube Arema invadiram o campo após uma derrota por 3-2 frente aos rivais do Persebaya Surabaya - foi a primeira vez em mais de 20 anos que o Arema FC perdeu no dérbi regional - no Estádio Kanjuruhan de Malang, província de Java Oriental, e entraram em confronto com as forças de segurança.

A multidão enfurecida no Estádio Kanjuruhan enfrentou os polícias e vandalizou várias infraestruturas, bem como cerca de 15 veículos, num surto de violência que foi descrito como “sem lei” pelo chefe da Polícia de Java Oriental, Nico Afinta.

Os agentes de segurança responderam com gás lacrimogéneo numa tentativa de impedir os ataques, causando pânico entre os adeptos e uma debandada.

“Era um espaço apinhado, o que causava dificuldade em respirar, falta de oxigénio”, disse Afinta numa conferência de imprensa.

Quantas pessoas morreram?

As autoridades relataram hoje de manhã que 174 pessoas tinham morrido na tragédia, mas ao fim do dia baixaram o número para 125 devido a “um erro no registo” nos hospitais que tratavam as vítimas, disse a Polícia Nacional.

A maioria das vítimas sucumbiu a asfixia, traumatismo ou atropelamento, de acordo com fontes hospitalares.

O número de pessoas feridas aumentou de 180 para 323 pessoas, de acordo com o balanço atualizado, citado pela agência espanhola EFE.

Os mais de 300 feridos foram admitidos em diferentes hospitais da região com diferentes graus de gravidade, pelo que as autoridades não excluem que o número de mortos possa aumentar nas próximas horas ou dias.

Esta é uma das piores tragédias de sempre num estádio de futebol, depois dos 318 mortos em confrontos entre adeptos do Peru e da Argentina no Estádio Nacional de Lima, em 1964.

Os relatos de quem estava no estádio

Vários sobreviventes e testemunhas da violência denunciaram a brutalidade da polícia, que além de disparar granadas de gás lacrimogéneo também utilizou bastões para enfrentar os adeptos, de acordo com relatos compilados pelos meios de comunicação locais.

No que diz respeito às equipas, o treinador português Eduardo Almeida orientou, até ao início de setembro, o Arema FC, quarto classificado do último campeonato indonésio, que conta no plantel com o português Sérgio Silva e o guineense Abel Camará.

Sérgio Silva, numa entrevista à agência Lusa, relatou os momentos de pânico vividos no estádio pela equipa. O defesa, de 28 anos, contou que, depois do apito final, a equipa já nem ia fazer a habitual volta de agradecimento aos adeptos, mas que, ao aproximar-se um pouco mais de uma bancada para pedir desculpa, acabou por ver alguns adeptos a invadir o campo.

“Quando começámos a ver que estavam a invadir bastantes adeptos, ficámos com um bocado de receio, porque não sabíamos se nos queriam fazer mal. Fomos a correr para o balneário e barricámo-nos aí, sem saber o que se estava a passar. Ao longo do tempo, fomos obtendo informações do exterior e havia muitos feridos, muito alvoroço, mortos atrás de mortos. Foi um cenário aterrador”, disse.

Sérgio Silva contou que os jogadores estavam “receosos” por estarem fechados e chegaram a colocar “mesas em frente às portas, sem saber o que se estava a passar e a quantidade de gente que podia arrombar”. Só mais tarde, reconheceu, é que se aperceberam de que a agitação era sobretudo para escapar ao gás lacrimogéneo atirado pelas autoridades.

“Começámos a perceber que as pessoas estavam em pânico e não era para nos fazerem mal, mas, simplesmente, para terem espaço para circular, porque muitas pessoas morreram por esmagamento e em pânico”, relembrou, esclarecendo que a sua família está em Portugal e que só tranquilizou a mulher e o filho quando já tinha saído do estádio em segurança no autocarro do clube, apesar de ainda estar “em choque” com o que tinha acontecido.

Que medidas foram tomadas na Indonésia?

A federação indonésia de futebol (PSSI) afirmou num comunicado que "lamenta as ações dos adeptos" e que o incidente “mancha o futebol indonésio”.

A PSSI formou uma equipa de investigação, que já se deslocou para a cidade de Malang e prometeu cooperar com a investigação policial do caso.

A federação anunciou ainda a suspensão da primeira divisão por uma semana e proibiu o Arema FC de receber jogos em casa durante o resto da temporada.

O governo indonésio lamentou o incidente e prometeu também investigar as circunstâncias.

“Vamos examinar minuciosamente a organização da partida e o número de adeptos”, declarou o ministro do Desporto e Juventude indonésio Zainudin Amali ao canal de televisão Kompas.

Como reagiu a FIFA?

O presidente da FIFA lamentou hoje “a tragédia incompreensível” ocorrida no Estádio Kanjuruhan, na Indonésia, endereçando “sentidas condolências” aos familiares e amigos das vítimas num “dia negro” para o futebol.

“O mundo do futebol está em estado de choque após os incidentes trágicos que tiveram lugar na Indonésia, no final do jogo entre o Arema FC e o Persebaya Surabaya no Estádio Kanjuruhan”, começou por dizer Gianni Infantino, citado em comunicado publicado no sítio oficial da FIFA.

O presidente do organismo que tutela o futebol mundial lamenta “um dia negro para todos os envolvidos no futebol e uma tragédia incompreensível”.

“Endereço as minhas mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas que perderam a vida neste trágico incidente. Juntamente com a FIFA e a comunidade do futebol, os nossos pensamentos e preces estão com as vítimas, os feridos e as pessoas na Indonésia, na Confederação Asiática de Futebol, na Associação de futebol da Indonésia e na liga de futebol, neste momento difícil”, conclui a nota.

Como é que Portugal olhou para o que aconteceu na Indonésia?

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decretou a realização de um minuto de silêncio nas competições por si organizadas, nomeadamente a Taça de Portugal, em memória das vítimas da tragédia ocorrida na Indonésia.

“A Direção da Federação Portuguesa de Futebol decreta um minuto de silêncio em memória das vítimas da tragédia ocorrida num estádio de futebol na Indonésia. A homenagem será cumprida em todos os jogos das competições organizadas pela FPF”, pode ler-se em comunicado publicado no sítio oficial do organismo.

Na mesma nota, o presidente da FPF, Fernando Gomes, refere que “foi com enorme estupefação e um sentimento de profunda dor, mas também de revolta” que teve conhecimento “dos acontecimentos de proporções trágicas ocorridos num estádio na Indonésia”.

Mais tarde, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou uma mensagem de condolências ao seu homólogo da Indonésia, Joko Widodo pela tragédia que ocorreu no estádio de futebol em Malang.

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