Como é que o olho humano, sem ajuda de instrumentos como o telescópio, consegue ver as estrelas, tendo em conta as diferentes luminosidades e cores do céu nocturno? Uma equipa de astrónomos que investiga este tema decidiu aplicar o estudo a alguns monumentos megalíticos, como as antas de sete pedras do centro de Portugal. Fábio Silva, da Universidade de Wales Trinity Saint David, citado no comunicado da RAS, diz que "é possível que os túmulos estejam alinhados com Aldebarã, a estrela mais brilhante da constelação do Touro. Para poder saber com rigor a primeira aparição desta estrela, na estação própria, é fundamental conseguir detectá–la no lusco–fusco." Só é possível ver Aldebarã a olho nu a partir de Abril.

A equipa explorou a forma como uma abertura estreita, simples, pode ser usada para ter uma melhor visibilidade das estrelas mais difíceis de observar. Dentro do túnel que forma a entrada das antas, o olho humano consegue habituar-se melhor à escuridão e focar os objectos, e assim detectar a estrela com alguma antecedência. Avistar a primeira aparição duma determinada estrela no céu nocturno pode ter servido para marcar o ciclo das estações – e determinar, por exemplo, quando era o momento certo para começar uma migração para zonas de pastagem de verão.  

Pensa-se que estes monumentos megalíticos eram usados para rituais de iniciação: os iniciados passariam a noite dentro da anta, sem outra luz senão a que entrava pelas passagens estreitas, e o facto de verem estrelas de outra forma dificilmente detectáveis conferia-lhes conhecimento e poderes especiais. 

Anta da Orca

Imagens do grupo megalítico de Carregal do Sal: a) Dolmen da Orca, estrutura típica do ocidente da Península Ibérica; b) vista da passagem e entrada, a partir da câmara do dolmen: a 'janela de visibilidade'; c) orca de Santo Tirso, um dolmen com uma passagem ou corredor muito mais estreito. Fotos: F. Silva