“As Crianças Invisíveis” é o mais recente romance de Patrícia Reis. Sublinhe-se romance quantas vezes necessárias. O pedido é nosso e da própria autora. "Não gostaria nunca que as pessoas entendessem que este romance é uma reportagem”, refere ao SAPO24 em entrevista.

“Lemos muitas notícias, ao longo do ano, sobre crianças que são tiradas aos pais, crianças que estão em instituições, crianças que sofrem de abusos e de violências. E são números. Não têm rosto, não têm nome. Muitas vezes não têm sexo, que é o que acontece nas crianças neste romance. São invisíveis. E nós temos a obrigação de um olhar, da preocupação”.

Foi este o exercício, fruto de um longo período de investigação, nem sempre fácil, nem sempre livre de lágrimas, que Patrícia Reis, editora, escritora, cronista e jornalista, se propôs. “As Crianças Invisíveis” é um retrato ficcionado sobre a adoção, o abandono, a violência dos atos, o sistema, os sentimentos sem género, a proteção, o amor e as dinâmicas familiares. 

Na véspera do Dia da Criança, por coincidência de agenda, e numa tarde de calor de um verão que ainda não chegou, Patrícia Reis falou-nos de sobre “As Crianças Invisíveis”, o que a levou ao tema, a dificuldade da escrita e o desapego das personagens — “M.” e “Conceição” — que ainda não aconteceu. Pediu que a tratássemos por tu, emocionou-se a certa altura e tornou nossos pequenos pormenores de quem fez do livro o seu território durante muito tempo.

“As Crianças Invisíveis” é um livro para crianças, para adultos ou ambos? 

É um livro para adultos, claramente. É um romance, e está inserido numa coleção de livros, claramente para adultos, que tenho na D. Quixote. Não estou a dizer que um adolescente com 16 ou 17 anos não o possa ler; não há nenhuma dificuldade ao nível da escrita que o impeça de ler. Diria que toda a boa literatura pode ser lida em qualquer idade. Um jovem com 15 anos pode ler a "Anna Karenina" [de Liev Tolstói], que tem a sua complexidade. Tenho grandes dúvidas quanto a essa coisa dos rótulos e de classificarmos a literatura por idades. Quando escrevi não pensei nos mais novos, pensei numa história.

Qual foi o ponto de partida, alguma história com a qual tenhas tido contacto? Sei que o livro te obrigou a algum trabalho de investigação.

Foi uma história que me contaram e que me perturbou, digamos assim. A história de uma criança que é devolvida no período ainda de pré-adoção. Mexeu um pouco comigo. Depois, conheço alguns casais que adotaram crianças; uma criança ou mais do que uma, muitas vezes irmãos. E às vezes [este] é um assunto que vem nas conversas entre amigos. Durante muito tempo considerei adotar, apesar de ter dois filhos biológicos. [Este] sempre foi um tema que me interessou, mas o que me interessou acima de tudo, além do choque da história da devolução, para a construção do livro, foi esta ideia de que as crianças são, de facto, invisíveis. Lemos muitas notícias, ao longo do ano, sobre crianças que são tiradas aos pais, crianças que estão em instituições, crianças que sofrem de abusos e de violências. E são números. Não têm rosto, não têm nome. Muitas vezes não têm sexo, que é o que acontece nas crianças neste romance. São invisíveis. E nós temos a obrigação de um olhar, da preocupação. Elas estão em instituições do Estado — e o Estado, ao contrário do que se imagina, somos todos nós. Não é verdade?

Há algum número que não esteja na boca das notícias que te tenha surpreendido?

Há muitos números; saiu recentemente o Relatório da Comissão de Proteção de Menores [disponível para leitura aqui]. [E há] outros que enchem os títulos dos jornais e da comunicação social e que são muito impressionantes. Estamos a falar de milhares de crianças.

"A ideia de que a criança é um objeto que se adquire e que se devolve, como se tivesse defeito ou como se estivesse estragada, é uma ideia com a qual não queremos ser confrontados de maneira nenhuma"

Falava de crianças que são devolvidas no decorrer do processo de adoção.

Há alguns números referentes a isso que não são bonitos — nunca são bonitos —, mas também não se fala muito deles. Porque a ideia de que a criança é um objeto que se adquire e que se devolve, como se tivesse defeito ou como se estivesse estragada, é uma ideia com a qual não queremos ser confrontados de maneira nenhuma.

Eu fiz uma investigação longa. Porque há uma coisa em mim que existirá sempre, que é este bicho jornalista que se instala e não desaparece. É muito bom para observar o mundo, e tem-me sido muito útil noutros livros. Mas, enquanto escritora, o que importa realmente é mastigar o que vi, ouvi e li para criar uma narrativa. Não gostaria nunca que as pessoas entendessem que este romance é uma reportagem. Não é uma reportagem, de todo. Estas crianças não existem, são ficcionadas e não há nenhuma história no livro que seja decalque de qualquer situação real com a qual me tenha deparado. Nenhuma. Devia isso às pessoas que tiveram a imensa generosidade de falar comigo. O David Lodge, que é um grande escritor e professor académico, tem um pequeno livro, um conjunto de ensaios, que se chama "A Consciência do Romance". E a consciência do nosso tempo, diz ele, e com razão, é trabalhada pelo escritor muito antes do historiador. E se pensares, isto tem alguma veracidade. Se quiseres saber qualquer coisa sobre as crianças no século XIX vais ler Charles Dickens e está lá tudo. Portanto, o escritor é uma espécie do historiador do seu tempo através da imaginação. Mas se o escritor não for um observador, não estiver atento ao mundo, para mim, Patrícia, não me interessa tanto. Interessam-me muito os escritores que estão no mundo.

Essas pessoas com quem falaste, algumas delas foram crianças?

Sim, algumas.

Como é que se parte para o diálogo com uma criança que tenha passado por um processo destes? Qual é a abordagem?

Não sou psicóloga ou professora, portanto inseri-me dentro de uma instituição, onde passei alguns dias, elas habituaram-se a mim e fui ouvindo. Fiz poucas perguntas.

"O escritor é uma espécie do historiador do seu tempo através da imaginação. Mas se o escritor não for um observador, não estiver atento ao mundo, para mim, Patrícia, não me interessa tanto. Interessam-me muito os escritores que estão no mundo"

O melhor nestes casos é mesmo só ouvir?

E ouvir está em deficit. É quase um exercício em extinção porque as pessoas têm pouca capacidade para ouvir as outras. Gostam muito de pontificar e pouco de ouvir.

E essas crianças, imagino, foram mais vezes questionadas que ouvidas.

Sim, e claro que és confrontada também com mentiras, mitificações, manipulações, efabulações, construções de ideais. Porque há o pensamento mágico, em crianças em instituições como nas fora delas. E o pensamento mágico pode ser também uma ferramenta de salvação. Acredito que seja para muitas das crianças. Mas eu, sobretudo, falei com pessoas que trabalham ou trabalharam em instituições: psicólogos, assistentes sociais, juízes. E, como te digo, serviu-me para mergulhar no assunto. Não me serviu para construir a narrativa que eu queria escrever. Porque, acho, a literatura formula perguntas, acomoda, faz-nos pensar e ajuda-nos a refletir sobre um tema. Para mim um livro é sempre uma grande pergunta. E se tu quiseres, neste livro, a pergunta é: como é que uma criança sobrevive a este nível de dor, de abandono, de abuso, independentemente do seu género, e como é que cria e constrói uma identidade a partir disso? Como é que se sobrevive e como é que se passa de uma invisibilidade para uma visibilidade? Porque a criança “M.”, que é a personagem central do romance, vai num processo de invisibilidade para a visibilidade. Porventura, pessoas relacionadas a este universo dirão que isto não é exatamente assim. Pode ser, é um romance, não é uma reportagem jornalística. Eu tentei ser rigorosa na informação que é informação. Mas essa parte também é a que menos me interessa. Porque acho que a literatura se faz do tecido emocional; faz-se pouco dos factos e muito do tecido emocional. E esse verdadeiramente é o que me importava.

Ao longo do livro, a "Casa", espaço central da ação, nunca é referida como "a" instituição. É pela carga pejorativa que usualmente é associada a esse nome?

Porque a "Casa" surge como cápsula protetora, não é um refúgio. E é a possibilidade de, não sendo uma família, teres dinâmicas familiares. Dirás que nada substitui uma família. Em teoria. Esse pensamento bonzinho vive na premissa de que todas as famílias são boazinhas e que as mães e pais são boas mães e bons pais. O que não é verdade, não é? Esse espaço da "Casa" é uma substituição com imensas coisas boas. Com fragilidades, mas com imensas coisas boas. E uma delas é o facto de eu ser igual ao menino ou à menina que está à minha frente; a minha história é diferente, mas partilhamos a "Casa". A "Casa" é o território comum.

Logo nos primeiros capítulos de “As Crianças Invisíveis” , quando se percebe que a família de adoção não está a receber a personagem “M.” como devia, essa denuncia é feita a partir da escola. A “Casa” reage automaticamente, com o intuito de proteger a criança. Em contrapartida, há um momento em que a Justiça é colocada em causa quando a personagem da psicóloga diz que não acredita nela. A dualidade “Casa”, enquanto elemento protetor, e Justiça, quem falha, é aí exposta.

Não são as pessoas que falham, é o sistema. Basta olhares para as notícias de vítimas de abuso, que deixam as pessoas a perguntarem: "porquê?". Porque é que uma criança volta a um espaço onde há violência?

"Como é que uma criança sobrevive a este nível de dor, de abandono, de abuso, independentemente do seu género, e como é que cria e constrói uma identidade a partir disso? Como é que se sobrevive e como é que se passa de uma invisibilidade para uma visibilidade?"

Mas a "Casa" não pode ser também o sistema?

Mas há as regras e as leias, e uma complexidade... Não estou, de todo, a dizer que é fácil legislar e atribuir normas de comportamento a situações destas. Longe de mim. Li muitas leis, mas não sou jurista. Não há sistemas perfeitos, e, se calhar, este é do mal o menos pior. Não sei, porque não conheço outros. Não me preocupei em saber como é em Espanha, em França ou em qualquer outro lugar da Europa. Digo Europa porque, para nos comparar-nos com qualquer país, acho que devemos fazê-lo com um país europeu. Porque as realidades no continente americano, asiático ou africano são certamente diferentes. Eu não gostava que o romance só tivesse desgosto, porque ninguém aguenta só o desgosto. Portanto, a "Casa" é um espaço de tréguas. Ficcionalmente é um espaço de tréguas.

A propósito da menção ao continente americano. Na ficção aí produzida, sobretudo no norte, estamos habituados a acompanhar histórias cuja construção da personagem parte de um passado em famílias de acolhimento ou instituições. Isso é uma coisa que não vemos ou lemos por cá.

Há muitas coisas que não vemos na ficção nacional. Porque o escritor é esta consciência do momento, da mesma forma que o terrorismo se tornou um tema depois do 11 de Setembro… E tens um livro excecional, “O Homem em Queda”, de Don DeLillo... Da mesma forma que [sobre o 11 de Setembro] tiveste vários romances, vais ter agora uma leva de livros sobre a questão dos refugiados.

E este teu livro tem também uma referência a isso.

Porque importa mesmo perceber como é que essas pessoas vão viver. Não sei se viste uma reportagem do Pedro Coelho, na SIC, sobre cinco miúdos que vieram do Afeganistão para um programa de acolhimento que previa receber noventa e cinco. A história é um disparate. Nós falhámos, é uma vergonha. Nos Estados Unidos começaste por ter literatura gay mais cedo, por exemplo. Nos Estados Unidos começaste por ter literatura que reflete os traumas e o stress pós traumático relacionados com temas bélicos muito antes de nós. E não estou a dizer que não tenhamos literatura que aborde isso, porque temos. O que acho é que há certos e determinados temas que são muitos difíceis. Este livro poderia ser sobre velhos invisíveis. Sim, existem casas de acolhimento e existem lares. Mas pouco gente lá foi, pouca gente se preocupou em saber como é que são. Vês nas notícias que um lar foi fechado por não ter condições. 'Que horror a forma como tratam as pessoas!'. Mas não queres saber…

[No processo do livro] Tive momentos em que voltei para casa com lágrimas a escorrerem-me pelos olhos. Ainda hoje há coisas que... Foi difícil. E poderia ter facilmente desistido.

créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

“As Crianças Invisíveis” foi escrito em quanto tempo?

Demorei muito tempo a escrevê-lo. Levei quatro anos a ler e a investigar; a escrever e a reescrever. A atinar de uma vez por todas com a forma como queria fazer as coisas. Porque todos os capítulos começam da mesma maneira, com uma lógica quase matemática ou como uma composição de Bach. Vai e volta; vai e volta. As emoções também são isto: vão e voltam. Levei muito tempo para conseguir perceber como é que queria fazer isto. Não sou lenta a escrever, mas mudo muitas coisas. Comecei por o escrever na primeira pessoa, como se o narrador fosse a criança “M.”. E estive muito tempo a escrever assim, até perceber que não era capaz de ir até ao fim. Eu, Patrícia, não era capaz de ir até ao fim.

"Comecei por o escrever na primeira pessoa, como se o narrador fosse a criança “M.”. E estive muito tempo a escrever assim, até perceber que não era capaz de ir até ao fim. Eu, Patrícia, não era capaz de ir até ao fim"

Ao longo dos capítulos, as personagens são introduzidas sob a designação de letras, consoantes, sem identidade. "M.", "S.", "B.", “L.”, entre várias outras. Há apenas uma personagem, "A.", a única vogal nessa lista, que é dada para adoção. Não é um mero detalhe, foi intencional?

Foi, e mais ninguém vai reparar nisso. Construir um livro é construir uma tapeçaria. Um livro tem segredos, tem pequenas coisas que acabam por ser quase nossas, ninguém vai reparar, ninguém leu o outro livro, ninguém percebe que há aqui uma ligação ou não.

É muito interessante perceber que, consoante os leitores, a criança “M.” é um rapaz ou uma rapariga. Quer dizer que o leitor se identificou com a personagem. O exercício de escrita [sem género] é muito difícil, mas obrigou-me a um trabalho de plasticidade na língua portuguesa que foi bom para mim. Difícil, tenho de dizer, mas gratificante.

O teu livro anterior tinha também uma personagem “S.".

Tinha, tinha sim. Na minha cabeça [essa personagem] poderia ter sido entregue a uma instituição. E se tivesse sido, porventura, não tinha feito o percurso que fez. O livro chama-se "A Construção do Vazio" porque essa personagem, depois do abuso a que é sujeita enquanto criança, pelo pai fisicamente e pela mãe psicologicamente, não consegue construir nada. Se ela tivesse ido parar a uma instituição se calhar conseguiria.

Isto para te dizer que os livros têm pequenos pormenores que são os nossos segredos. Tu vives dentro do livro muito tempo. E, portanto, tu fazes daquele território o teu território. Por isso é que não entrego nenhum livro sem ter começado outro. Custa-me muito ficar sozinha, porque aquilo está sempre na tua cabeça. Infelizmente, o meu trabalho não é só escrever, o meu trabalho também é escrever, mas tenho de ganhar a vida. Já dei por mim, em reuniões, quando estou muito próxima de terminar [um livro], em que as pessoas estão a falar comigo [e eu a pensar]... 'Agora, se calhar, a “Conceição...”' [personagem de uma assistente social].

Há alguma personagem da qual ainda não te tenhas despedido?

A “Conceição” é uma delas e a criança “M.” também. Não te sei explicar muito bem, mas custou-me imenso a escrever. Eu chorei que nem uma criança. E custa deixar ir. Embora ache que o final é um final aberto. Não é horrível.

É um final que deixa a cada leitor imaginar o que quiser para a vida de “M.”.

Sim, sim. E eu desejo-lhe tudo de bom, como é evidente.

A escrita sem género evidencia que os sentimentos também não o têm. Ambos “M.” e “S.” sentem ciúme, por exemplo.

O meu ponto era esse. Porque o espetro emocional não difere de homem para mulher. A dor é a dor. A alegria é a alegria. A tristeza é a tristeza. Isto é do ser humano. Mais, o riso que é a única coisa [própria] do ser humano, como diria Aristóteles. Somos nós que partilhamos o riso. E esse espetro emocional, esse tecido, era o que me interessava. Isso não tem sexo.

"Muitas vezes diz-se que estes miúdos têm direito à família; eu acho que eles têm direito é à proteção e ao amor. A família é uma coisa que se constrói"

Voltando à personagem da “Conceição”, ela tem duas vidas consoante as suas duas casas, a da instituição e a pessoal. Qual é que é a sua verdadeira casa?

É a “Casa", onde estão os miúdos. Essa é a grande luta dela com o marido e a grande luta dela com ela própria. E é a enorme luta para perceber qual o seu papel, qual a sua identidade enquanto mãe.

Há uma afetividade maternal dela para com as crianças da "Casa", mas, por outro lado, não lhe sabemos a relação com filha, cujo nome lhe conhecemos, "Joana", mas não mais do que isso.

Isso significa que alguém pode ser muito boa mãe dentro de uma instituição e dentro da sua própria casa, se calhar, não o consegue ser.

No livro, [as mulheres] têm situações diferentes. A Conceição está casada e prepara-se para enfrentar um divórcio, a Luísa é divorciada, a Emília não se sabe e a Dulce perdeu um filho. Estas histórias existem e são reais. E há certas histórias, que fui ouvindo na pesquisa e que nunca poderia utilizar, porque são tão fora, tão fora, que não daria ao romance um sentido verosímil. Isso é importante, é importante que o leitor sinta que isto pode ser mesmo assim. E muitas vezes a realidade supera a ficção, de uma maneira brutal. As pessoas não são só a preto e branco, não são só boazinhas.

Uma das coisas que me preocupava, na construção de "As Crianças Invisíveis", era esta ideia de que as pessoas, muitas vezes, partem para a adoção porque querem ser boazinhas, querem preencher buracos, querem aliviar as suas questões existenciais. Então partem para a adoção como uma certa ligeireza. Este amor não nasce espontaneamente. Se adotas um miúdo com cinco anos, esse miúdo tem cinco anos de tralha e desastre para trás. E o amor não nasce assim [estala os dedos]. Muitas vezes temos discursos politicamente corretos e não assumimos que temos as nossas fragilidades e os nossos defeitos. Que temos as nossas porras, como diria o meu tio-avô. Pensei durante muito tempo em adotar. Hoje, objetivamente, talvez tenha sido melhor não o ter feito. Claro que cada pessoa é a sua pessoa e há histórias de adoção maravilhosas e outras péssimas, há de tudo. Porque há de tudo na vida. Muitas vezes diz-se que estes miúdos têm direito à família; eu acho que eles têm direito é à proteção e ao amor. A família é uma coisa que se constrói.

Há outra coisa que queria deixar passar e não sei se o fiz de forma consciente. Os miúdos estão em constante mutação, constroem-se e destroem-se no próprio dia. Dez vezes. Estão sempre a mudar. Quando dizes assim: 'conheço esta criança com a palma das minhas mãos'. É mentira. A criança é que te conhece, porque tu não estás a mudar. Espero que o livro mexa com dois, quatro leitores. Os que lerem. E quando pensarem em adotar, se calhar tenham em consideração uma série de coisas que este livro dá como pinceladas ou mais concretamente.

"As pessoas, muitas vezes, partem para a adoção porque querem ser boazinhas, querem preencher buracos, querem aliviar as suas questões existenciais"

Uma dessas pinceladas é a dificuldade em crianças mais velhas serem adotadas.

Há muitas crianças para adotar em idade mais tardia. É uma questão que pode ser muito difícil. Para elas, crianças, e para as famílias que querem adotar, por melhor que seja a sua intenção.

Ou ainda a opção por adotar apenas crianças brancas.

Bebés Nestlé ou bebés Chico. Olhinho azul, nada de etnias ciganas, nada de etnias outras, nada de crianças com doenças, nada de miúdos seropositivos. Nada disso.

Estás preparada para a partilha de quem leia o livro e tenha histórias semelhantes?

Estou, absolutamente, porque já as ouvi para a preparação do livro. O que quero é que essas pessoas, que viveram essas histórias e que estiveram em instituições, não achem um abuso da minha parte ter pegado neste tema. Porque não vivi esta situação será que me dá a legitimidade para escrever sobre isto? Acho que o escritor tem legitimidade para escrever sobre o que for. E é essa a diferença entre um escritor e um jornalista. O escritor serve-se da imaginação, da observação e da sua própria reinterpretação do mundo. Portanto acho que nesse sentido é legítimo escolher este tema ou outro; nunca fui à guerra e posso escrever sobre ela, nunca tive um cancro e um dos meus personagens já teve. É suposto um escritor ter este nível de empatia com o outro de forma a poder imaginar-se nos sapatos do outro.

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