O secretário-geral do PCP vai ser operado de urgência a uma estenose na carótida, o que levará à sua saída da campanha eleitoral durante dez dias. O problema vascular, que foi detetado num exame de rotina, obrigou a uma mudança súbita dos planos de campanha.

Durante a sua ausência, o líder comunista será substituído por João Ferreira, ex-candidato presidencial e vereador da CDU na câmara de Lisboa, e pelo líder parlamentar do PCP, João Oliveira, ambos com menos de 45 anos.

Sobre as escolhas, Jerónimo recusou qualquer teste para o futuro da liderança do partido e justificou a escolha recordando que ambos fazem parte da Comissão Política do Comité Central e que são candidatos às eleições – Ferreira está em lugar não elegível em Lisboa (10.º) e Oliveira é cabeça de lista por Évora – e que, “pelas suas capacidades, darão conta do recado”.

João Oliveira vai ser o substituto de Jerónimo de Sousa no último dos debates televisivos em que o PCP aceitou participar e, por isso, irá debater com Rui Rio na SIC.

Rui Rio já reagiu e desejou ao secretário-geral do PCP “uma recuperação rápida e plena” da cirurgia, acrescentando, numa publicação no Twitter que “como é evidente” está “de acordo que o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, seja substituído no debate por um camarada seu”.

A resposta de Rio mereceu reação por parte de Jerónimo, que agradeceu a “cooperação” por admitir a sua "substituição pelo camarada João Oliveira" e considerou que as manifestações de apreço são "das coisas melhores para quem anda na vida política, porque é um valor que não determina nem vai esmorecer o combate político”, considerando tocante haver "valores democráticos que perduram”.

“É um exemplo de que pode haver combate sem tréguas no plano político e ideológico, mas há valores que pertencem a todos”, afirmou, destacando que o “relacionamento humano”, as palavras de “incentivo e solidariedade” lhe deram “alegria e conforto”.

Mas a substituição vai além do debate, já que Jerónimo de Sousa tinha várias ações de campanha marcadas, desde encontros e comícios que implicavam deslocações a vários pontos do país.

Assim, enquanto o secretário-geral recupera da intervenção cirúrgica, João Oliveira vai ainda partilhar com João Ferreira várias ações na primeira semana de campanha eleitoral.

O PCP adota assim uma nova estratégia eleitoral, mas também uma possível clarificação na corrida à sucessão do secretário-geral.

Anteriormente, o próprio Jerónimo de Sousa mencionou os nomes de João Oliveira e de João Ferreira para assumirem tarefas de maior responsabilidade no partido, mas, à data, também foram apontados Bernardino Soares e João Frazão como possíveis candidatos.

No entanto, João Ferreira tem marcado presença em várias corridas eleitorais – foi candidato à Presidência da República, à Câmara de Lisboa e foi eurodeputado durante mais de uma década – e João Oliveira teve uma forte participação nas negociações da geringonça e nos anos de liderança parlamentar.

Hoje, mais uma vez, quando questionado pelos jornalistas sobre se "esta substituição dupla poderia ser uma experiência a ser tida em conta numa discussão no Comité Central sobre uma futura sucessão na liderança do PCP", Jerónimo reiterou que "eles não foram à experiência, eles são já muito experimentados, têm uma grande capacidade de resposta e eu confio nisso".

O historiador João Madeira, que faz parte do Instituto da História Contemporânea e tem no PCP e nas oposições ao Estado Novo uma das principais temáticas de investigação, considera que João Ferreira “parece apontar” para a escolha mais provável, por “não haver outro candidato” do PCP nos últimos atos eleitorais com a mesma proeminência.

“Esses sinais poderão querer dizer alguma coisa, mas também poderão não querer dizer nada”, reconheceu, lembrando que “há uma tradição de trocar as voltas de que o PCP gosta muito”.

Por outro lado, João Oliveira, líder parlamentar do PCP, “tem representação institucional e isso terá importância no processo de escolha”. É também membro da Comissão Política do Comité Central do PCP, assim como João Ferreira.

João Madeira sugere que esta escolha de dois dirigentes para substituir provisoriamente o secretário-geral na campanha eleitoral foi uma “nota que o próprio partido queria dar para não espalhar a ideia de que havia um sucessor natural, que seria aquele que o substituiria agora”.

O historiador é da opinião que há um processo invisível a olhos exteriores e que não é evidente no que diz respeito à escolha do próximo secretário-geral do PCP.

Para já, a eventual sucessão de Jerónimo de Sousa parece não estar para breve, até porque, como o próprio salientou, “é só uma semana ou duas" — mas a avaliação poderá já estar em curso, ainda que invisível.

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