O casal — ela cega, ele em cadeira de rodas — foi levado da aldeia da Marinha, na freguesia da Graça, para a Misericórdia de Pedrógão Grande, onde permaneceram até hoje de manhã, na companhia do Kiddy, um cão que criaram desde os três meses e que faz parte da família.

“Ela dormia no colchão e ele dormia sempre ao lado dela. Nunca a deixou desde sábado à noite”, conta à agência Lusa uma auxiliar da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, acompanhada de uma técnica da Segurança Social e de uma voluntária.

As três são responsáveis por levar os dois idosos a casa, quatro dias após dali terem saído sem saber se a habitação resistiria ao incêndio que deflagrou no concelho e que se alastrou a outros municípios da região Centro, matando pelo menos 64 pessoas e fazendo mais de 200 feridos.

Junto ao número 132, há um mosaico à entrada a dizer “Benvindo seja quem vier por bem”. A casa não foi atingida pelo incêndio, mas o trator, as plantações e tudo à volta estão destruídos.

Florinda só quer entrar em casa e ter a certeza de que tudo está bem. Indica o caminho para o portão da entrada, mas não há chaves nem do portão, nem da casa — foram entregues pelos bombeiros ao neto que reside em Santarém e que estava a contar ir buscar os avós no sábado.

Depois de várias tentativas, consegue-se entrar, à força.

A octogenária conhece cada centímetro do portão para dentro. Amparada, sobe as escadas e quer percorrer todas as divisões, sentir, tocar em tudo, apesar de as técnicas lhe dizerem que está tudo em ordem, que nada ardeu.

Enquanto a mulher sorri, agarrada a uma bengala, Adelino é retirado da viatura e colocado na cadeira de rodas - que lhe custou “175 euros em Coimbra”, como faz questão de lembrar - para ser levado para a habitação.

Entretanto, a padeira chega e pergunta se está tudo bem. Florinda responde: “Está tudo bem, deixa-me cinco papos-secos”. Antes de ir embora, a jovem, que anda de porta em porta a entregar o pão, partilha que Florinda é uma mulher “cheia de força” e lúcida.

“Sempre que passo, apito e ela vem à porta, pois já sabe que sou eu. Muitas vezes pede-me para ler as cartas do correio. Também me pede ajuda para pôr a televisão no canal que ela quer. É uma pessoa fantástica”, descreve a padeira.

O casal tem dois filhos emigrados em França e uma filha a trabalhar em Santarém. Vivem sozinhos em casa. Apesar de Florinda não ver e de Adelino estar na cadeira de rodas, os anos parecem ter tornado “menos difícil” viver com estas limitações.

Adelino é carregado em mãos até à cozinha, primeira divisão da casa, enquanto Florinda continua a andar de um lado para o outro. O sorriso mantém-se. As lágrimas, essas, são de felicidade.

A técnica da Segurança Social, que veio do distrito de Braga, pergunta ao morador se não têm apoio domiciliário.

“Ela é que não quer. Diz que pode fazer tudo”, diz Adelino, apontando para a mulher.

O barulho do frigorífico dá sinal de que "a luz já voltou”. A auxiliar da Misericórdia de Pedrógão Grande abre o eletrodoméstico e afasta-se do cheiro intenso. Foram vários dias sem eletricidade e tudo o que havia no frigorífico está estragado.

Da carrinha para casa, vão-se trazendo mantimentos: batatas, cebolas, leite, enlatados, comida para o Kiddy, entre outros alimentos, para ajudar o casal nos próximos dias.

Adelino Joaquim olha à volta e fixa o olhar na mulher. “Já estamos na nossa casa”, diz-lhe, com lágrimas e a voz embargada.

Antes de a equipa ir embora, Florinda dirige-se novamente à caixa do correio, que guarda algumas cartas. “Vou ali buscar o correio para me lerem”, pede educadamente. A padeira já tinha passado.

Reportagem: Jorge Afonso da Silva

Fotografia: Paulo Cunha

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