“Posso dizer que há uma grande confusão. Ninguém se entende. Está tudo dividido. Há famílias inteiras divididas. Às vezes na cantina da empresa vejo os escoceses completamente contra os ingleses”, disse à Lusa Henrique Pereira, que vive há seis anos na Escócia com a família e é gestor de projeto numa multinacional norte-americana.

Estas eleições, que têm como tema principal a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), têm na Escócia uma outra questão fraturante, a exigência de um novo referendo sobre a independência da região.

Os portugueses contactados pela Lusa apontam a polarização que estas duas questões está a provocar na sociedade escocesa e temem o seu desenlace.

“A razão para vir para a Escócia foi porque estava com uma grande dificuldade em ver um futuro para os meus filhos em Portugal e, portanto, o meu objetivo principal era o bem estar deles, que eles pudessem ter um futuro melhor (…) num país progressista, um país que defenda a igualdade”, disse Henrique Pereira, que agora teme que, pelo contrário os filhos, estudantes universitários, acabem por viver num país “completamente dividido, mais pobre, menos capaz e com grandes dificuldades”.

Martine Teresa Horta, na Escócia desde 2013, já não pensa voltar a Portugal, depois de ter tido um segundo filho já na Escócia.

“Eu tenho dentro de mim um sentimento tão grande de ser escocesa que a única coisa que nós pedimos a todo o momento é que a Escócia fique independente porque já não aguentamos esta autêntica palhaçada”, disse, referindo-se ao impasse do ‘Brexit’ que foi aprovado num referendo em 2016, mas o Governo ainda não conseguiu implementar devido a sucessivos adiamentos no parlamento.

“Um país que teve o primeiro parlamento do mundo, a primeira grande democracia, isto é um circo, uma instabilidade enorme”, lamentou, comparando o processo de saída do Reino Unido da UE a “uma autêntica novela mexicana daquelas que duram anos”.

A trabalhar em hotelaria na Escócia desde 2014, Paulo Seara, de 38 anos, disse estar “mais cético em relação ao futuro” do que nas últimas legislativas, em 2017.

“Estou bastante cético. Não sei qual será o seu desfecho nestas eleições, se serão as eleições que vão decidir o futuro acordo entre o Reino Unido e a União Europeia em relação ao ‘Brexit’ ou se continuaremos no mesmo ramerrame”, admitiu.

Apesar de ter estado ativo na campanha sobre a independência da Escócia, em 2014, hoje não sabe se se envolveria num novo referendo.

Mostrando-se preocupado com o futuro, aconselha os portugueses no Reino Unido a regularizarem a sua situação, pedindo o estatuto de residente até 2020.

“Depois é aguardar. Não posso fazer futurologia. (…) Estou confiante de que para a comunidade portuguesa não haverá grandes problemas”.

Mais serena, Sandra Isabel Santos, que vive há cinco anos na Escócia com os seus quatro filhos, diz que não está preocupada com o futuro, porque se sente integrada numa sociedade que considera inclusiva e onde diz ter sido muito bem recebida, inclusivamente pela primeira ministra.

Nicola Sturgeon escreveu em abril uma carta aberta aos cidadãos da UE residentes no país a garantir-lhes que “a Escócia é a sua casa, são bem-vindos e valorizados”.

“Não tenho medo nenhum. Os meus filhos estão serenos. O meu mais velho é entendido em política e estuda para saber o que é que vai acontecer e ele está sereno”, disse Sandra Isabel, recordando que o Reino Unido não poderia expulsar os imigrantes, que são quem faz “os trabalhos mais pesados”.

A viver há quase 25 anos na Escócia, onde se casou com uma britânica e teve dois filhos, o professor universitário Luís Gomes teme não poder votar nas eleições nacionais, ao contrário do que acontece nas eleições regionais.

“Sinto-me invariavelmente fora da questão porque não me é permitido votar. (…) É muito triste porque [as eleições] afetam-me decisivamente. Todos os meus impostos são muito bem recebidos pelo tesouro do governo de Sua Majestade, mas na minha opinião não é e isso deixa me constrangido”, disse à Lusa o também docente do Instituto Camões na Universidade de Glasgow.

Apenas os cidadãos britânicos podem votar nas legislativas, e os restantes podem participar em campanhas eleitorais e candidatos, explicou, acrescentando: “É muito estranho porque nos sentimos alienados e, ao mesmo tempo, ficamos à espera de sentir as consequências daquilo que for decidido pelos outros. Portanto sinto-me à mercê das opiniões dos outros”.

De entre os cerca de 355 mil portugueses registados no Reino Unido, 4.453 estão registados na Escócia, segundo dados da secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.

De acordo com estatísticas do ministério do Interior britânico, o número de candidaturas de portugueses ao estatuto de residente no Reino Unido, obrigatório para depois do ‘Brexit’, era de 45.300 pessoas no final de setembro, quase o dobro das 24.300 candidaturas contabilizadas em agosto e quase quatro vezes mais do que a média dos dois meses anteriores.

Além disso, outros 4.592 portugueses naturalizaram-se britânicos desde o referendo de 23 de junho de 2016.

O estatuto de residente permanente (‘settled status’) é atribuído àqueles com cinco anos consecutivos a viver no Reino Unido, enquanto os que estão há menos de cinco anos no país terão um título provisório (‘pre-settled status’) até completarem o tempo necessário.

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