No Terreiro do Paço, numa praça turística, um postal, por excelência, da cidade de Lisboa, o Movimento “SalvarOturismo” decidiu fazer-se escutar.

Um movimento “espontâneo, criado nas redes sociais há 15 dias” que quis “dar um grito, depois de oito meses de agonia” vividos num setor “criador de riqueza, responsável por 14% do PIB e que contribui com 29 mil milhões para a economia nacional”, referiu, ao SAPO24, Tiago André, organizador desta ação concertada que se estendeu a Faro e ao Porto.

“Estava na altura de termos voz. Estamos cá todos. Temos ideias. E queremos diálogo, queremos ser ouvidos, que o turismo seja ouvido, num problema que é de todos”, adiantou o mentor deste grupo que conta com mais de 5 mil membros no Facebook.

“Não conseguimos trabalhar, nem temos condições para o fazer. Queremos uma visão estratégica com medidas concretas a que tenhamos acesso. As medidas apresentadas deixam metade de nós de fora”, justificou.

“Esta é a crise das nossas vidas. Não queremos moratórias ou impostos a prestações. Necessitamos de apoio a fundo perdido”, pediu o responsável pelo movimento, ele mesmo dono de uma agência de viagens em Cascais, um negócio “interno, para os portugueses viajarem” que sofreu “90% de perdas” desde o início da pandemia.

Ensaiando um grito de manifestação "se o turismo cai, cai Portugal", escutado nas quatro intervenções durante a hora de duração da manifestação e escrito em malas de viagem, Tiago André aproveitou o palco para se atirar ao executivo de António Costa. Como porta-voz do Movimento “SalvarOturismo” deixa um recado. “Controlou-se a pandemia, mas tudo o resto, a economia, foi deixado para trás”, lamenta. “Não queremos pagar pelos erros de governação de oito meses. Daqui a uns tempos não há nada para relançar. Ou agimos agora, ou a fatura final será incomportável. E quando os turistas quiserem regressar, não está cá ninguém para os receber”, rematou, justificando este “murro na mesa para evitar o colapso” das empresas do setor.

André, assim como o núcleo duro de “25 pessoas”, acalenta a esperança de serem recebidos no “ministério da Economia e por Marcelo Rebelo de Sousa”. Um desejo expresso instantes antes do início das cerimónias de intervenção numa praça vazia de turistas e pincelada com algumas dezenas de trabalhadores e donos de empresas ligados ao turismo.

Um par de tuk-tuks, um jeep, uma carrinha de transporte de passageiros e dois autocarros de “serviço ocasional” serviram de ilustração que contou com muitos participantes a empenharem cartazes e, em especial, folhas, com palavras de alerta e pedidos.

Silêncio, que se vai ouvir o fado

Numa manifestação turística, as primeiras palavras, ecoaram, através da música, do Fado. Cinco, ao todo. “É uma arte de receber e dar algo à cidade”, esclareceu Tiago André.

“Fado da Loucura”, “Que Deus me Perdoe, “Lisboa Menina e Moça” e “Uma Casa Portuguesa”, foi o alinhamento interpretado por Neuza Queiroz, com início às 15h00. Não é fadista. “Sou condutora de Tuk-Tuk’s”, esclareceu. A veia musical, já a tinha, mas noutros tons. “Durante a quarentena acelerou “o interesse neste género musical”, explicou.

Durante o ensaio dos acordes, recebeu elogios de um Polícia Municipal. “Frederico Brito compôs o Fado da Loucura, aliás foi o compositor de Amália e muitos fadistas”, anotou a força da autoridade. Discorreu sobre compositores e cantores. Neuza respondeu. “A Mariza foi a responsável por gostar de Fado”.

Pousou o microfone e falou com o SAPO24. Contou a sua história. Uma história igual a tantas as outras de quem vive do turismo. “Era assistente dentária, antes de começar a trabalhar com a ANCAT – Associação Nacional de Condutores de Animação Turística e Animadores Turísticos”, recuou. “Naveguei a onda”, assumiu. Olha para trás, para as decisões tomadas “já lá vão 4 anos e meio” e anuncia timidamente. “Comecei a enviar currículos para o que fazia antes”.

Para além do organizador, Tiago André, quatro intervenientes pediram a palavra. Em comum têm os pedidos fiscais, baixa do IVA, apelos de fundo perdido, acesso ao lay-off simplificado e elogios ao setor gerador de riqueza para o país.

créditos: JOSÉ COELHO/LUSA

“Pedi apoios e não consegui”

Perto do púlpito, Ricardo Santiago diz ser “um condutor privado”. Uma apresentação sumária e simplista. “Tinha clientes brasileiros e franceses”, apontou, ao lado do meio de transporte utilizado, uma VAN de oito lugares. Com ela viaja por Portugal inteiro. “Faço private tours. Pode variar, uns dias em Lisboa, outros no norte, Porto e Aveiro”, indicou.

Chegava a estar “15 dias com os clientes”. Desde fevereiro, a dura realidade é outra. “Conhecei a receber cancelamentos a 13 de fevereiro. A 13 de fevereiro”, repetiu. “Pensei que poderia ser dois meses. Em maio comecei a ficar assustado”, recordou.

Sente-se sozinho. Entregue a si mesmo e ao seu negócio. “Pedi apoios e não consegui. Não tenho apoios da Segurança Social, nem da banca”, admitiu. “As moratórias são burocráticas”, acrescentou. “Tenho um serviço Premium. Obriga a investimento e não se recupera tão facilmente. São 140 mil euros empatados, em dois carros e três Tuk tuks”, adiantou o empresário da Funny Tours Lisboa.

Tem uma carteira de clientes em Lisboa. “Apresentei um serviço de estafeta personalizado. É tentar faturar, que não cobre custos. A ideia é sobreviver e não criar dívida”, atirou Ricardo Santiago. “Continuo a pagar seguros, impostos e garagens”, frisou. “O melhor remédio seria desistir, mas não quero baixar a guarda e atirar para o ar seis anos trabalho”, sublinhou. “Tenho um certificado da TripAdvisor que diz que sou um dos 30 melhores do mundo”, finalizou.

A situação de Pedro Oliveira é diferente. Para pior. A “Extremo Ambiente”, empresa de animação turística, ópera em Lisboa, Sintra e Algarve. Foi “PME Excelência”, diz, com orgulho. Com duas “vertentes de negócio”, o “individual e o empresarial”, duas “áreas que se completam”, consegue, ao longo do ano, trabalhar em “contraciclo”, explica, entre épocas altas e baixas.

“Trabalhamos com eventos a três anos de distância”, referiu. “Fazia os cruzeiros todos”, anotou o dono de uma empresa que “trabalha 95% com o mercado internacional”.

Agora, o filme é outro. Por causa dessa exposição exterior. Os “60 carros estão parados e tive que despedir pessoal. Tenho uma quebra de fraturação na ordem dos 95%. Devia estar a faturar um milhão e estou a zero”, deixou escapar. Uma situação que o obriga “a vender património”, desabafou.

Em menos de uma hora, o turismo fez-se ouvir na principal praça de Lisboa e uma das principais atrações turísticas da cidade. Às 16h14 finalizaram as intervenções. Um grito que começou ao som de fado e terminou com a voz de Quim Barreiros a dar o toque de saída.

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