Recomeça o jogo. O futebol, unânime religião portuguesa, regressa aos estádios — cujas bancadas, vazias, lembram que não estamos perto sequer da normalidade de outros dias.

87 dias após a suspensão, a I Liga recomeçou às 19:02, no Algarve. Faltam dez jornadas para o final.

No Portimão Estádio, só há os gritos dos jogadores, os pontapés na bola, a ecoar secos no seu vazio. E o golaço de Lucas Fernandes, aos 49’, que arrancou os contadores desta coisa nova que é o futebol em tempo de pandemia.

Suspensa desde 8 de março, a I Liga portuguesa foi hoje retomada, seguindo um exigente protocolo sanitário, com imagens inéditas no futebol português: treinadores (e suplentes) de máscara, ausência de cumprimentos entre os jogadores — e alguma hesitação nos protagonistas, confrontados com um cenário cinematográfico — e um minuto de silêncio, cumprido em rigoroso distanciamento, num círculo no centro do relvado, em memória das vítimas da covid-19.

Desse já distante dia 8 de março, os adeptos do futebol, que agora ficam fora dos estádios e dos cafés, recordarão um domingo cheio: cinco jogos, entre os quais a vitória caseira do Sporting CP na receção ao Desportivo das Aves, último classificado, por 2-0, na estreia de Rúben Amorim,

Mas foi o triunfo do Vitória de Guimarães em Paços de Ferreira, por 2-1, o derradeiro encontro antes da interrupção devido à pandemia de covid-19, tendo o médio português João Carlos Teixeira sido o último jogador a marcar um golo, aos 66 minutos desse encontro, naquele que foi o seu segundo no jogo.

Dois dias depois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decidiu que os jogos da 25.ª jornada, prevista entre 13 e 15 de março, seriam disputados à porta fechada.

Nessa altura, Portugal registava 41 casos de infeção.

No entanto, em 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a doença provocada pelo novo coronavírus como pandemia e, logo no dia seguinte, a competição foi suspensa por tempo indeterminado, quando Portugal contava 78 infetados e nenhuma vítima mortal.

O desporto parou e cumpriu quarentena. Os jogadores, remetidos às suas casas, realizaram treinos limitados à manutenção da condição física, sempre na perspetiva de concluir a temporada, algo que pareceu ficar mais viável quando o primeiro-ministro, António Costa, se reuniu com os presidentes de FPF, Liga, SL Benfica, FC Porto e Sporting CP, a 28 de abril.

Nesse mesmo dia, António Costa condicionou o regresso do futebol aos fundamentos técnicos de saúde e, dois dias depois, deu “luz verde” à conclusão do campeonato e à disputa da Taça de Portugal, mediante a aprovação de um plano sanitário da Direção-Geral da Saúde (DGS).

O Governo decidiu permitir a retoma da I Liga no fim de semana de 30 e 31 de maio, mas a Liga de clubes apontou o regresso para 4 de junho. Acabaria, contudo por antecipar a data do arranque, depois de aprovados 16 dos 18 recintos dos clubes da competição e da Cidade do Futebol — casa emprestada só para Belenenses SAD e Santa Clara.

Os 90 últimos minutos da I Liga, entre os quais os ‘quentes’ FC Porto-Sporting, a 15 de julho, e Benfica-Sporting, na última jornada, vão ser disputados numa ‘maratona’ praticamente diária até 26 de julho.

Após esse dia vai ser disputada a final da Taça de Portugal, igualmente à porta fechada, em local e data a ainda designar.

Esta cronologia, com a ajuda da Lusa, desenha-nos os tempos agitados: quer aqueles por que estamos a passar, quer os que o futebol vive e viverá nos próximas semanas.

O futebol é mais do que o “jogo jogado”. O futebol não são só vinte e dois homens a correr dum lado para o outro atrás duma bola. São os amigos no café, aos gritos uns com os outros, agarrados ao coração e a ver se os homenzinhos lá na relva atiram com o esférico para a rede certa.

É o estremecimento das claques quando um avançado chuta a bola por cima da trave. É o desalento. É o terror. O horror. A depressão… quando um defesa manco estraga a jogada tecnicamente avançada que a melhor equipa do campeonato, liderada pelo melhor treinador do planeta — e eventualmente de Portugal —, começou a desenhar ainda quando os peritos jogadores estavam descamisados no balneário.

Agora, nada disso. O colombiano Jackson Martínez, da equipa da casa, re-inaugurou o campeonato, com o primeiro toque no primeiro jogo da retoma, já na 25.ª jornada.

Não é espetáculo, meramente um procedimento: a execução dum calendário; o cumprimento das tarefas previstas para a obtenção de um certificado de valor — o título.

Na televisão, regressaram já os debates, os encontros de homens crescidos aos gritos uns com os outros. Hão de ser o que de mais próximo de uma casa do clube de futebol de não sei quê, arrumada nas caves de um prédio na vila de não sei onde.

A Primeira Liga de procedimento profissional regressou. Há 22 homens na relva, uns quantos a ver à volta. Há jornalistas de máscara a escrever. E há os adeptos, arrumados do lado de fora, ainda à espera de que regresse também o futebol.

E até eu, que o menos que me interesso é por bola, vejo nisto uma qualquer falha técnica.

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