“Lamento, por isso, que apresente a demissão do Conselho [Municipal de Cultura]. Vai-nos fazer falta. Tenho pena que não me tenha escrito, ou telefonado, e pedido que agendasse um conselho para tratar deste ou daquele assunto. A Regina foi sempre muito interventiva nas sessões em que participou e sabe bem que nunca, por um momento que fosse, lhe limitei a liberdade. Nunca a censurei, nunca a condicionei!, diz o autarca na missiva.

“Compreenderá que não me sinta, eu próprio, condicionado por uma narrativa que, desculpe, pode ter utilidade política mas não corresponde à realidade”, acrescenta o independente Rui Moreira, numa carta endereçada a Regina Guimarães e a que a Lusa teve acesso.

A escritora demitiu-se do Conselho Municipal de Cultura da Câmara do Porto, decisão que comunicou por carta ao presidente da autarquia e que tem a ver com uma “dessemelhança de conceções”, indicou hoje a própria à Lusa.

“A decisão tem a ver com os acontecimentos recentes, com a questão da censura, com o facto de que o próprio conselho parece não ter julgado prioritário reunir-se por uma coisa destas. Não estou lá a fazer nada porque o que a mim parece essencial, não parece essencial ao Conselho. Há aqui uma dessemelhança de conceções do mundo”, referiu, em declarações à agência Lusa, Regina Guimarães.

No dia 03 de fevereiro, Regina Guimarães acusou a direção do Teatro Municipal do Porto (TMP) de ter censurado um texto da sua autoria no qual criticava a noção de cidade líquida de Paulo Cunha e Silva, ex-vereador que morreu em 2015.

O texto foi escrito para integrar a folha de sala - que não chegou a existir - do espetáculo TURISMO, da Companhia A Turma, com texto original e encenação de Tiago Correia que subiu ao palco nos dias 31 de janeiro e 01 de fevereiro no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

Posteriormente, a 10 de fevereiro, o presidente da câmara reiterou a sua total confiança no diretor do TMP, que tinha sido acusado de censurar o texto de Regina Guimarães, sublinhando que sempre entendeu que o texto devia ter sido publicado.

O voto de confiança de Rui Moreira, que acumula o pelouro da Cultura desde que Paulo Cunha e Silva morreu em 2015, foi anunciado no início de uma reunião de executivo municipal, depois de um encontro informal e privado onde foi ouvido o diretor do TMP, Tiago Guedes.

Na missiva, Rui Moreira lembrou que, quando a convidou, nunca lhe pediu que avalizasse fosse o que fosse, tendo-a convidado a título individual pelo reconhecimento de que tem uma opinião, um passado, uma experiência e uma visão crítica que é útil à cidade.

“Nunca calei ninguém”, garantiu.

Rui Moreira assumiu que o seu texto deveria ter sido publicado na folha de sala, conclusão unânime do executivo municipal, contudo recordou que o teatro foi devolvido à cidade e não deixará que, por este episódio, seja capturado.

“Sim: o seu texto não deixaria de recolher as críticas que, aliás recolheu, mas isso é o preço da liberdade. Da sua liberdade de se expor. Essa é uma matéria da sua consciência”, frisou.

A escolha dos conteúdos é uma competência exclusiva dos diretores artísticos, sublinhou, acrescentando que não é do presidente da câmara, nem da Regina, nem aleatória.

“Recordo-lhe, a terminar, o seguinte: a expressão artística, a do teatro em particular, é política. Isso não pode significar que seja apropriada pela política ou pelo sectarismo. Isso não. O teatro é sempre político mas não é da política. À política, pelo menos aquela que eu defendo e em que acredito e milito, compete garantir o equilíbrio sempre ténue entre a liberdade individual e coletiva e a integridade e a coerência da criação artística”, concluiu.

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