João Alves, 64 anos, foi um dos reclusos libertados, ao abrigo das normas excecionais e de perdão de penas aplicadas à população prisional devido à pandemia da Covid-19.

Mal colocou um pé fora do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), deu dois passos, pousou um saco de plástico com a roupa amarrotada e levantou os braços. Em sinal de vitória e de alívio. Atravessou a estrada e dirigiu-se aos jornalistas que estavam, na tarde de ontem, do outro lado da rua, de plantão.

Cumpria uma pena de 66 dias. “Entrei a 12 de março. Disseram-me à hora do almoço, dia 12 [de abril], que iria sair hoje [ontem, 13 de abril]”, disse ao SAPO24. Mostra a prova que ainda não tinha lido. “Seja colocado imediatamente em liberdade”, lê, com as mãos trémulas, a carta da liberdade. Parou nesse ponto final. “Está aqui tudo, assinado por eles. Vou ler, ainda não tive tempo”, promete.

Foi multado por condução sob o efeito de álcool. “Tive um acidente, em 2015, em Viana do Castelo”, onde morava, nesse ano, na “casa de um amigo”. Veio para Lisboa, onde mora, ficou sem carta “durante 10 meses”, o processo arrastou-se, “não paguei a multa de 500 euros, não me apresentei em Tribunal e fui condenado por ausência”, explica João Alves.

Pormenoriza a detenção. “Fui à polícia nas Olaias [Lisboa] à procura, fui ao Campo da Justiça, ao IMT onde me disseram que tinha a carta caducada. Voltei às Olaias e já lá estava o mandato de captura. E ouvi: “o senhor está detido”, recorda, sem explicar o motivo que o levou a procurar a carta. “A carta é minha. Queria a carta. Eu, que até já não tenho carro, queria a carta, pois se é minha...”, repete.

O EPL foi a primeira prisão que conheceu e a única detenção. “Nunca tive problemas com ninguém, nem com a polícia”, atira. “Ao fim da vida, faço 65 anos em junho, é que vim conhecer uma coisa destas, eh pá...”, encolhe os ombros. “Nunca tinha estado numa prisão. Nem de visita”, garante. “Foi necessário entrar a primeira vez para ficar lá dentro”, lamenta.

Esteve colocado numa cela individual. “Há alas em que estão dois reclusos numa cela”, desvenda.

“Que experiência levo daqui? Nenhuma. Só tenho pena de conhecer isto”, assume. “Arranjamos amigos e inimigos. Amanhã, ou depois, se vir algum recluso, nem os conheço, se calhar. Mas há gente boa, estão a pagar pelo erro que cometeram”, admite. “A ver se não caio no mesmo erro”, antecipa.

“Continuamos a nossa vida e tenta-se esquecer este mau bocado que passei”

No mesmo passeio onde falávamos com João Alves, há gente à espera de ver os seus a saírem em liberdade. “Se tiveres namorada, vai namorar”, grita uma senhora de meia-idade, tendo como destinatário João Alves. “Agora vem a vingança”, ri o ex-recluso. “Tens o nome do meu irmão, só podes ser boa pessoa”, devolve quem está à espera de ver o familiar sair.

João não tinha ninguém à sua espera. “Não sou casado e a minha filha está no Luxemburgo”, diz, em tom de lamento.

Não sabe o que o espera daqui para a frente. “Acho que tenho dois anos de pena suspensa, ainda tenho que ler os papéis”, remata. “Sei que vamos ter que ficar em casa por causa do Estado de Emergência. Saio de uma prisão e vou meter-me noutra”, sorri.

“Vou a pé até casa, que é na Penha de França”, indica. “Vou respirar ar puro que lá dentro é muito pesado. Continuamos a nossa vida e tenta-se esquecer este mau bocado que passei”, frisa.

Despede-se com um sorriso nos lábios. “Ali não se vê nada. O sol quando nasce é para todos, aqui nem aos quadrados”, remata.

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