E ele ali está. Caído no meio de uma planície, encaixado entre umas quantas de árvores. O amarelo brilha ao sol. E na pedra bate a luz. Inerte, no alto de Mafra, o palácio tem na frente um longo deserto higienizado. Pequenos ladrilhos de pedra escura, donde à noite se acendem luzinhas coloridas e de espantoso brilho, gritando aos céus noturnos que a glória do rei D. João V, mas também a do autarca que ali as pôs, continua viva.

O colossal Palácio Nacional de Mafra é desde o século XVIII o maior símbolo de Mafra — seja pela importância, seja simplesmente pela dimensão. Mas desde 1982 ganhou toda uma nova aparência e um novo lugar na história do povo que vai vivendo num dos cantos da Península — o lugar da literatura.

José Saramago, nascido no Ribatejo, vai escolher o Palácio Nacional de Mafra (ou a sua construção) como fio condutor de um dos seus mais importantes livros: ‘Memorial do Convento’. É o anal de um monumento, mas também crónica de um país, moderno e velho.

É o próprio José Saramago quem resume, na contracapa de ‘Memorial do Convento’, aquilo que se passa nas páginas de um dos mais emblemáticos livros do único Nobel português da Literatura. É o excerto com que abrimos esta história que vimos contando:

“Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.”

E melhor sumário não há, não fosse esta a história de um rei que mandou fazer um palácio; de um povo que o fez; de um soldado a quem faltava uma mão; de uma mulher que via além da vista; e de um padre com sonhos de levantar voo, que morreu em Toledo, afetado do juízo.

Saramago chama para si a tarefa de “[usar] a ficção para corrigir a história”, como diz numa entrevista ao catalão ‘Vanguardia’, em 1986, indo “contra a visão oficial da história, que é o discurso do poder”, explica o escritor. “O conflito entre a utilização que o poder faz do trabalho, esses cinquenta mil homens que levantaram o monumento vigiados por milhares de soldados e a capacidade de progresso da vontade humana, edificada com a ascensão do aeróstato do padre Bartolomeu”, acrescenta a publicação.

‘Memorial’ acaba, assim, por ser uma ode ao trabalho humano — o que o liga à génese do comunista escritor, ou escritor comunista.

Sobre isso, numa entrevista de Baptista Bastos, para o ‘Correio do Minho’, Saramago esclarece: “É ser escritor não esquecendo que se é comunista, é ser comunista não esquecendo que se é escritor. É ser escritor e comunista, não precisando de estar a pensar que se é comunista e escritor”.

Ficções e realidades

O livro nasceu em seis meses. “Quando me sento à mesa para redigir um livro, ele já vai escrito”, dizia Saramago em 1982 na entrevista de Baptista Bastos. E mostra uma simbiótica relação entre real e imaginado; reconstituição e recriação. O rigor é notório.

Blimunda encontra ecos numa personagem da vizinha Sintra, Pedagache, sedutora mulher que via para além da vista, alcançando com os olhos de mágica as águas e os poços, os nascituros e os males dos corpos.

Além das lendas, o escritor funda o texto também nas crónicas daquele tempo, documentos reais e ainda hoje conservados, como nos explicam os serviços educativos do Palácio Nacional de Mafra, que indicam os livros de onde saltam episódios e descrições reaproveitadas para Saramago contar, em jeito de relato presente, a visão popular do monólito que se ergue de pedra no Alto da Vela, em Mafra.

Ao detalhe da reconstituição, junta-se a subversão da língua dos anos 1980, indo Saramago buscar referências próprias de 1700. “Não procurei nem o pastiche, nem o mimetismo, senão uma constante histórica da língua que sirva para que um livro responda ao mundo do século XVIII e ao mesmo tempo possa chegar ao leitor do século XX”, explicava o escritor ao ‘Vanguardia’.

O 25 de Abril a chegar à literatura

Para o escritor Miguel Real, este livro é “um romance auroral, é o princípio da grande obra [de Saramago]”. “Ele já tinha livros de crónicas, já tinha dois romances, 'A Terra do Pecado' e o 'Manual de Pintura e Caligrafia'. Tinha um terceiro, o 'Claraboia', que não chegou a ser editado. Portanto, podia-se dizer que, até 1980, até ao 'Levantado do Chão', que antecede o 'Memorial do Convento', era de certo modo um jornalista bastante conhecido, mas um escritor frustrado, porque os trabalhos dele enquanto romance não tinham tido qualquer êxito”, explica.

Miguel Real, que esteve por trás da adaptação do livro ao teatro, diz mesmo que a partir de ‘Memorial’, “começa uma nova vida [de Saramago], tanto nacional, quanto internacional”.

“E tem este sucesso porque, entre várias coisas, nunca se tinha escrito um romance assim: era popular e era erudito — tem uma linguagem extremamente erudita do século XVIII, mas, simultaneamente, utiliza provérbios populares, expressões populares, diálogos de caráter popular”, diz ao SAPO24.

“Por outro lado”, acrescenta, “é um romance profundamente otimista. Nós tínhamos acabado uma revolução, estávamos a entrar na Comunidade Europeia [atual União Europeia], já havia negociações desde 1980, e Portugal precisava, do ponto de vista literário, de uma espécie de impulso: impulso — o Lobo Antunes tinha escrito dois livros sobre a Guerra Colonial, lá estávamos nós a penar as culpas de termos erros no nosso passado.”

"O 25 de Abril ainda não tinha chegado à literatura"

“[Saramago] utiliza uma linguagem que subverte a sintaxe e a sinalética gramaticais normais. Acho que esta transgressão chocou muita gente, porque o 25 de Abril ainda não tinha chegado à literatura e é com 'Memorial do Convento' que de facto o 25 de Abril chega”, diz o escritor.

Saramago subverte no ‘Memorial’ toda “a gramática clássica no modo de narrar uma história, como se o narrador fosse um inconsciente coletivo ou um sentido da história, ou um sentido da consciência individual, que vai olhando todas as perspetivas e vai narrando todas as perspetivas: D. João V, D. Maria Ana de Áustria, Bartolomeu, Blimunda, Scarlatti, Sebastiana de Jesus, que é a mãe de Blimunda... Todos co-participam. É aquilo a que hoje chamamos — não sei se se aplica bem — um romance polifónico: com muitas entradas, muitas vozes, diferentes sons, diferentes estilos, tudo unido numa grande amálgama que é o 'Memorial do Convento’”.

"Se Blimunda é mais do que uma mulher, Baltasar é menos do que um homem"

A isto, alia “uma galeria de personagens maravilhosa”, a começar logo pelo casal do povo, cuja relação contrasta com a do casal real, já que o rei dorme numa ponta do palácio e a rainha no extremo oposto.

"Se Blimunda é mais do que uma mulher, Baltasar é menos do que um homem: não tem a mão esquerda. Isso dá-lhe uma singularidade; é a procura da singularidade, não só mentalmente, ou psicologicamente, mas também fisicamente. São diferentes de todas as mulheres e de todos os homens. Ele, por ter um gancho em vez da mão; ela, por ver no interior, quando não muda o quarto da lua e antes de comer pão”, conta Miguel Real.

E depois, critica também o próprio palácio: “[Saramago] vai mostrar que aquele convento ao fim ao cabo foi feito pela população. Era uma teoria de Brecht: quando disserem quem fez este palácio, dizem que foi o rei tal. Eu digo que foi o povo daquela zona”.

O ‘Memorial’ faz, então, uma “crítica ao poder e à vaidade”, como escreve a ‘Folha de São Paulo, em novembro de 1995. Foi isso, aliás, que levou o escritor a escolher a obra deste palácio mafrense: “atraiu-me na história do convento de Mafra o esforço e o sacrifício dos milhares de homens que trabalharam na construção de monumentos à vaidade de um rei e ao poder da Igreja”, atira.

Por isso, não será estranho que destaque como mais importante o episódio do transporte da “mãe de pedra”, um pedaço enorme de rocha que é deslocado por inteiro de Pêro Pinheiro, no extremo norte de Sintra, para vir a ser a varanda da fachada principal da basílica.

A jornalista Clara Rocha, no ‘Diário de Notícias’, a 9 de novembro de 1983, vai mesmo dizer que este é “o palácio do Rei Pavão”.

O lugar universal

Mafra, que se estende do subúrbio às areias da Ericeira, é já mais do que Mafra. Nas curtas ruas ou nas largas alamedas, um entoar de línguas e sotaques vai marulhando, fazendo do pequeno lugar setecentista um epicentro.

Há algures no centro do palácio o ponto principal desse Quinto Império que há de vir e erguer o país e o mundo. Essa superstição e anseio de alquimia é, aliás, outra característica explorada nas pedras do convento, nomeadamente por Fernando Pessoa.

Mística à parte, Saramago congrega na construção de um edifício, a história da humanidade. Humanidade que é feita não pelos líderes, mas pelas mãos dos povos, dos pequenos e anónimos — que deixam de o ser neste livro, já que Saramago os nomeia, letra a letra.

Poderá ser de que nada disto valha para considerar o ‘Memorial do Convento’ como obra maior da literatura portuguesa. As opiniões hão obviamente de divergir (pois é isso essência da opinião). Inegáveis serão, porém, as evidências: e elas são a tradição narrativa, a disrupção da escrita, a beleza cénica, a originalidade do diálogo. E também a viagem ao passado, plena de elementos, ilustrações, que transportam o leitor para os sons, cheiros até.

E para os lugares. Alguns deles deixados por nós neste breve mapa, sintetizados em curtos excertos, lidos por Francisco Sena Santos.

Importa lembrar que durante décadas este livro fez parte do cenário da adolescência de vários jovens portugueses. O impacto da história em cada um deles terá sido distinto. Uns hão de se ter visto Baltasar, amando as suas Blimundas; outros há de ter havido que se viram inventores de aeronaves; uns tantos hão de ter ganho visões do invisível. A outros ainda nada disto terá dito alguma coisa.

O memorial de tudo

“Quando terminei o ‘Memorial’”, diz Saramago a Baptista Bastos, “ o que pensei é que este era o meu melhor livro, que com ele se alargara o meu campo de trabalho e talvez (repito, talvez) o próprio campo da literatura que fazemos hoje em Portugal. Que deslocara as estremas um simples palmo, uma mão travessa, a largura de um dedo. Se realmente fiz isto que penso, estou, aos meus olhos, justificado como escritor. Mas, como em todas as coisas, a palavra definitiva (se tal existe) di-la-á o futuro”.

E disto fez Nobel. Deste acreditar, deste fazer original, que vai ao fundo das histórias que lhe contava o avô, nas noites estreladas, nos descobertos da vida, para trazer aos sacros livros os pés sujos do povo.

"É daqueles livros que só se escrevem uma vez"

Nos dias após a morte, em junho de 2010, Eduardo Lourenço chegou-se a Pilar Del Rio, com um exemplar do ‘Memorial do Convento’ num saco e pediu-lhe que o pusesse junto do corpo do escritor. “Neste livro está tudo”, disse na altura o ensaísta.

Ao SAPO24, explica o tudo: “está lá toda a mitologia cultural e toda a estética de Saramago. É daqueles livros que só se escrevem uma vez. Pensei que era um acontecimento que ultrapassava a pessoa, até José Saramago”.

A companheira de Saramago assentiu e pô-lo junto ao esquife durante todo o velório. Nos últimos instantes em que o caixão esteve aberto, pegou no livro e pô-lo dentro do casaco do escritor — que foi cremado, como as páginas do ‘Memorial do Convento’. Ali estava tudo, e do tudo que foi Saramago e do tudo que é esta sua obra, se fez uma substância apenas.

Junto da oliveira no Campo das Cebolas, em Lisboa, onde foram depositadas as cinzas, o epitáfio que lá está é a última frase do ‘Memorial do Convento’ — exceto a posse de Blimunda, pois se dela Baltasar é, só dela Saramago não pode ser. Pois esse, esse é nosso.


Veja aqui o trabalho especial que o SAPO24 preparou para assinalar os 20 anos do Nobel

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