Ao terceiro dia, entre o Carregado e Vila Nova da Rainha encontrámos a primeira multidão peregrina. Que ninguém se ofenda, mas há ali qualquer coisa vagamente familiar com as avenidas de gente que caminham em direção a um festival de Verão. Os coletes são as pulseiras nos pulsos e as t-shirts ou lenços identificam a devoção. E todos sabem para onde vão. “Vemo-nos lá”.

No meio desse mesmo caminho cheio de caminhantes cruzamo-nos com um padre vestido a rigor, chapéu preto, fita verde. Lembra de forma também vagamente familiar o Zorro. Está parado na estrada, interpela, é interpelado. “É o padre jesuíta”, diz-nos alguém. Traz sempre muita gente com ele. Quanta gente? A resposta vem depois pela voz do Padre Carlos. Umas 170 pessoas. Nós somos 38 e a logística não é nada fácil, acreditem. Mas o que é que difere um padre jesuíta de outro padre quando se trata de Fátima. “Cada congregação tem o seu carisma que está ligado ao seu fundador”, ajuda-nos o Padre Carlos. Os jesuítas, por exemplo, o carisma é glória a Deus, enquanto nós, que estamos ligados a Santa Margarida, somos pela reparação do coração de Jesus.

Os pés são muito importantes numa peregrinação. Talvez a mais importante, a seguir à alma claro. Muito se passa à volta deles, das conversas aos cuidados e até aos cânticos escolhidos nas missas diárias.

Como são belos os pés que anunciam a paz

E as mãos que repartem o pão na refeição do Cordeiro

Da palavra, vinho e pão

Somos o Povo de Deus em comunhão

“Quantos quilómetros faltam?”. “O que é que te dói?”

Estamos obcecados com estas duas perguntas. Durante o caminho, durante a dor, não nos saem da cabeça. Depois a dor passa e só nos lembramos do caminho. Há um orgulho interior em continuar. Há uma admiração exterior que nos faz andar mais. Mas é por isso que andam? Não me parece. Mas o que seria do importante se não fosse o acessório. Aqui o milagre da biologia alia-se à força de um propósito. Há que caminhar para crer como São Tomé.

E depois há o cuidado. As pessoas cuidam umas das outras e ainda vêm outras pessoas para cuidar delas. Ninguém esquece que a companheira da manhã fez uma bolha mesmo por baixo da unha do dedo mais pequeno do pé. Ou que o caminhante da tarde não consegue já pousar o calcanhar. Perguntam-se pelas pequenas ou grandes mazelas genuinamente interessados, genuinamente solidários. A tua mazela de hoje pode também ser a minha de amanhã. A solidariedade pode ser também egoísta, mas não faz mal.

Há outros que esperam por nós pelo caminho que também cuidam. Trazem água, sempre água. Trazem fruta, sempre fruta. Trazem também amendoins, amêndoas, rebuçados. “O açúcar faz bem, sabes? Tens de comer açúcar?”. Não sabia antes de aqui estar, mas agora sei. Além do que nos dizem, o corpo também nos diz quando nos agradece cada quadrado de chocolate ou rebuçado bola de neve. O corpo gasta, o corpo pede. E depois há a senhora da caixa de chocolates que, no meio de uma peregrinação, inevitavelmente nos faz pensar na filosofia de Forrest Gump. A vida é como uma caixa de chocolates, certo? Esta é mesmo uma caixa cheia de chocolates que desaparecem um a um à medida que vai rodando pelo grupo de peregrinos quando se espraiam em qualquer pausa do caminho.

Qual é o dia mais difícil? A doutrina divide-se

É o primeiro e o segundo, afiança um dos organizadores do grupo, talvez o mais experiente e preparado de todos. Porque ao terceiro, o teu corpo já está habituado, percebes.

O mais complicado é o terceiro, diz-nos outra companheira de jornada, também ela já com alguns carimbos no passaporte de peregrina. É que ao terceiro acumula-se tudo, os músculos, as bolhas, o cansaço, percebes.

Difícil mesmo é o último, quando chegamos a Fátima conta-nos uma amiga de Santarém, experiente nestas andanças. Só vês reta, reta, reta, estás sempre à espera de quando chegas e parece que Fátima é sempre depois, percebes.

Percebo, percebo.

“Se eu caminho, Deus faz o resto”, lembra o padre Carlos na missa em Vila Nova da Rainha. Há quem afiance que a caminhada se torna fácil como que por magia quando se chega a Fátima. “Eu quando lá cheguei a primeira vez, e custou-me tanto o caminho, estava pronta para voltar para Lisboa a pé se fosse preciso”, conta-nos outra das veteranas.

Não há é como negar que a caminhada tem duas grandes medidas: quantos quilómetros e quantas bolhas nos pés. Isso materializa a dificuldade do dia a dia em números. Se quisermos materializar espiritualmente talvez pudéssemos medir em número de Avé Maria rezadas pelo caminho. Afinal, é uma peregrinação mariana e esse é o compasso do corpo e da alma ao longo do caminho. Dói-me as pernas. Avé Maria. Estou cansado/cansada. Avé Maria. Não aguento mais. Avé Maria.

Não há duas peregrinações iguais

Ai de quem me diga isso. A minha é a mais bonita e fico zangada com quem não diz o mesmo da sua, diz-nos uma peregrina experiente de um grupo que, como o nosso, pernoitou a segunda noite na Azambuja.

Mas toda a igreja cabe numa só peregrinação. E se não há duas peregrinações iguais, há tantas igrejas quantas possam caber em todas as peregrinações. Há a igreja do amor. Há a igreja da compaixão. Da caridade. Da inquisição. Do pecado. E da salvação. Uns dias de peregrinação mostram-nos de forma clara o que significa esse senso comum que de são os homens que fazem a igreja. Os bons homens e as boas mulheres fazem a boa igreja. O inverso também é verdade. Talvez seja legítimo ambicionar uma igreja que nada tem a ver com os homens, que é maior que eles, que não é afetada por quem eles são. Mais uma vez, uns dias de peregrinação mostram-nos de forma clara o que significa esse senso comum que de são os homens que fazem a igreja.

São os homens e as mulheres que fazem a igreja, mas alguns têm um papel mais decisivo. Os padres, os líderes espirituais, os organizadores. A manhã do terceiro dia, rumo a Santarém, começou com um encontro casual com um padre que não tem grande simpatia por promessas. Os “momentos mágicos” como lhes chama. Aqueles dias ou dia em que se resolve tudo o que não se fez durante um ano inteiro. Não é assim para todos, ele sabe. Há promessas e promessas. Mas mais importante é o que somos todos os dias. Mais tarde, já em Santarém, ouviríamos algo semelhante do padre Carlos. “Se tiverem de escolher entre ir à missa e as aparições, vão à missa”.

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