Um rito litúrgico próprio para a Amazónia, que permita acolher a “experiência viva da fé com sinais e símbolos próprios; a ordenação de homens casados, que sejam “pessoas maduras, respeitadas e reconhecidas, de preferência indígenas”; e a abertura do diaconato às mulheres, “incentivando e favorecendo a participação [feminina] na liderança eclesial que não requer o sacramento da ordem”. Estas são três das propostas saídas de vários dos grupos de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, e que esta semana estão a ser debatidas pelos quase 200 participantes, para a elaboração do documento conclusivo que será entregue ao Papa.

Na segunda semana de trabalhos, os bispos e restantes participantes dividiram-se em doze grupos de base linguística: dois italianos, quatro portugueses, cinco espanhóis e um franco-inglês. No fim da semana, os diversos relatórios recolheram as diferentes propostas.

Seis deles falam da possibilidade de “valorizar os símbolos e gestos das culturas locais numa liturgia mais inculturada e que pode ir mesmo ao ponto de ter um rito próprio.

Quase todos apontam, entretanto, a possibilidade de ordenar homens casados – em alguns casos, apontam-se critérios mais ou menos apertados, outros enuncia-se apenas o objetivo. Há grupos que manifestam, no entanto, dúvidas em relação a este processo: a proposta, a ser alargada a todos os continentes, avisa um dos grupos italianos, pode “reduzir o valor do celibato” e, tendo em conta que diz respeito a toda a Igreja, o tema deveria ser debatido num Sínodo universal convocado para debater apenas esse assunto.

O outro grupo italiano vai mais longe ao falar de “perplexidades com respeito à falta de reflexão sobre as causas que levaram à proposta de superar de alguma forma o celibato sacerdotal tal como foi expresso pelo Concílio Vaticano II” (1962-65). Mas ao contrário, um dos grupos portugueses concluir ser “necessária para a Pan-Amazónia a ordenação dos homens casados”. E no grupo francês-inglês sugere-se: “A palavra ‘sacerdote’ tem muitos significados. O que oferece sacrifício não tem de ser o chefe da comunidade. Não precisa de ser o pároco. A história e a teologia uniram demasiadas coisas: ensinar, santificar, governar. Devemos aceitar que as diferentes situações requerem diferentes iniciativas.”

“É bom e útil para a Igreja” um ministério feminino

A participação das mulheres nas estruturas eclesiásticas – incluindo nos lugares de decisão – também é objeto de várias sugestões dos grupos e não deixará de estar presente nos debates destes últimos dias e no documento final que entretanto começou a ser preparado, para ser votado e entregue ao Papa. Nada menos de nove grupos colocam de forma clara o problema. Também aqui, alguns fazem-no de forma mais incisiva, outros falam de uma hipótese a estudar. Mas todos eles colocam a questão em termos do acesso ao ministério ordenado, mesmo se no grau “inferior” do diaconato.

O serviço da diaconia permite celebrar vários sacramentos, com exceção da eucaristia e da reconciliação (confissão), reservados aos padres. Nas comunidades cristãs primitivas, muitas mulheres foram diáconos, como se pode verificar nos estudos publicados no livro Mulheres Diáconos – Passado, Presente, Futuro.

O mesmo argumento que levou à restauração do diaconato para os homens – “é bom e útil para a Igreja” – deve ser “válido para criar o diaconato para as mulheres na Igreja na Amazónia”, diz um dos grupos de língua portuguesa. Vários dos grupos que falam do tema dizem que isso deve incluir ou dar preferência às mulheres indígenas.

A este propósito, um dos grupos de língua castelhana vai mais longe e, dizendo ser “necessário um reconhecimento da mulher na Igreja através” do ministério, deixa uma proposta que também tem sido feita por muitos grupos de católicas e católicos: “Que se realize um Sínodo dedicado à identidade e serviço da mulher na Igreja, no qual as mulheres tenham voz e voto.” Outros dois grupos dizem ser necessário amadurecer o tema, mas que ele deve ser olhado mais nas suas “possibilidades futuras que na sua história passada”.

A eucaristia para todas as pessoas

A ideia de ordenar homens casados “é para que a eucaristia possa chegar a todas as pessoas”, diz o bispo Elio Rama, ao 7MARGENS. Natural do Rio Grande do Sul, membro do Instituto Missionário da Consolata, o bispo Rama tem a seu cargo desde há sete anos a diocese de Pinheiro, no estado do Maranhão, no limite nordeste da Amazónia. Participa pela primeira vez num Sínodo.

“O motivo pelo qual se está colocando a questão é para que a Eucaristia possa chegar a todas as pessoas”, diz. “Quando vou celebrar, só duas ou três pessoas é que se apresentam à comunhão. Os outros não têm preparação, não fizeram a primeira comunhão, não são casados… Primeiro deve fazer-se esse processo e para isso não é preciso um padre.”

Elio Rama fala a partir da própria experiência: esteve 18 anos em Moçambique e aí as comunidades, mesmo sem padres, estavam vivas: havia leigos que faziam os batismos e casamentos, davam catequese e “iam buscar a eucaristia [as hóstias consagradas por um padre], que levavam para o povo”. Quando os missionários chegavam, havia sempre 50 ou 60 pessoas preparadas, recorda. “A minha foi tão positiva, tão boa…”

Por isso, deseja que do Sínodo saia “uma abertura maior aos ministérios na Igreja”, no sentido de “dar mais importância e apoio aos leigos e leigas que se colocam à disposição de algum trabalho na Igreja”. E, neste âmbito, o bispo Elio inclui as mulheres: “Mais do que os homens, são elas que estão na comunidade e são mais fiéis. As mulheres têm mais facilidade de fazer esse trabalho, mas muitas vezes não damos essa possibilidade.”

Reconhecer ministérios que já são exercidos

Joaquin Pinzón, bispo de Puerto Leguízamo Solano, na Amazónia colombiana, é um dos 14 bispos do país que está no Sínodo. Está muito otimista com o que podem vir a ser os resultados do Sínodo, pois desde o início o processo sinodal “conseguiu pôr no palco a Pan-Amazónia” e isso foi a sua grandeza.

Na Colômbia, a floresta amazónica representa 40 por cento do território e seis por cento da Amazónia está no país. Por isso, também se joga ali o futuro do catolicismo e da região: “Na busca de novos caminhos para a Igreja na Pan-Amazónia sempre se pediu que o Espírito suscite novas formas de serviço para a região”. E agora, quando o debate se aproxima do final, a questão da ordenação dos homens casados ou das mulheres são apenas dois casos, diz. “Pode ser que o Sínodo ainda nos inspire outros modelos e que vá muito mais além. O mais bonito é colocarmo-nos numa perspetiva de fé e de busca e dar possibilidades a que o Espírito nos fale e nos comunique o que quer da Igreja e para a Igreja.”

O bispo Pinzón, 50 anos, que integrou o grupo que redigiu os documentos preparatórios do Sínodo, recorda que “não é segredo o que significa a Pan-Amazónia para a Igreja Católica: grandes distâncias, comunidades dispersas e o desafio de garantir a eucaristia” a essas populações. Não se trata de pôr em questão o celibato, mas tudo ao contrário. O celibato tem muito valor, porque possibilitou uma Igreja mais dedicada e estar presente em diferentes espaços e territórios.” Agora, acrescenta, o que é pedido é o reconhecimento de ministérios que já são exercidos por muitos fiéis.

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