"Deixei no Bataclan um monstro sanguinário com caninos que me tentavam devorar", lembra a vice-presidente da associação de vítimas Life for Paris, Caroline Langlade. "E, afinal, era só uma sala com paredes onde aconteceu algo trágico. Não é o prédio que é trágico", continuou.

Na sua memória, as escadas que subiu para se refugiar nos camarins tinham forma de caracol e eram de madeira. Durante a visita, dá conta de que afinal são "como sempre foram: retas e de cimento".

Junto com outra associação de vítimas, a associação de Langlade organiza desde março "momentos de reflexão, confidenciais e íntimos" para os sobreviventes do atentado cometido por um comando extremista que entrou no Bataclan durante o concerto da banda de rock americana Eagles of Death Metal.

Na primeira sessão, nos primeiros dias de março, participaram cerca de 130 pessoas. A segunda, no início de outubro, reuniu 260. Algumas vieram de longe: Estados Unidos, Holanda, Escócia ou Espanha.

Naquele 13 de novembro, 90 espetadores foram mortos pelos três extremistas durante a tomada de reféns, enquanto outros dois comandos atacavam outras partes de Paris e no Stade de France, em Saint-Denis. No total, 130 pessoas foram assassinadas nos atentados mais sangrentos que aconteceram em França.

"A saída de emergência estava a sete metros, mas, na minha memória, parecia uma distância infinita", conta Maureen, de 28 anos, que esteve no Bataclan porque precisava "recuperar a posse do lugar". "Voltei aqui, ninguém me obrigou, e esta é uma forma de vitória sobre o que vivemos aquele dia", afirma.

Segundo uma organizadora, "alguns inclusive deitaram-se no 'fosso' da sala, arrastaram-se e refizeram o caminho percorrido, posicionaram-se ali onde tinham se escondido".

Esta recuperação do espaço tem um "efeito tranquilizador", constata Florence Deloche-Gaudez, da organização de emergências médico-psicológicas, presente na visita. Isto "pode fazê-los reviver o momento, voltar a sentir as sensações: os barulhos, os cheiros, as imagens, o medo... Alguns paralisaram, outros iam e vinham, refaziam o caminho percorrido".

Mas, explica, os sobreviventes "puderam preparar-se" e estavam acompanhados de psicólogos. Também "podiam trocar com outras vítimas presentes", em particular "com agentes de segurança do Bataclan, que respondiam às suas perguntas", explica Deloche-Gaudez.

Reconstruir a vivência

Deloche-Gaudez considera que "para eles, que viveram uma experiência de morte, isto ajuda-os a sair da impotência e atenuar o trauma". Alguns, "em sinal de luto, queriam posicionar-se no mesmo local em que morreu um familiar seu".

Desde janeiro, algumas vítimas expressam o desejo de voltar ao Bataclan. Um pedido ao qual responderam as associações de vítimas, com total discrição. Em grupos de cinco ou seis, as vítimas ou familiares de pessoas falecidas puderam entrar na sala ainda em obras de restauro. No local, há uma dezena de psicólogos e bombeiros e vítimas que às vezes ficam por "até uma hora", explicam na Life for Paris.

Algumas velas, cartas e flores são depositadas no local. No Bataclan, que reabrirá em novembro, contam que "tentaram respeitar os diferentes pedidos das vítimas e responder assim que possível".

Alguns tinham dúvidas sobre o efeito deste retorno. "Quando se faz algo assim, não se sabe o que vai acontecer. Ao sair, senti-me mais tranquila... Pode parecer macabro, mas a reconstrução ajuda" na recuperação, admite Maureen.

Há também os que preferem outras circunstâncias, como Anthony, de 37 anos: "quero voltar ao Bataclan para ver um concerto e, sobretudo, não estar cercado de vítimas. Cada um vive-o à sua maneira".

Depois dos atentados, algumas vítimas adquiriram o hábito de se aproximar diariamente do Bataclan para um momento de reflexão. Turistas e moradores dos arredores também vão como peregrinos em frenta à sala e deixam flores, desenhos, peluches e mensagens.

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