Resumir o dia de hoje numa única fotografia seria contar a história que aconteceu no Hospital Pedro Hispano. A Unidade Local de Saúde de Matosinhos partilhou nas redes sociais a imagem de um casal idoso infetado com covid-19 que acabou por falecer. A foto, a preto e branco, mostra-os de mãos dadas, numa altura em que os afetos físicos estão praticamente em pausa.

No Facebook pode ler-se que "uma imagem vale mais do que mil palavras". Contudo, as palavras são precisas neste momento. Porque a fotografia, além de contar uma história de amor e de dor, mostra outra coisa: a "humanização dos cuidados".

Não sabemos quem são as pessoas retratadas, mas sabemos que entraram no hospital "com cerca de 24 horas de diferença, e partiram com a mesma diferença". É possível supor que, depois de uma vida comum, a diferença de horas longe um do outro certamente os marcou. Mas houve quem atenuasse essa dificuldade, mesmo com as condicionantes da pandemia.

"A Equipa da Ala O, onde estiveram internados, tudo fez para que partissem em paz, proporcionando-lhes o momento a que tinham direito com toda a calma, tranquilidade e serenidade. Momento que foi partilhado com a família que também pôde estar presente com cada um, com todas as medidas de segurança", pode ler-se na publicação.

Do lar de Nossa Senhora da Conceição, da Caridade de Ponte de Lima, chega-nos também uma história semelhante. "Marido e mulher, de 89 e 90 anos, morreram, na quinta-feira, à mesma hora, no hospital de Santa Luzia", em Viana do Castelo. "Já viviam juntos há muitos anos, é uma história de amor até ao fim", disse Agostinho Freitas, diretor da instituição, ao Observador.

Por todo o país, são vários os idosos afetados pela covid-19. Numa altura em que medimos os dias por números — entre infetados, mortos e recuperados —, importa não esquecer, como tantas vezes lembrado pelas autoridades de saúde, que nos referimos a pessoas que fazem falta a alguém, tenham mais ou menos idade.

Hoje, a ministra da Saúde, Marta Temido, disse na conferência de imprensa que um terço das pessoas que morreram com covid-19 em Portugal estavam em lares de idosos, ou seja, representam 1.090 do total de 3.250 óbitos no país.

Numa rápida análise aos dados gerais da pandemia, verifica-se que o novo coronavírus já infetou em Portugal pelo menos 92.678 homens e 111.986 mulheres, de acordo com os casos declarados. Do total de vítimas mortais, 1.662 eram homens e 1.588 mulheres. E o maior número de óbitos continua a concentrar-se nas pessoas com mais de 80 anos.

O casal da fotografia faz parte destes números. E a sua morte veio tornar mais vazia uma família, que permitiu a partilha da imagem nas redes sociais e fez com que, assim, todos a pudessem ver. Numa altura em que as regras apertam e os casos aumentam — mas com esperança de dias melhores, pela diminuição do Rt, o risco de transmissão —, é preciso pensar duas vezes em cada atitude.

A Equipa da Ala O, também protagonista nesta história de Matosinhos, representa tantas outras equipas pelo país. São pessoas cansadas pelo trabalho e pelo peso da pandemia, que não deixam de ser humanas quando confrontadas com a realidade de cada doente. Por isso, cumprir as regras significa, em última instância, diminuir a pressão nos serviços de saúde e facilitar o trabalho de tantas equipas.

"Acima de todo este esforço estão profissionais de saúde aos quais devemos a nossa admiração, o nosso respeito e sobretudo o nosso dever de cumprimento das regras básicas para prevenir que entrem em sobre-esforço na resposta que procuram dar todos os dias", declarou a ministra.

Por isso, a última mensagem fica numa frase de Marta Temido: "todo o nosso esforço vai no sentido de evitar que mais famílias percam os seus entes queridos". Porque mesmo com distanciamento físico é possível que um país esteja de mãos dadas para travar a pandemia.

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