Alguns dobram mantas e cobertores para arrumar na mala do carro, outros passeiam pela avenida para "esticar as pernas" depois de uma noite a dormir dentro do carro, e há quem aproveite para limpar os estofos da viatura, enquanto ouve o noticiário na rádio.

"Não podemos ir embora porque esta é uma luta de todos e por uma causa que afeta a todos. Apenas queremos igualdade", disse à agência Lusa Idalina Sousa, motorista de táxi há cinco anos, negócio que gere com o marido que à hora da entrevista tinha ido a casa tomar banho para "render" a esposa mais tarde.

Idalina Sousa dormiu nos Aliados e tomou o pequeno almoço às 06:00 da manhã para "estar pronta para mais um dia de luta", disse.

No carro tem a seguinte frase dirigida a colegas que possam estar hesitantes em aderir à concentração: "Como poderás sentar-te em frente aos teus filhos e dizer-lhes que têm direitos se tiveste medo de lutar?".

A propósito de adesão à concentração, que teve início nos Aliados pelas 06:00 de quarta-feira, o vice-presidente da Associação Nacional de Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL), José Monteiro, acredita que os motoristas de táxi estão a aderir ao protesto "em força e em massa".

Em declarações à Lusa, cerca das 09:00, apontou que "já foi necessário pedir ao Comando Metropolitano da PSP do Porto para aumentar o perímetro onde é permitido aos taxistas estacionarem o carro", garantindo que "a última coisa que a organização do protesto quer é gerar transito e transtornos à população".

"É expectável que a luta se intensifique. Mas tenho esperança que as associações nacionais os grupos parlamentares cheguem a um entendimento. A Uber [uma das quatro plataformas eletrónicas a operar em Portugal] não pode entrar num país e fazer tábua rasa da legislação. O setor está disponível para negociar, mas é a nossa sobrevivência que está em causa", disse José Monteiro.

Opinião semelhante tem José Brito, motorista de táxi há 17 anos que ficou nos Aliados a noite toda e diz "ter passado pelas brasas para aí umas duas horas dentro do carro só para estar preparado para o dia de hoje".

José Brito quer que "a solução chegue depressa", porque "a família e os empregados dependem do táxi para viver", mas garante que "não arreda pé dos Aliados" e fica "o tempo que for preciso".

Carlos Lima, da Federação de Táxis do Porto, contou que "o convívio durante a noite na avenida fez lembrar velhos tempos de luta, coragem e solidariedade de classe", frisando que "o protesto só levanta se chegarem de Lisboa respostas positivas".

"O pessoal está motivado. Isto tem sido muito ordeiro e tranquilo. Apenas pensamos nos nossos direitos", referiu à Lusa Carlos Lima.

"Não é justa nem leal. TVDE no Constitucional" ou "30 mil postos de trabalho em risco" são algumas das frases que se leem nas faixas colocadas junto ao muro da Câmara Municipal do Porto, isto enquanto um ou outro táxi circula com um papel a esclarecer "Reservado a Serviços Mínimos", serviços esses que José Tomé, taxista há 32 anos, promete só fazer "em caso de muita emergência" porque não quer sair dos Aliados.

"Não foi a minha primeira noite dentro do carro e se for preciso não é a última. Temos de zelar pelos nossos interesses. Estamos a lutar pelo que é justo e contra os ilegais. Somos 700 táxis no Porto e eles [referindo-se às plataformas] já são mais de 1.000. É desleal", disse.

Os taxistas continuam hoje concentrações em Lisboa, Porto e Faro contra a entrada em vigor, em 01 de novembro, da lei que regula as quatro plataformas eletrónicas de transporte em veículos descaracterizados que operam em Portugal - Uber, Taxify, Cabify e Chauffeur Privé.

Desde 2015, este é o quarto grande protesto contra as plataformas que agregam motoristas em carros descaracterizados, cuja regulamentação foi aprovada, depois de muita discussão, no parlamento, em 12 de julho, com os votos a favor do PS, do PSD e do PAN, os votos contra do BE, do PCP e do PEV, e a abstenção do CDS-PP.

A legislação foi promulgada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em 31 de julho.

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