O serviço encerrou em março devido à pandemia e a Administração Regional de Saúde de Lisboa disse à Lusa que está em estudo um modelo de reabertura.

Bruno Rego, 37 anos, deu entrada naquela unidade no dia 12 de junho de 2013, uma data inesquecível, que se tornou mais importante do que a do seu aniversário, porque se não tivesse dado esse passo "já não estava cá".

Em recuperação há sete anos, explicou que as pessoas “saem diferentes” do internamento porque, apesar de serem apenas quatro semanas, além do método de tratamento, “em que a pessoa faz a desintoxicação química”, inclui também o acompanhamento psicológico para que “consiga manter a sobriedade cá fora”.

Além disso, “é o único serviço em que a pessoa dá entrada e não paga um cêntimo”, o que é “muito importante porque as pessoas chegam falidas”, referiu, contando que se não fosse os pais na altura estaria a viver na rua.

Por isso, os utentes receiam que o serviço acabe. “Mais tarde ou mais cedo é o que vai acontecer”, lamentou.

Este receio é partilhado por Fernando S., de 57 anos e utente há 23, desde 1997. Internado duas vezes, disse ter criado “muitas raízes” naquele local para onde encaminha pessoas com problemas de álcool, que cada vez são mais, principalmente mulheres.

“O método que é utilizado para a doença que eu padeço, que é o alcoolismo, é completamente diferente das outras instituições que estão sediadas no Parque da Saúde, em Lisboa, nomeadamente o Centro das Taipas e a Unidade de Tratamento e Recuperação de Alcoólicos”, explicou.

Nestas instituições, “trata-se a ressaca e faz-se o tratamento à base de benzodiazepinas e calmantes e põem-se as pessoas na rua ou encaminham-nas para comunidades terapêuticas, enquanto na Unidade de Alcoologia são 28 dias de internamento e depois cria-se uma rede de proteção.

Fernando recordou que de “um dia para o outro” deixou de conseguir parar de beber e as “bombas de gasolina eram o seu bairro”, onde comprava garrafas de uísque às quatro da manhã.

Na unidade encontrou um porto de abrigo e “uma excelente equipa terapêutica” que dá “um apoio maravilhoso e gratuito. Isto é único”.

Ali aprendeu a “lidar com uma série de situações, com sentimentos, com emoções”, razões pelas quais bebia e pela quais precisa de continuar a ter apoio.

Fernando recordou que as instalações foram doadas pela Fundação Calouste Gulbenkian para tratamento exclusivo de alcoólicos, “mas as coisas nos últimos anos têm vindo a piorar” devido à falta de recursos humanos. “Há uma morte lenta da unidade”, lamentou Fernando, que está sem beber há 10 anos.

Jorge começou a beber ainda jovem, um vício que se manteve até aos 46 anos. Hoje, com 50 anos, diz ser “um caso feliz”.

“Não estou livre de amanhã começar a beber, porque isto é para a vida toda, mas deram-me as ferramentas para perceber qual é meu problema e aceitar-me como sou”, afirmou Jorge, com orgulho.

Jorge acrescentou que conhece pessoas que neste momento precisam de ser internadas. “Alguns deles já desistiram, e continuam a estragar a saúde mental e física, porque os tratamentos são caros” e a unidade fechou devido à pandemia.

Paulo Inácio, 53 anos, deu entrada naquela unidade há três anos. Recordou que quando esteve internado "só estavam mais dois ou três utentes porque não havia pessoal auxiliar e não podiam internar mais pessoas”.

“Passados uns tempos não havia enfermeiros, e esta situação já acontece há alguns anos”, relatou Paulo Inácio, destacando a importância deste centro: “entrei um farrapo e sai de lá um homem melhor de que alguma vez fui na vida”.

“Tenho uma gratidão para o resto da vida com aquelas pessoas que me trataram, porque mudaram a minha vida”, salientou, considerando que “fechar aquela casa é um crime”.

Eventual fecho de internamento de Unidade de Alcoologia terá um "impacto devastador"

O serviço de internamento da Unidade de Alcoologia de Lisboa encerrou em março devido à pandemia, uma situação que está a preocupar os utentes, mas a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo assegurou à Lusa que está a ser ultimado um modelo de reabertura.

Para Mário Marques, “seria trágico” as pessoas com problemas de álcool deixassem de ter este “serviço de referência”, tendo em conta que é “um tratamento especializado sem custos para as pessoas”.

“E nos dias de hoje, com a situação pandémica e com todas as ondas de choque que ela está a trazer à vida de todos nós, não é difícil pensar que poderá ter um impacto devastador com muitos custos para a saúde física e mental desta população”, disse à agência Lusa o psicólogo.

No seu entender, seria “privar os doentes” de uma das respostas mais especializada que o Serviço Nacional de Saúde possui nesta área: “os doentes ficarão muito mais pobres nas suas oportunidades de tratamento. Será uma perda enorme e que espero que não se verifique”.

Mário Marque sublinhou que os recursos humanos escasseiam por norma no SNS e nos serviços que tratam as dependências, não é diferente.

“São serviços habituados a trabalhar ‘à pele’. Com a situação da covid-19, tendo em conta todas as exigências (e bem) da Direção-Geral de Saúde para os internamentos na Saúde Mental, claro que a capacidade de resposta destes serviços fica fortemente comprometida se não houver um investimento nos recursos humanos com mais contratações e até no melhoramento das condições físicas dos edifícios onde funcionam estas valência, que por norma, já são muito antigos”, defendeu.

Questionado se os problemas de álcool podem vir a aumentar com a pandemia, afirmou que da experiência de situações anteriores de crise faz pensar que o consumo de álcool poderá aumentar por questões sociais, como o desemprego, e de saúde mental, que “poderão ser a próxima pandemia”.

“Nesta fase, todos os serviços são importantes e, por isso, repito, vejo com muita preocupação o eventual encerramento do internamento da Unidade de Alcoologia”, vincou.

“Pelo que sei e conheço do serviço, por muitos anos de trabalho desenvolvido em articulação com a Unidade, através das suas valências da consulta e do internamento, é um serviço que prima pela procura de respostas que se ajustem às diversas necessidades dos doentes”.

Além da “fundamental desintoxicação física”, contempla toda uma abordagem que vai ao encontro dos problemas ligados ao consumo de álcool.

“Esta não é uma doença qualquer. É uma doença com forte impacto no funcionamento físico e psicológico, compromete o modo de pensar e agir da pessoa doente e com isso todas as suas valências de vida”, salienta.

Daí que o internamento esteja estruturado em quatro semanas, com cuidados médicos, de enfermagem, psicológicos e de intervenção social.

“O programa tem vindo a fazer também várias adaptações às necessidades prementes de doentes que beneficiam de integrar Programas de Longa Duração, caso das Comunidades Terapêuticas.

Para o psicólogo, esta é a “grande valia” da unidade, oferece internamentos curtos a quem precisa de seguir para as Comunidades Terapêuticas e internamentos de quatro semanas para quem não esteja num estado tão agravado da doença.

Assim oferece “uma possibilidade de tratamento menos disruptiva para a vida do doente”: “uma coisa é estar internado sensivelmente um mês, outra é estar três, seis meses ou um ano, que são os tempos de tratamento nas comunidades terapêuticas”.

“Pessoas que ainda mantêm os seus trabalhos, as suas famílias, com vidas ainda minimamente estruturadas, têm assim acesso a um programa médico e psicoterapêutico especializado de relativa curta duração, que de outro modo só é acessível em centros privados com elevadíssimos custos”, sublinha.

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