No dia em que lançou o seu novo livro - “Chamar as coisas pelos nomes” - Vânia Beliz falou com o SAPO24 e comparou a sua obra a uma porta: de um lado, estão os temas que os jovens costumam levar para as sessões de educação sexual; do outro, os pais e as suas dúvidas sobre como falar de sexualidade com os filhos. O livro pretende ser a via de entrada que põe uns e outros a comunicar com menos medos. Comecemos por aí…

O livro chama-se “Chamar as coisas pelos nomes” porque às vezes evitamos usar determinados termos. Que palavras temos medo de dizer?

As palavras que dizem respeito ao nosso corpo, aos nossos genitais. Continuamos a encontrar nomes disparatados para chamar aos nossos órgãos genitais, fazendo uma diferenciação em relação às outras partes do corpo.

Por exemplo?

Continuamos a chamar “pipi”, “fofinha”, “loló” à estrutura feminina. Mas estamos a chamar “pipi” à vulva ou à vagina? Não se sabe muito bem, há uma confusão.

Muitas vezes um nome engloba uma série de estruturas que ficam completamente “desvitalizadas”, o que faz com que depois não tenhamos alguns cuidados e não possamos mais tarde usufruir do prazer que essas estruturas nos dão.

Por exemplo, quando falamos em higiene menstrual e falamos com as meninas sobre a importância de limpar bem os lábios vaginais, às vezes apercebemo-nos de que elas não sabem do que estamos a falar.

O mesmo se passa em relação ao pénis: dizemos “pilinha”, mas raramente falamos com os rapazes sobre os testículos ou o prepúcio.

Isso mostra bem o tabu e a forma como temos vindo a ser castrados quando se trata de falar sobre estas partes do grupo.

Porque é que continuamos a usar um líquido azul para colocar num penso higiénico?

Porque temos esse tabu?

Tem muito a ver com o facto de associarmos os genitais ao sexo, que ainda tem uma conotação negativa e de vergonha. Está relacionado com as nossas raízes religiosas, com questões sociais e com o período de ditadura.

A publicidade também não nos dá uma boa imagem dos nossos genitais, principalmente no caso das mulheres. Porque é que continuamos a usar um líquido azul para colocar num penso higiénico? Qual é o problema de falarmos do sangue que sai da vagina da maior parte das mulheres todos os meses?

São estas situações que vão limitando o à-vontade de falarmos sobre a sexualidade de forma fácil.

Afinal, o que é a sexualidade?

É um conceito muito abrangente. Ultrapassa em muito a questão das relações sexuais. Falar de sexualidade é falar da nossa construção de identidade, da nossa descoberta, de emoções, sentimentos, relacionamentos.

Com as crianças mais pequenas trabalhamos a questão das amizades, das famílias, dos papéis, do homem, da mulher. A questão do consentimento, da prevenção de riscos em relação ao corpo. Ajudamos as crianças a perceber desde cedo o que é permitido e o que não é. Tudo isso é sexualidade. É aprender a respeitar o outro e a respeitar-me a mim.

Logo no início do livro, reconhece que às vezes os adultos têm dificuldade em abordar o tema da sexualidade com as crianças e os jovens. Quando e como é que uma conversa entre pais e filhos deve acontecer?

Os pais associam a conversa sobre sexualidade ao dia em que se sentam no sofá com os filhos a falar sobre o tema. Se só pensam nisso nessa altura, já estão atrasados.

Nós comunicamos sempre em sexualidade, mesmo que não o façamos de forma voluntária. E a maior parte das vezes que falamos sobre sexualidade não o fazemos de forma verbal. A comunicação é muito mais do que sentarmo-nos a ter uma conversa.

De que maneira é que a comunicação não-verbal é “falar” sobre sexualidade?

A partir da altura em que os filhos nascem, os pais projetam uma série de ideias sobre eles: o que idealizam que eles sejam, as atividades em que os inscrevem, aquilo que escolhem para eles. Os pais orientam os filhos de acordo com o que acham que é próprio do seu género ou sexo. Por exemplo, as mães inscrevem os meninos no futebol, não os inscrevem no ballet. O primeiro agente educativo são, portanto, os pais, e é através deles que as crianças percebem o que o homem e a mulher fazem.

Depois, então, poderá haver momentos em que é necessário que os pais se sentem e conversem com os filhos sobre determinados assuntos. Mas as conversas têm de ser adequadas à capacidade de entendimento das crianças.

Como devemos escolher o que dizer?

Devemos ir falando daquilo que as crianças perguntam, mas também podemos usar o que acontece à nossa volta como “gatilhos” de conversa. Se passamos na rua e vemos duas mulheres de mão dada, podemos dizer que aquelas duas mulheres são namoradas e tentar perceber quais são as ideias que a criança ou o jovem tem sobre isso. O mesmo se passa com aquilo que vemos na televisão ou com as notícias que lemos. É importante que os pais discutam com os filhos todos os assuntos.

É muito mau que se chegue à puberdade e ainda se pense que um bebé se faz com um beijo na boca.

Quando é que a criança está preparada para falar sobre relações sexuais?

As crianças estudam a reprodução no terceiro ano do primeiro ciclo do ensino básico. É muito importante ensinarmos como é que tudo acontece. Até porque há meninas que menstruam aos oito, nove anos.

Um dia, no fim de uma sessão que dinamizei numa escola, uma adolescente estava em pânico porque tinha dado um beijo na boca de um rapaz e queria saber se havia algum risco de estar grávida. É muito mau que se chegue à puberdade e ainda se pense que um bebé se faz com um beijo na boca. Mas a verdade é que existe muito desconhecimento. E este tipo de questões são prejudiciais para a saúde das nossas crianças e dos nossos jovens.

Como é feita a educação para a sexualidade nas escolas?

A educação sexual é obrigatória. Está dentro de um projeto que se chama Educação para a Saúde. Há orientações que são dadas pela Direção-geral da Educação, mas o tema pode ser trabalhado de forma flexível pelas escolas.

E está associado a alguma disciplina específica?

Não. Deve ser trabalhado de forma transversal, com várias disciplinas a contribuir. Ainda que normalmente esteja muito confinado aos professores das ciências e das biologias, há professores de português ou de história que podem trazer contributos interessantes. 

Mais uma vez: falar de sexualidade não é só falar de biologia. Em português podemos discutir um texto feminista ou um texto que aborde o machismo. Em história podemos ver a evolução dos direitos da mulher, os direitos das famílias.

Também há o eixo da sexualidade na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, onde se trabalha as questões de género e dos direitos reprodutivos. É mais um reforço para trazer este tema, que normalmente é polémico dentro da escola.

Com a sexualidade, como há um medo de se associar sempre ao sexo, os pais têm muito receio do que vai ser falado e do que vai ser discutido com os seus filhos.

Porquê?

Os pais acham que falar de educação sexual pode ir contra os seus valores de família. No entanto, vejamos: uma família pode só cozinhar carne de porco, e, ainda assim, a criança [quando entra para a escola] aprende que existe uma roda dos alimentos que deve ser diversificada. Mas sobre a alimentação parece que as famílias não se impõem.

Com a sexualidade, como há um medo de se associar sempre ao sexo, os pais têm muito receio do que vai ser falado e do que vai ser discutido com os seus filhos. Se temos uma família homofóbica, não faz sentido que a escola não desconstrua isso. Não é uma questão de mudar o comportamento daquela família, mas sim de perceber que existe o direito à diferença. Estamos a falar de direitos universais, e não de incutir ideologias à família.

Há limites para as conversas que temos com as crianças ou para a expressão da sexualidade?

Temos que refletir sobre os nossos limites a partir do momento que a nossa liberdade não respeita a liberdade dos outros. Devemos sempre pensar se estamos a aceitar a liberdade das outras pessoas e a respeitá-las. A partir do momento que eu venho para o espaço público perturbar as outras pessoas, expor as minhas preferências, as minhas ideias, magoando o outro, então aí temos de pensar em limites.

Depois existem situações que são consideradas crime, como é o caso da pedofilia e de outras parafilias. Para isso, claro, tem de haver limites.

E quando no espaço público uma expressão de carinho entre duas pessoas do mesmo sexo perturba o outro? Isso está dentro ou fora dos limites?

Duas pessoas do mesmo sexo têm o mesmo direito de dar um beijo na boca do que duas pessoas heterossexuais.

Mas se "ofende o outro..."

A questão é que temos de tentar perceber porque é que o outro se sente ofendido. Neste caso, sente-se ofendido porque não respeita a liberdade dos primeiros. Há muitas pessoas que acham que é uma vergonha duas pessoas homossexuais beijarem-se no meio da rua. Mas as pessoas têm o direito de o fazer.

Os limites de cada pessoa dependem dos seus próprios critérios, e há pessoas que têm critérios muito restritos em relação à diferença e à diversidade. Isso também se trabalha quando se educa para a tolerância e para o respeito em relação aos outros.

Há uma grande confusão entre o espaço público e o espaço privado. As pessoas expõem a sua intimidade nas redes sociais, sem se aperceberem até das consequências que isso pode trazer.

Na educação para a sexualidade também se fala de espaço íntimo, privado e público?

Sim, falamos muitas vezes com os jovens sobre a exposição da nossa intimidade às outras pessoas. A intimidade é algo especial. Não temos que estar a fazer sexo num espaço público - até porque é proibido. Mas hoje em dia essa separação [entre os diferentes espaços] é muito difícil de definir. Há uma grande confusão entre o espaço público e o espaço privado. As pessoas expõem a sua intimidade nas redes sociais, sem se aperceberem até das consequências que isso pode trazer. Também é importante trazer isso para o debate e para a educação sexual.

Com as novas tecnologias e com a maneira como comunicamos uns com os outros nas redes sociais, há novas formas de viver a sexualidade?

Sim, claro. Estamos a relacionar-nos de forma diferente. Hoje em dia, conhecemos mais pessoas online do que conhecemos num café ou numa praia. Por outro lado, a internet veio facilitar a desinibição e acelerar muita coisa: é tudo muito fugaz, muito intenso, e as pessoas que não tinham coragem para fazer alguns comentários ou para dar determinado passo talvez se sintam mais protegidas.

Mudanças vai sempre haver à medida que formos evoluindo. A questão é perceber como nos adaptamos a elas e como deixamos que isso afete a nossa intimidade.

Quantos casais hoje em dia se conheceram na internet? Isso é melhor ou pior do que conhecer uma pessoa na praia, no supermercado ou no trabalho? São formas diferentes. Estamos a socializar de formas diferentes. Temos é de nos proteger de alguns riscos e de algumas consequências.

Relacionamo-nos com o nosso corpo e com o corpo dos outros de maneira diferente nestas novas formas de comunicar?

Penso que há uma banalização da imagem corporal. Se antes já existia, muito fruto da publicidade e do marketing, que vende muito através do corpo e do sexo, hoje em dia algumas situações têm de ser muito bem pensadas. Principalmente, esta falta de critérios que os jovens têm de publicar fotos deles próprios - as selfies, os nudes [fotografias de partes do corpo nuas].

Por outro lado, estamos constantemente a receber demasiada informação. Estamos sempre ligados e a ser atacados. À medida que vamos selecionando determinados conteúdos na internet, toda a experiência online se vai direcionando para aquilo que nós procuramos. Se os jovens estiverem numa fase de procurar informação sobre sexualidade, rapidamente lhes chegam sugestões sobre esse assunto.

A educação sexual deve incluir estes temas também?

Sim, e inclui. No caso do livro que estou a lançar, por exemplo, uma das partes fala até de um projeto chamado Miúdos Seguros Na Net, que sensibiliza os jovens e as crianças para o uso saudável da internet.

O que é que a fez escrever este livro?

Desde logo, o trabalho que tenho desenvolvido com as famílias no âmbito da educação sexual. Por outro lado, também estou a fazer investigação na Universidade do Minho, onde estudo a educação sexual no ensino pré-escolar e as conceções dos pais e dos educadores de infância, e a literatura diz que há uma falta de apoio aos pais nesta área.

O que quis não foi escrever uma bíblia sobre como é que os pais resolvem todos os problemas de sexualidade dos filhos, mas sim ajudar os pais a refletir sobre alguns temas, em particular aqueles que os jovens mais colocam nas sessões que faço nas escolas e que recebo através do projeto "Control Talk" [linha telefónica gratuita e sigilosa, criada em parceria com a Control, em que os jovens enviam mensagens com dúvidas sobre sexualidade pelo WhatsApp].

No fundo, o livro reúne os interesses das crianças e dos jovens, para que os pais possam ter uma porta para falar com os filhos sobre estas questões.

Para além da investigação e dos projetos, que outras atividades desenvolve?

Sou funcionária pública e estou ligada às autarquias. Trabalho com escolas no âmbito dos projetos de educação para a saúde. Além deste livro, tenho um livro infantil do qual sou coautora, e um projeto de educação sexual para as crianças mais pequenas - a Viagem de Peludim.

É psicóloga de formação. Faz terapia também?

Não, optei pela vertente educacional. É uma área que me estimula mais.

Preocupa-me aquilo que vejo no Brasil, onde tenho muitos amigos a trabalhar na área da educação sexual. Neste momento, eles têm o trabalho barrado por ideais altamente conservadores que definem que estes assuntos são um horror e estão contra as famílias.

Como é que avalia a evolução da abordagem às questões da sexualidade?

Vejo mudanças muito positivas, principalmente no nosso país, como o reconhecimento dos direitos das pessoas LGBTI, o facto de se falar das questões de género e das mulheres. Penso que o Governo tem feito um bom trabalho nesse sentido.

Mas preocupam-me os movimentos demasiado conservadores. Preocupa-me, por exemplo, aquilo que vejo do outro lado do oceano, no Brasil, onde tenho muitos amigos a trabalhar na área da educação sexual. Neste momento, eles têm o trabalho barrado por ideais altamente conservadores que definem que estes assuntos são um horror e estão contra as famílias. A mim preocupam-me padrões familiares rijos.

Em novembro, vai participar como oradora no encontro "O homem promotor da igualdade". De que maneira é que a educação para a sexualidade pode contribuir para a promoção da igualdade de género?

A educação sexual é importante porque ajuda a desconstruir estereótipos que levam depois a situações de risco. Se queremos trabalhar a prevenção da violência sexual e doméstica, temos de tentar perceber porque é que as mulheres não estão empoderadas e se submetem a relações destrutivas, porque é que há violência no namoro. E, se há violência no namoro, onde é que está a autoestima dessas mulheres e desses homens? Falo mais de mulheres, porque existem mais vítimas femininas, mas até que ponto é que os homens têm capacidade para verbalizar aquilo que lhes acontece?

Continuamos a educar as meninas para os sentimentos, para a sensibilidade, e a dizer aos meninos "não chores", "tens de ser forte”. Depois não podemos esperar que eles tenham capacidade para lidar com a afetividade da mesma maneira.

No fundo, na educação sexual trabalhamos precocemente estas questões para dar ferramentas às crianças e aos jovens para que eles construam uma identidade diferente, respeitando-se acima de tudo a si e ao outro, independentemente do seu sexo e do seu género.

"O homem promotor da igualdade - Homens e mulheres lado a lado pela igualdade de género"

O encontro realiza-se nos dias 15, 16 e 17 de novembro, no ISCTE-IUL. A entrada é livre para as sessões dos dias 15 e 16. O dia 17 é destinado a diferentes workshops e a entrada é paga.

As inscrições podem ser feitas através do site https://www.promotoresdaigualdade.pt/, onde se encontra toda a informação sobre o evento.

No encontro, vai dinamizar um workshop. O que é que os participantes podem esperar desse momento?

Acima de tudo, uma reflexão sobre como é que estamos a educar meninos e meninas e sobre como isso pode contribuir para a felicidade e bem-estar. Vou dar algumas dicas importantes de como podemos educar de forma mais igual meninos e meninas, potenciando as mesmas oportunidades a ambos.

Pode deixar um “piscar de olho” com uma ou duas dessas dicas?

Por exemplo, as tarefas atribuídas na divisão dos trabalhos domésticos. Porque é que tem de ser a menina a cuidar da roupa e o menino a passear o cão? Porque é que não incentivamos meninos e meninas a ter a mesma capacidade de argumentar sobre qualquer assunto? Muitas vezes as meninas não são convidadas a participar numa série de conversas. Porque é que continuamos a dizer que os meninos não podem gostar de cor-de-rosa? Porque é que insistimos nesse tipo de estereótipos?

Acima de tudo, vou fazer com que os pais reflitam. Estes estereótipos existem e às vezes nós nem nos apercebemos deles.


Entrevista conduzida por Margarida Alpuim e editada por Rute Sousa Vasco.

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