Este título, que subverte uma agressão, transformando-a em poesia antirracista, é lançado pela Editora Urutau, de naturalidade brasileira e com sede em Portugal e na Galiza, que entende a importância de utilizar a literatura como uma voz das coisas que precisam ser ditas, e como ferramenta para construir novas narrativas.

“Esta expressão dolorosa ‘volta para tua terra’ soa aos ouvidos como um eco amargo. Enquanto isto, nos perguntamos, a que terra devemos voltar? Em que terra deveríamos estar que não aquela que estamos agora? A quem pertencem estas terras todas? Os que nos mandam voltar a nossa terra seriam os mesmos que um dia [as] ocuparam violentamente?”, questiona o editor Wladimir Vaz, explicando a escolha do título da antologia.

No mesmo sentido, a poeta e investigadora brasileira Manuela Bezerra de Melo assinala, na resenha do livro, que “o movimento, a deslocação em si não é danoso, pelo contrário, é importante e produtivo, desde que isto não leve a um encontro danoso com a alteridade”.

“Nós, estes poetas estrangeiros que vos falam, viemos dos mais variados países, nós estamos em Portugal, somos aqui residentes por uma série de motivações conhecidas apenas por cada um de nós”, acrescenta a poeta, lembrando que também “Portugal, este país de território pequenino na ponta da Península Ibérica, é pela história conhecido por sua essência exploratória, curiosa e desbravadora”.

A necessidade de escrever este livro surgiu a partir da verificação do crescimento da extrema-direita em todo mundo, com fortes reflexos também em Portugal, expressados a partir da narrativa colonial, ainda muito viva no imaginário português, apesar da Revolução dos Cravos, descreve a editora.

De acordo com o último European Social Survey (ESS) de 2018/2019, um dos mais considerados inquéritos europeus, 62% dos portugueses manifestam racismo.

Segundo a editora, este índice é facilmente sentido nas ruas, assim como um incómodo constante aos que vivem e trabalham em terras portuguesas, que têm de lidar com estereótipos, exclusão e precarização.

Assim, a Urutau lançou uma “chamada pública”, da qual resultou a seleção de 49 poemas de 49 poetas naturais de nove países distintos, entre os quais 37 do Brasil e os restantes distribuídos entre Moçambique, Angola, Cabo Verde, Colômbia, Itália e Guadalupe.

Os vínculos entre todos elas são a residência fixa em Portugal e a abordagem de temáticas relacionadas com o racismo e a xenofobia.

Todos os poemas são inéditos e alguns deles serão publicados na língua nativa — como espanhol, italiano e até tupi antigo – com a devida tradução para o português.

A organização e curadoria da obra estiveram a cargo do editor Wladimir Vaz e da investigadora Manuella Bezerra de Melo.

“Volta para tua terra: uma antologia antirracista/antifascista de poetas estrangeirxs em Portugal” já está em pré-venda, até dia 23 de junho, mas terá lançamento oficial no dia 20, na Casa do Capitão, localizada no Hub Criativo do Beato, em Lisboa.

O evento, que decorrerá na esplanada/terraço – permitindo a realização da atividade com todas as medidas de segurança sanitária previstas para esta fase de desconfinamento, incluindo o distanciamento e uso obrigatório de máscara -, contará ainda com um concerto de Luca Argel e DJ set.

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