Futebol é uma modalidade feita de escolhas. Durante 90 minutos, um jogador está permanentemente a tomar decisões, seja no ataque ou na defesa. Mas as escolhas começam muito antes do apito inicial do árbitro e prolongam-se para lá do fim da carreira.

O segunda dia da Soccerex Europe, que decorreu durante quinta e sexta-feira em Oeiras, teve dois painéis que podiam traçar uma cronologia. De manhã, no palco secundário, The Academy, uma conversa sobre captação de talento; a fechar o evento, uma conferência com antigas lendas do futebol nacional e mundial sobre a vida depois de pendurar as botas.

Discutiram-se o prefácio e o posfácio das carreiras futebolísticas e não os capítulos do romance que se escrevem dentro de campo e estão, maioritariamente, nas mãos — ou nos pés, para bem dizer — do atleta, mesmo assumindo que estará sempre condicionado por fatores tão diversos como o sistema tático, o clube, a liga ou a competição disputada.

O painel “O Mix de Criação de Talento — Como identificar e desenvolver melhores jogadores” juntou no mesmo palco João Copeto, diretor de tecnologias de informação do SL Benfica; David Hernandéz, antigo diretor de metodologia do PSG; Francisco Tavares, coordenador de performance do Sporting CP e Laura van Leeuwen, coordenadora da academia de treinos do Ajax. E numa conversa cujo título previa um saltitar de nomes em forma de argumentos de boca em boca, de João Félix a Matthijs de Ligt, passando, obrigatoriamente por Cristiano Ronaldo, Laura, que foi a primeira a ter a palavra, falou acerca do programa inovador do Ajax na escolha… de treinadores.

1 - Escolher

O emblema holandês, de academia histórica que deu ao mundo nomes como Frank de Boer, Patrick Kluivert, Frank Rijkaard, Dennis Bergkamp ou Johan Cruyff, percebeu que para ter uma boa formação precisa das pessoas certas e que isso exige captação. Assim, o Ajax convida os treinadores das equipas jovens dos clubes fixados num raio de 65 quilómetros de Amesterdão, os técnicos passam um dia a fazer treino com os atletas mais novos e a estrutura faz a sua avaliação. Se ficarem, são convidados a passar algum tempo como voluntários do clube “para respirar o nosso ADN”, diz Laura, e se, mais uma vez, tudo correr bem ficarão a trabalhar na academia como assistentes.

créditos: Carlos Rodrigues/Getty Images

Para David Hernandéz, “escolher o talento certo é fundamental” e acredita que “os clubes devem gastar mais dinheiro para conseguir isso mesmo”, sublinhando a ideia da dirigente de futebol holandesa sobre o papel do treinador: “nas academias há dois ou três jogadores que são muito talentosos e que vão ser profissionais. Não precisam dos treinadores. Mas há um grupo maior, com potencial, e que precisa de um certo tipo de treinador”.

A escolha dos treinadores, sobretudo nos escalões mais jovens, é um ponto-chave para a construção da identidade de um clube e ninguém melhor para falar de identidade do que Hernandéz, coautor do Ekkono, um método utilizado em clubes profissionais e em federações espalhadas por todo o mundo para reforçar a sua identidade.

“O departamento de metodologia deve ser fundamental numa academia. Lá as pessoas não vão estar preocupadas com os resultados do jogo dos juvenis no fim de semana, vão trabalhar para manter tudo na linha de acordo com um ADN”, explica David, sublinhando que um clube com uma identidade forte tem mais possibilidades de atrair maiores talentos em idade mais jovem.

A metodologia, segundo o espanhol, nasce também do diálogo interno entre equipas técnicas dos vários escalões. Para David o diálogo é fundamental, bem como a luta por uma identidade assim que esteja definida. “Às vezes há um problema, dizem que a equipa mais jovem tem de jogar como a equipa principal. Mas depois o treinador da equipa A muda e têm de mudar a filosofia toda”, lamenta.

2 - Ser escolhido

Entrar neste mundo não é fácil. Antes de o futebol dar a um jovem a possibilidade de decidir com a bola nos pés, obriga-o a ser escolhido e se for escolhido cada nível acima seja de escalão, de competição ou de clube é uma mudança drástica. Os treinos começam a aumentar, surgem idas ao estrangeiro e chamadas às camadas jovens das seleções começam a interferir com a vida normal de um atleta e a educação pode ser o primeiro reflexo disso mesmo.

Vitor Gonçalves, diretor geral da Pro Eleven, empresa especializada no agenciamento de jogadores, diz ao SAPO24 que os agentes incentivam os seus clientes à “aprendizagem, seja ela na escola, seja ela fora de escola”. “Por exemplo, a aprendizagem de um ou dois idiomas pode ser fundamental na adaptação de um atleta se chegar a oportunidade de ir para fora. Um jogador que saiba falar francês, inglês, castelhano, se for para um país estrangeiro, faz toda a diferença nos primeiros meses na forma como ele se integra com os seus colegas, os seus técnicos”, explica.

O processo de escolha de um jogador começa a ser trabalhado desde cedo, com observações regulares dos jogos daqueles que a Pro Eleven considera serem os melhores clubes formadores. Diz-se que o talento não tem idade, é certo, mas o regulamento da FIFA e da Federação Portuguesa de Futebol têm e esses documentos proíbem expressamente o agenciamento de jogadores menores de idade.

Vítor Gonçalves (esq.), Pro Eleven, cumprimenta o antigo internacional português Nuno Gomes (drt.) créditos: Joao Sa/Soccerex

“O que nós tentamos fazer é identificar o talento, criar com eles uma relação de cooperação de acompanhamento para quando chegar à idade dos 18 anos ter já uma relação de confiança e conhecimento mútuo para aí trabalharmos com eles de forma profissional, de forma de cliente para agente”, conta Vítor Gonçalves.

Por esta altura, o que é uma carreira nos relvados ainda está muitas vezes distante na cabeça do jovem jogador, mas não dos agentes, habituados a estas andanças. Desta forma procuram garantir que os seus jovens atletas terminem o 12.º ano e que, os que assim o quiserem, ingressem na universidade, optando depois por fazer o curso de forma muito lenta, para não prejudicar a carreira, ou congelando a matrícula e retomando-a quando pendurar as botas, essa imagem que nenhum jogador consegue antecipar.

3. Escolher o resto de uma vida

Junto ao palco onde se discutiu o scouting dos treinadores que vão formar os jogadores de amanhã, o Johan Cruyff Institute, fundado pelo próprio Johan Cruyff há 20 anos, é a cara da lenda do futebol holandês, que acreditava na formação do homem para formar melhores futebolistas, nesta conferência.

“Começámos em Amesterdão, com 35 atletas, na altura, e agora somos uma rede de nove mil de atletas. Estamos a trabalhar pelo legado de Johan no lado mais académico, tentar melhorar e profissionalizar a indústria desportiva pela educação das diferentes parte de toda esta indústria”, explica Cristina Palés, diretora de marketing do instituto ao SAPO24.

O grande objetivo é formar atletas para além da sua modalidade, preparando-os sobretudo para o fim de carreira. “Temos de pensar que os atletas terminam as suas carreiras muito jovens e que precisam de uma forma de sair da melhor maneira possível. Se tiverem alguns instrumentos a nível de educação, têm melhores opções. Eles têm muitas capacidades que se podem aplicar ao mundo empresarial, a nível de trabalho de equipa, ultrapassar obstáculos... são boas qualidades. Mas muitas vezes eles não sabem o que sabem”, diz Cristina.

A diretora de marketing do instituto diz que acha que há o medo de parte dos futebolistas em não conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo, assumindo que é necessário continuar a falar com as famílias, agências, clubes, federações, associações para que haja uma evolução de paradigma. “Eles são seres humanos, não são produtos numa indústria de quem temos de tomar conta. Eles penduram as botas, vivem um gap que costuma ser muito dramático em muitos casos”, sublinha.

“O que tentamos fazer é que os atletas estudem durante as suas carreiras. Portanto, desenvolvemos uma plataforma online, porque percebemos que com as agendas deles é muito difícil ir a uma sala de aula, e entregamos programas desde o nível básico a pós-graduações, sendo-lhes também designado um professor”, conta Cristina, que nos revela que Sebastian Coates, defesa argentino do Sporting CP, é o único futebolista a atuar em Portugal que já estudou com o Johan Cruyff Institute. O central completou um curso de sete meses em Gestão Desportiva.

“Isto é o futebolista total de que Cruyff falava. Temos de desenvolvê-los como seres humanos, não apenas como jogadores. Eles são exemplos a seguir para a sociedade, as crianças olham para eles como sendo deuses, por isso queremos que eles sejam bons exemplos pelas crianças que vão ser o futuro da nossa sociedade”, afirma Cristina.

Da esq. para a drt.: Nuno Gomes, Louis Saha, Ella Masar, Christian Karembeu e Paulo Ferreira. créditos: Gualter Fatia/Getty Images)

Começámos nos treinadores, atravessámos o início da carreira e fomos diretos ao momento em que um jogador pendura as botas. E de repente estamos aqui, no último painel da Soccerex, que fechou a edição do Soccerex Europe, e estamos diante de Louis Saha, Paulo Ferreira, Christian Karembeu, Nuno Gomes e Ella Masar. Todos eles ex-futebolistas.

E se a saudade dos relvados se nota mais em Ella, que pendurou as botas há apenas três meses, todos os outros se sentiam concretizados com aquilo que era a sua vida hoje. Uns ainda ligados ao futebol como é o caso de Paulo Ferreira que é treinador na estrutura do Chelsea ou de Karembeu que, sendo um investidor, é também diretor desportivo do Olympiakos, na Grécia. Louis Saha, vencedor da liga inglesa e Liga dos Campeões pelo Manchester United, criou uma aplicação para telemóvel e Nuno Gomes, embaixador da Liga Portugal, aproveitou para anunciar a entrada no negócio de família, do irmão, no mundo do agenciamento de jogadores.

Nenhum disse que foi fácil. Paulo Ferreira diz que prolongou até começar a tirar o curso de treinador em que Roberto di Matteo tanto insistia, Nuno Gomes e Ella dizem ter sentido falta da vivência do balneário. Ninguém deixou de jogar à bola. Encontram-se nos relvados, agora com outro propósito, mas com a mesma alegria.

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