Antes do apito inicial da final da Taça da Liga, o retângulo verde do Estádio da Pedreira, em Braga, surgiu totalmente tapado por diversos tapetes azuis e iluminado com fogo-de-artifício, numa cerimónia de abertura curta e apelativa do jogo que determinaria o campeão de inverno.

A bola, encarnada, surgiu num carro azul, telecomandado, e não guiado, como aparentava, por um jovem de tenra idade, também ele vestido de azul, até ao meio campo, onde foi depositada no pé de Danilo, capitão do FC Porto, perante o olhar de Marega, avançado azul e branco que se apresentou de luvas, como que a dizer que teria mãos (ou antes pés) suficientes para guiar o FC Porto à primeira vitória da Taça da Liga, o único troféu nacional que lhe escapa. E, já agora, à vitória numa final, depois dos portistas colecionarem insucessos (na Taça de Portugal e Taça da Liga) desde 2010-2011 e, em especial desde que Sérgio Conceição se mudou para o Dragão.

No outro lado, no banco bracarense, estava Rúben Amorim. Sentado. Uma postura que é explicada pelo facto de não ter o curso de nível III e IV e por isso ter de ceder o palco interventivo a Micael Sequeira, que é na realidade o seu adjunto, mas que na ficha de jogo surge como treinador principal do SC Braga.

Nada que incomodasse o homem de 34 anos que, antes, enquanto jogador, já tinha ganho seis Taças da Liga (cinco ao serviço do Benfica e uma com as cores do Sporting de Braga). Um timoneiro que embora não tenha carta, respira confiança ao comando da equipa. À entrada para esta final, com o emblema da cidade dos  Arcebispos, somava já quatro vitórias, em quatro jogos oficiais (antes só Fernando Caiado, em 1978/1979 e Jorge Jesus, na época 2008/2009). Vitórias com um pequeno grande pormenor: duas delas tinham sido diante de dois “grandes” do futebol lusitano, Sporting, na final-four desta prova e FC Porto, no Dragão, a contar para a Liga NOS.

Hoje, na última vez que os três jogos finais da Allianz Cup se disputam em Braga, Rúben Amorim, não só venceu, num curto espaço de tempo, por duas vezes, a formação azul e branca, como fez história ao tornar-se o primeiro a vencer a competição enquanto jogador e treinador, ameaçando, paralelamente, o currículo de JJ ao serviço dos “Guerreiros do Minho”.

Diogo Costa, 20 anos, debaixo do olhar de Iker Casillas, na bancada, entre os 23794 espetadores na Pedreira, subiu ao relvado como o guarda-redes mais jovem numa final, ultrapassando o antigo dono da baliza portista, Vítor Baía.

O nº31 com o emblema da Invicta poucas vezes tocou na bola, mas viu em duas ocasiões a bola bater no travessão da sua baliza. Nos primeiros instantes da primeira parte, num remate de meia-distância de Ricardo Horta e, quando o relógio apontava quase os 90 minutos, numa cabeçada do central Raúl Silva.

Num jogo frenético com superioridade das defesas, os arsenalistas entraram a todo o gás. O gémeo Horta, homem do jogo, dentro da área, teve nos pés a ensejo de inaugurar o marcador, uma oportunidade que esbarrou no corpo de Alex Telles.

O Porto que se destacava nos amarelos (Sérgio Oliveira e Otávio), só respondeu quando a partida caminhava a passos largos para o intervalo. Corona, bola colada ao pé, quase entrou pela baliza, embate em Matheus, o esférico sobrou para Soares — que levava nove jogos seguidos a marcar na qualidade de titular (a dois do recordista Fernando Gomes) — e que, dentro da área, colocou a barra a abanar por vários segundos.

Por instantes, o trio de centrais brasileiros do Braga, Tormena, Bruno Viana e Raúl Silva, bem como a dupla que fecha o castelo, Fransérgio e João Palhinha, tremiam antes do intervalo.

O fantasma das penalidades

No reatar da partida, questões físicas obrigaram a mexidas no banco do Braga. Entrou Trincão (para o lugar de Galeno) e Wallace (saiu Tormena). Do lado portista, Sérgio Conceição que via o tique-taque do relógio a avançar para as penalidades, campo em que não é particularmente feliz, mudou, aos 70’, a face do meio-campo. Romário Baló e Uribe, ambos viriam a ser admoestados com cartão amarelo, entraram para dar alegria e salero a uma zona até então pisada por Danilo e Sérgio Oliveira. Uma alteração geométrica sem sucesso, porque o único ar de graça dado pelos azuis e brancos na 2ª parte surgiu num cabeceamento de Soares e uma arrancada de Marega, que meteu uma mudança abaixo, talvez para justificar as luvas, mas o homem do lado contrário e que as usa sempre, antecipou-se, e mostrou a importância de um guarda-redes com bons pés.

Rúben Amorim, o tal treinador sem curso suficiente para ver o nome na ficha de jogo, fez saltar João Novais do banco pouco antes do apito final, ou não fosse o médio um especialista em bolas paradas. Leia-se as penalidades, um dos pesadelos de Sérgio Conceição, que nas últimas duas edições da Taça da Liga tinha sido afastado da conquista do troféu na marca dos 11 metros: em 2018 foi eliminado pelo Sporting nas meias-finais e, no ano seguinte, derrotado pelos leões, na final, também nos penáltis.

Sem dinheiro, sem verdade desportiva e sem união. As razões de um percurso que chega ao fim

Não chegou lá. Mas também não quebrou o enguiço das finais (quatro) perdidas na qualidade de treinador. Nos minutos de descontos (foram dados seis), Ricardo Horta aproveitou um ressalto e, dentro da área, atirou para as redes portistas e colocou um ponto final na final da Taça da Liga.

Na sétima final entre os dois clubes do norte de Portugal, e que envolveu até uma final europeia (Liga Europa), o Braga, que havia ganho a Taça de Portugal, em 2016, soma a segunda Taça da Liga no seu historial, depois da primeira conquistada, em 2013. A tal que tinha Rúben Amorim, como jogador e José Peseiro, como treinador.

Wilson Eduardo, capitão do Braga, levantou o troféu com força. E no final da partida, Sérgio Conceição, atirou, com estrondo, uma declaração na flash interview da Sport TV: “É difícil trabalhar em determinadas condições. No primeiro sem reforços e sem dinheiro. No segundo, falta de verdade desportiva. E este ano sem união dentro do clube. Fica difícil... Neste momento o meu lugar está à disposição do presidente”.

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