O desporto sempre foi feito de rivalidades e muito raramente houve unanimidade em relação a quem seria o melhor numa determinada modalidade. Num mundo onde o futebol é o desporto predominante, as discussões entre Pelé e Maradona e Messi e Ronaldo fizeram correr tinta nos jornais e geraram posts e reações em redes sociais e blogues. Uns terão argumentos para justificar o porquê de um ser o melhor de todos os tempos, outros terão uma lista de razões para o refutar e apoiarão o outro. A discórdia é uma condição inerente do futebol. No final do dia, a equipa que alguém apoia ou o seu país de origem levarão a posições diferentes em temas como “Quem é o melhor?” e “Se o lance foi falta ou não?”.

Contudo, existem alguns desportos que, por alguma razão, se torna mais fácil identificar “o melhor”. Na natação, Michael Phelps é unanimemente considerado o melhor atleta de todos os tempos pelas 23 medalhas de ouro olímpicas conquistadas durante a sua carreira, feito de que nenhum outro nadador se aproximou. No basquetebol, os seis campeonatos conquistados por Michael Jordan com os Chicago Bulls durante a década de 90, levaram a que este atingisse o topo da hierarquia. Apesar da carreira de Kobe Bryant com os Los Angeles Lakers ou, atualmente, com a performance de Lebron James, os fãs continuam a considerar Jordan o GOAT (Greatest of All Time). No atletismo, Usain Bolt, o sprinter jamaicano, é inevitavelmente o maior nome da modalidade, não só pelo seu carisma, mas também pelos três recordes do mundo que detém (dois individuais nos 100m e 200m e outro por equipas nos 4x100m).

Mas, nos últimos dias, não encontramos exemplo de maior unanimidade do que Roger Federer, que com a vitória no torneio de Wimbledon, conquistou o seu 19º Grand Slam, reforçando assim a sua posição como recordista de torneios da categoria mais importante do ténis.

O ténis tem vivido uma “Era de Ouro” na última década, com o aparecimento dos Big 4 – Federer, Nadal, Djokovic e Murray – que, neste período, foram todos líderes do ranking mundial e conquistaram diversos Grand Slams. Nas últimas 40 edições dos principais torneios ATP, estes atletas conquistaram 35, marcando uma predominância como nunca antes se tinha visto. Talvez por isso, o caso de Federer seja tão especial.

Phelps acabou a carreira ainda no topo, adicionando mais medalhas olímpicas ao seu currículo, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016. Jordan retirou-se com a conquista do último campeonato pelos Chicago Bulls em 1998 (apesar de ainda ter regressado em 2001 para completar mais duas épocas pelos Washington Wizards). Relativamente a Bolt, ainda não se sabe se irá participar ou não nos próximos Jogos, mas caso não o faça, também terminaria a carreira no topo da modalidade. Federer, por seu lado, após um período de domínio, teve de observar os seus três maiores rivais a melhorarem de ano para ano, até o ultrapassarem na hierarquia mundial e começarem a conquistar os torneios que este outrora conquistara.

Entre 2004 e 2009, Federer venceu 14 torneios do Grand Slam em 24 possíveis e passou 237 semanas seguidas no topo do ranking mundial – um recorde que ainda se mantém atualmente. Aos 28 anos, “Roger” era a maior figura da modalidade e um dos melhores atletas do mundo. Porém, o período que se seguiu, apesar de não ter diminuído a adoração dos fãs, nem ter afetado a sua atração para patrocinadores, não foi o desejado desportivamente. Entre 2010 e 2016, Federer viu os seus maiores adversários vencerem 24 de 28 torneios do Grand Slam tendo este vencido apenas dois – o último em 2012. Embora, tenha conquistado a Taça Davis pela Suíça e a medalha Olímpica ao lado de Stan Wawrinka, em pares, nos Jogos de Londres, Federer foi enfrentando cada vez mais problemas a nível exibicional, mas também físicos.

À entrada para a temporada de 2017, Federer contava com 35 anos e era o 17º da hierarquia mundial. Nem os seus maiores fãs, nem os peritos da modalidade contavam com um regresso aos seus anos gloriosos, achando que mais cedo ou mais tarde a sua carreira chegaria ao fim. O seu legado já era suficiente para ser considerado o melhor de todos os tempos e a ideia seria continuar a tomar presença nos torneios mais importantes até que decidisse pendurar a raquete.

Como sabemos, Federer decidiu contrariar a opinião geral. Primeiro, começou o ano a vencer o Open da Austrália, derrotando Rafael Nadal na final em cinco sets. Depois conquistou dois Masters em Indian Wells e Miami, confirmando que estava de regresso à melhor forma. No entanto, voltar a melhor forma significou sacrificar a temporada de terra batida, de modo a descansar o seu corpo e preparar-se para Wimbledon, o seu torneio favorito e o qual já tinha vencido por sete vezes. Essa escolha acabou por ser a acertada e Federer apresentou-se no seu melhor em relva, não perdendo qualquer set durante todo o torneio, levando no domingo mais um troféu para casa.

A “ressurreição” de Roger Federer não o tornou o melhor de sempre. Ele já o seria mesmo que não tivesse a temporada que está a decorrer. Mas relembrou o mundo do desporto de mais um caso de unanimidade e de que a idade é, cada vez mais, apenas um número. Mostrou aqueles que já o colocavam de fora, que podem contar com ele para os próximos tempos e para a conquista de mais torneios. Quanto ao resto, mantém-se intacto. A simpatia, a humildade, a generosidade e a graciosidade quer dentro quer fora de campo irão manter-se, mesmo quando o tenista suíço “finalmente” escolher dizer adeus.

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