Vale uma palavrinha, craque? Ou vai antes uma dança com a Cinderela? Não digo a Cinderela da história da Disney, ainda que esta seja roliça e singela, mas a Cinderela desta fase da Liga dos Campeões, a Atalanta. Pelo menos, é assim que a batizam no teu Brasil. De Cinderela. E, é caso para dizer, que se uma dança com sapatinho, a outra fá-lo com chuteiras. Uma encanta um maravilhoso príncipe, outra apaixona os amantes da bola.

Porquê Cinderela? Basicamente por tudo o que a envolve. Por ser um clube que foge ao círculo dos suspeitos do costume, por vir da zona mais afetada pela Covid-19 em Itália. Pelos golos, pelo futebol atacante, pelo facto de jogar não só para a táctica, mas também para o adepto que vê o jogo pelo jogo, que se deleita a ver o conjunto de Gian Piero Gasperini. Atacam sem medo, sem pudor, só vendo baliza. Os críticos dizem que o idílico não chega para chegar ao título, mas eu cá acredito que chega para pelo menos romantizar a fantasia. E isso tem de valer para alguma coisa, certo? 

De onde vêm e o que andaram para aqui chegar:

Clube: Paris Saint-Germain Football Club

Cidade / País: Paris, França

Palmarés na Liga dos Campeões: Nunca venceu. Em 1994/1995 chegou às meias finais, mas desde a entrada nos anos 2000 e dos milhões de Nasser Al-Khelaifi, nunca foi além dos quartos de final.

Percurso: 

Fase de grupos: 1º lugar, Grupo A

  • PSG vs. Real Madrid: 2-2, 3-0
  • PSG vs. Galatasaray: 5-0, 1-0
  • PSG vs. Club Brugge: 1-0, 5-0

Oitavos de final:

  • PSG vs. Dortmund: 1-2, 2-0

Não estou com isto a querer dizer que os teus colegas não têm talento suficiente para vencer a Atalanta, atual porta estandarte de Bergamo — é mais do que óbvio que sim. Hélas, esta época ganharam tudo o que havia para ganhar: liga, taça, supertaça e taça da liga! Só que é preciso cuidado com quem marca quase 100 golos no difícil campeonato italiano. Mais perigosos são se nos lembrarmos que se trata de um só jogo. Não há duas mãos, só uma, ao jeito mata-mata.

Bom, mas a fazer jus ao que se escreve sobre o treinador Tuchel, já deves estar cansado de saber disso.

A história de um jogo de futebol é simples. Quem marcar mais do que outro, ganha. Entre PSG e Atalanta, espero ver festival de gols. Só que, imagino, a pressão seja imensa. Poucos devem sentir o que é ter milhões a observar cada passo como tu — ou você, né? Eu sei que não imagino. Há muito em jogo. Especialmente agora sem o teu parceiro Mbappé, o Flash dos relvados. 

O Rafael Reis da UOL fez as contas. Nos 19 jogos sem a sua companhia, estiveste ligado a 20 golos da equipa: fizeste a rede dançar 13 vezes e acumulaste sete assistências. É facto de que a produtividade com o Flash é outra, mas ninguém pode falar aqui em falta de contributo. Quem o fizer, só pode ter demasiado amor ao vexame desenfreado e passa demasiado tempo no Twitter a mandar laracha ao invés de ver a bola rolar.

No entanto, há que ser honesto e dar a mão à palmatória: ao nível da Liga dos Campeões as coisas não te têm corrido bem. Na primeira temporada ao serviço do PSG, o quinto metatarso do pé direito afastou-te dos oitavos de final frente ao Real Madrid. O desfecho? Dois jogos, duas derrotas. No ano seguinte, o quinto metatarso voltou a fazer das suas, e, sem o teu contributo, o Manchester United conseguiu ir a Paris surpreender num dia em que tudo parecia garantido para avançar. Porém, este ano tudo para ser diferente. 

Nem que seja pelo pacto que o Verrati disse que fizeram na turma do PSG: é para dar tudo e chegar o mais longe possível. Em março, deste um cheirinho daquilo que pode vir. O Dortmund ganhou (2-1) na primeira mão na Alemanha, mas estavas lá para marcar o golo "fora". O adversário esteve por cima, o golo caiu do céu, mas isso pouco ou nada importa. O Hakimi ficou a dormir à baliza e tu aproveitaste para marcar. Na segunda mão, abriste o placar aos 28’ no primeiro tempo. Até fizeste pirraça do Haaland e meditaste um pouco. Talvez porque tenhas sentido que um golo de cabeça valia a pena. 

Tudo isto para dizer que não creio que os teus colegas deixem que se repita um ano incomum como o de 2003/2004, em que o Porto, Mónaco e Deportivo atingiram as meias. Era giro, gostava, pois aprecio qualquer luta de improváveis como qualquer outro. Porém, não creio que o Icardi fique em branco ou o Tuchel não tenha a lição bem estudada. Mais ainda quando o Atalanta joga sem o guardião Pierluigi Gollini e o virtuoso pé esquerdo de Josip Ilicic. Ah! E já que o tema é um pé esquerdo… que tal uma palavrinha com o Dí Maria sobre o palco de hoje?

Por cá, para adepto encarnado, era o "Di" ou "Di Magia". Magrito, esguio, mas veloz e ágil como uma chita. Conhece bem a Luz e o seu tapete verde — ou não tivesse vestido as cores do Benfica durante 124 jogos entre 2007-10. Jogava com o 20 nas costas. Mas, de virtuoso para fantasista, pede-lhe para que te conte sobre aquele golo a 17 de dezembro de 2009, contra o AEK de Atenas, a contar para a Liga Europa. Acredito bem que ele nem se lembre de que o Benfica ganhou 2-1, mas aposto que não esquece o minuto 73. Falo do golo de rabona, claro.

Evoco este lance em concreto porque o considero genial. O Di mostrou que o palco desta noite está pronto para receber magia e os teus Les Rouge et Bleu são favoritos. Agora, cabe ao teu virtuosismo demonstrar aquela técnica toda espelhada nos treinos no Algarve, com o Herrera, que encantou quem viu.

Ou seja, e já em jeito de rematar a carta, coloco a questão: como é que vai ser? Hora de calar crítico que evoca sempre a falta de consistência e os motivos ex-futebol para a consolidação do sucesso ou será mais um ano em que a orelhuda vai para outras paragens?