A 'Copa' juntou-os: um começou em 1978, outro em 1982 e outro em 1986, mas desde 1994 que não se separam. Estão na Rússia, onde desesperam com a língua, transportes, hospedagem e com os horários de fecho da restauração. Hoje, têm bilhete para o jogo com a Bélgica, em Kazan, mas vão vê-lo a 800 quilómetros de distância pela televisão, em Moscovo. Por causa dos mexicanos, dizem.

"Tenho 11 Copas (Mundiais). Comecei em 1978, na Argentina". É este o cartão-de-visita de Braime, um brasileiro de 72 anos que viajou para a Rússia para ver o Brasil em mais uma competição mundial de futebol.

Numa pausa para almoço, sentado numa esplanada na Nokol'skaya, uma rua movimentada de Moscovo repleta de restauração e comércio, e que dá acesso à Praça Vermelha, faz-se acompanhar de mais dois amigos brasileiros.

Marolo interrompe o início de conversa e apresenta-se. "Eu tenho nove Copas. Comecei no México (1986)", informa. René é a terceira personagem desta história. Começou a andar atrás da “canarinha” em 1982, Mundial realizado em Espanha que é ainda hoje considerado como um dos melhores campeonatos da história. "Tenho sete Copas do Mundo", diz na primeira apresentação.

Braime é natural do Ceará, Fortaleza. Marolo, 63 anos ("meia três", como faz questão de dizer), nasceu em Ribeirão Preto, São Paulo e René, 54 anos, é carioca (Rio de Janeiro).

Três cidadãos brasileiros, com idades diferentes (dos 54 aos 72 anos), de cidades e Estados diferentes, juntos na Rússia. Impõe-se uma pergunta: como é que se conheceram? "Das Copas", atira René. "O meu pai, que Deus o tem (morreu em 2010), tinha 12 Copas. Ele conhecia o Braime, que encontrou o meu pai em 1978 (Mundial da Argentina)", acrescenta, mostrando a fotografia do progenitor, onde está bem vincado o número 12.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

"Em 1994 encontrámo-nos e temos andado juntos desde então. Sempre tem brasileiros que se reúnem nas Copas. Uns vão ficando pelo caminho porque Deus os leva...", remata Marolo, olhando para o céu.

Na viagem pelos mundiais colecionados, Argentina 1978 e Espanha 1982 merecem o destaque inicial.

Em relação ao primeiro, "estava tudo naquela euforia e não conseguimos nada. O Kempes deu o campeonato aos argentinos", recorda Braime. "Na sequência, em 1982, onde tínhamos um grande time com Zico, Falcão... aquela turma foi uma das melhores em qualidade e perdemos porque o Paolo Rossi (avançado italiano) mandou-nos mais cedo para casa", continuou. "O melhor futebol do mundo e não ganhou. Portugal com o maior fenómeno do futebol mundial e não ganhou agora. Faz parte", ressalva René.

"Tive a oportunidade de ver duas vezes o Brasil campeão do mundo. Nos EUA e no Japão", frisa Marolo. "Uma felicidade, uma felicidade...", interrompe Braime. "Nos EUA quando não acreditavam que poderíamos ser, Dunga, o capitão e Romário, e Ronaldo o fenómeno, em 2002. E fomos Penta", continua. "Vamos torcer para levar o hexa", suspira. "Basta os meninos quererem", garante.

Marolo admite ser "difícil falar qual a melhor ou pior (competição), porque todas elas têm as suas particularidades". Assume sentir-se "frustrado de não ter ido a 1982", na tal prova realizada em Espanha e "em que todos falam que foi uma das melhores", sublinha.

"Em Samara, às 10 horas (22h00) acaba tudo. E tem jogo que acaba às onze"

Os três amigos estão na Rússia desde o dia 12 de junho. "A logística está complicada para brasileiro ir ver os jogos. Não tem hotel onde ficar", lamenta René. Mas há sempre uma solução por perto.

"Brasileiro é muito solidário. Um ajuda o outro. Se não tem onde dormir, há sempre um colchão, cobertor ou espaço no hotel", chuta Marolo. "Aconteceu comigo em Samara. Dormi no chão num quarto", recorda René.

A comunicação foi outro dos obstáculos com que se deparam. "Um amigo meu esteve em Saransk dez dias. Nem uma pessoa fala inglês", descreve Braime.

A barreira linguística é um problema que se avoluma quando toca à alimentação. "Quando chega num restaurante que tem foto, tudo bem. Você vê o macarrão, arroz, frango, drinks, bebidas, sopa... Tem mais ou menos a ideia pela fotografia e consegue escolher", relata Marolo. "Sem foto fica meio complicado. Fica difícil. Ou então espera e aponta para o prato do lado e diz que quer aquilo ali", exemplifica e aponta para a mesa ao lado.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

"Na Coreia foi idêntico. Estávamos sentados e cada dia um pedia um prato, ninguém entendia aquelas letrinhas. Apontávamos no papel para o dia seguinte: o teu é esparguete, o teu é carne, o teu é frango...", recorda Braime.

"Em Samara, às 10 horas (22h00) acaba tudo. E tem jogo que acaba às onze", acrescenta René. "E outra coisa. Quer comemorar e acaba a cerveja", Braime quase que reza a Deus com as mãos juntas coladas à face. "E não é só bebida, é comida. Também não tem", queixa-se Marolo. "Você fica o dia todo stressado, a comunicação é péssima".

Já sobre quem tem que lidar com os adeptos, "tem alguns que não são educados. Pede um gelo e diz que não tem. Como é que eu bebo um Mojito sem gelo. Não pode, né?", atira Braime.

"Não tem que ter Copa onde não há tradição do futebol. Brasil México, Portugal, Espanha, Inglaterra e Alemanha têm tradição, Ligas fortes e estádios", dita Braime.

Ver o jogo do Brasil-Bélgica na televisão por causa dos mexicanos

As lamentações não se ficam por aqui. O Brasil joga hoje em Kazan, contra a Bélgica, na partida dos quartos-de-final do Mundial da Rússia. Um dia antes, os três amigos brasileiros, Braime, Marolo e René estavam no coração de Moscovo.

"Não há transporte, não há hotel, não se consegue ir, nem tem onde ficar. Nem pagando", diz René, em tom zangado. "Para ir ver o jogo a passagem de avião para Kazan são 600 dólares por cada perna", lamenta.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

"Os mexicanos reservaram tudo. Foram para casa só que não cancelaram as reservas e a vaga continua deles e o trem vai vazio", informa Braime. "Se tem ingresso (para a partida) tem que ter maneira de garantir que vai assistir ao jogo", refila.

Sem alternativas para ver ao vivo e a cores, não lhes resta outra saída se não ver o jogo pela televisão a 800 quilómetros de distância. "Vamos ver pelo telão, no shopping, muito confortavelmente", informa Marolo, sorrindo.

"Vamos embora na segunda-feira", avisa. "Estamos aqui desde dia 12 e estamos cansados da locomoção e da (dificuldade de) comunicação", continua Marolo.

Eles têm regresso marcado, mas a sua expectativa é ver a seleção brasileira chegar às meias. A canarinha alinha esta sexta-feira às 19h00 (hora de Lisboa) frente à "geração de ouro" da Bélgica. Quem passar terá a França pela frente, num encontro marcado para São Petersburgo no dia 10 de julho.

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