Floyd "Money" Mayweather Jr. A própria alcunha diz tudo sobre aquilo que o motiva no dia-a-dia: dinheiro. Se o seu nome está envolvido em algo, é certo que o sinal do cifrão está lado a lado ao apelido. E foi esse apelido que ajudou a encher, na noite de passagem de ano, a 31 de dezembro, no evento RIZE 14, os 37 mil lugares disponíveis da Super Arena de Saitama, no Japão. Mas vamos por partes. 

Desde o começo que Floyd Mayweather avisou sobre o que se iria passar naquela noite: entretenimento. Nem mais, nem menos. Tratou-se de uma exibição para dar espetáculo, não para adicionar mais um capítulo de sucesso no seu legado no mundo do boxe. E, apesar do regresso, deixou a ressalva: "Estou retirado". 

Aos 41 anos e longe da forma física que ostentava dentro dos ringues, Floyd precisou apenas de 139 segundos para derrubar Tenshin Nasukawa, a sensação do kickboxing japonês, de apenas 20 anos. Quer isto dizer que, tudo somado, o espetáculo durou pouco mais de dois minutos, tendo o combate terminado quando a equipa do atleta nipónico atirou a toalha ao chão, o que levou a que Nasukawa saísse em lágrimas.

Foi um combate curto, daqueles em que apenas um dos intervenientes se mostrou em jeito demolidor. Porém, apesar do domínio que originou o milionário desfecho, nem todos ficaram impressionados com a atração principal do combate, que viajou até ao Japão. O britânico Amir Khan, antigo campeão de boxe, por exemplo, disse que tudo "não passou de uma brincadeira". A ESPN fala mesmo numa apresentação teatral em que tudo pareceu encenado, levando a que o norte-americano fosse pago a peso de ouro para fazer "praticamente nada". É que fazendo jus ao que o próprio Floyd escreveu nas suas redes sociais, este terá recebido 9 milhões de dólares só para aparecer num evento que duraria no máximo 9 minutos — mas que durou apenas dois.

Porém, ainda que estivesse para receber quase 1 milhão por minuto, tal não o impediu de chegar mais de 2 horas atrasado à Super Arena de Saitama, cidade periférica a norte de Tóquio e que fica a meia hora de distância da capital japonesa. (E, não. Não há gralha. A cidade tem o nome do principal protagonista da manga One Punch-Man.) O tempo bem que ia passando, mas sinal de Mayweather... nem vê-lo. E nestas coisas já se sabe: os rumores começaram logo a vir à tona. Primeiro, ia chegar atrasado; depois, já nem ia aparecer. Foi um assunto que fez tremer a organização (que alegadamente não conseguia saber do seu paradeiro) até "Money" avisar nas suas redes sociais que o evento ia passar nos ecrãs do seu clube de striptease. Fight on, portanto.

A justificação oficial na imprensa nipónica era de que se tinha atrasado porque estava numa festa. Ora, quer fosse essa realidade ou não, a verdade é que Mayweather chegou à arena com espírito de quem tinha vindo efetivamente de uma. Ainda que fosse um evento de exibição, a descontração com que abraçou tudo aquilo que antecedeu os 140 segundos de trabalho-meio-a-brincar trouxe desconfiança aos amantes do boxe e a todos aqueles que gostam de seriedade e respeito em torno dos desportos de combate, especialmente naquele canto do globo. Tocaram os hinos, o filho de Mayweather entrou ao seu lado a cantar, e norte-americano apresentou-se de máscara. Já o boné com a inscrição "U$A" só saiu quando já se encontrava sozinho com o adversário no ringue.

"Foi tudo em prol do entretenimento. Divertimo-nos", resumiu no final Mayweather. É que ao contrário do que aconteceu com McGregor e outros adversários que enfrentou ao longo na sua carreira, Floyd era maior que o seu oponente e não teve dificuldade em mandar por três vezes Nasukawa ao chão antes do combate ser oficialmente parado pelo canto do japonês. Praticamente sem ser tocado, nocauteou o kickboxer com uma esquerda seguida de um uppercut e outra direita no topo da cabeça. O árbitro Kenny Bayless, que curiosamente esteve em vários encontros "à séria" de Floyd, parou o combate aos 139 segundos.

A luta foi televisionada no Japão e esteve disponível em todo o globo através do método pay per view (conteúdos que os espetadores pagam para assistir, na TV ou online). Isto, excetuando no continente norte-americano, território em que Mayweather aparentemente não quis que o combate fosse visto — sem ser no seu clube de striptease, claro. Mas o certo é que os dois minutos de combate, o seu boné e os calções com a sua cara numa perna e notas de 100 dólares na outra, correram o mundo. Assim como as verbas que ganhou por parcas horas de trabalho.

Nasukawa recolheu ao balneário com ajuda de dois elementos da equipa — um em cada braço, com a cara tapada — enquanto Mayweather desfrutava do "entretenimento" no centro do ringue, sítio que não pisava desde agosto de 2017, quando defrontou a estrela maior da UFC, Conor McGregor, naquele que foi o segundo combate mais lucrativo da história (o primeiro foi a luta contra o filipino Manny Pacquiao, em 2015).

"Quero agradecer ao Tenshin. Foi tudo pelo entretenimento. Isto não vai para os registos. Isto não vai para os registos do Tenshin, que ainda é invicto. Eu ainda sou invicto. Isto foi só entretenimento para as pessoas", sentenciou.

Mas como é que chegamos até aqui?

O "fogo-de-artificio" para se entrar em 2019 em grande estilo estava a ser preparado há uns meses. Se no início das conversações ainda não eram conhecidos os moldes da luta entre o pugilista norte-americano Floyd Jr. e o ‘kickboxer’ japonês Tenshin Nasukawa, as negociações ditaram que a exibição iria decorrer com as regras do boxe.

Floyd Mayweather, aos 41 anos, mantém-se invencível na carreira com um registo de 50-0 em boxe, tendo no último combate derrotado o irlandês Conor McGregor (lutador irlandês que trocou o octógono pelo ringue para o enfrentar), em Las Vegas. Era a sua última luta, "de certeza", disse. A 27 de agosto de 2017, em mais um Combate do Século, justificava esta afirmação: tinha "escolhido o parceiro certo para a última dança". 

Tenshin Nasukawa, 20 anos, apresentou-se com um registo de 27-0 como 'kickboxer' e 4-0 em MMA. Quando o combate foi anunciado, em novembro, o jovem disse que enfrentar o norte-americano lhe iria permitir alcançar uma grande visibilidade e que iria arrancar bons números a nível de audiência.

Importa explicar que, tratando-se de um evento de exibição, desportivamente falando, foi um combate a feijões e que não mexeu com o registo profissional dos dois atletas. Acontecesse o que acontecesse, quer perdessem ou ganhassem, qualquer um dos lutadores iria continuar com o seu percurso imaculado e com a semiologia do número "0". Ou seja, iriam continuar a ostentar um currículo sem derrotas anexado ao seu nome.

O evento foi organizado pela promotora (RIZIN) de Nobuyuki Sakakibara, ex-presidente da Pride (uma organização japonesa de artes marciais que foi a maior promotora de MMA do mundo, antes de ser comprada pelo UFC, em 2006). E convém deixar algumas nuances sobre aquilo que estava em cima da mesa (ou do ringue) para a última noite de 2018 — porque não foi um típico e mero combate de boxe, se é que isso é possível quando um dos protagonistas é Mayweather Jr. 

Ora, contratualmente, aquilo que foi acordado foi o seguinte: os lutadores podiam pesar no máximo 66 kg, o combate iria ter apenas 3 assaltos de 3 minutos, não haviam juízes para contar os pontos de cada "round" e Floyd iria combater com as luvas da organização. (Esta última, porém, não chegou acontecer porque o "Pretty Boy" — outra alcunha do norte-americano — combateu com a marca que o patrocina).

Mais: tal como aconteceu no combate com o lutador de MMA Conor McGregor, 16 meses antes, "Money" teve um adversário de outro desporto de combate saltar para o ringue sujeito às regras do boxe para o defrontar.

Em novembro, a japonesa RIZIN fez a apresentação oficial do evento. No entanto, deu poucas explicações sobre as condições em que este se iria realizar. Tanto assim foi que Mayweather chegou a publicar nas suas redes sociais uma fotografia com luvas de MMA e o mundo dos desportos de combate ficou num autêntico estado de frenesim. Seria mesmo verdade que, após vários meses de especulações e vídeos publicados pelo próprio num octógono, que um dos maiores boxers de todos os tempos ia fazer a transição para o mundo das artes marciais mistas? Qual seria o seu plano? Combater novamente com McGregor? Combater com o lutador russo de MMA Khabib Nurmagomedov (que entretanto já o provocou uma ou outra vez e que quer provar "quem é o maior de todos os tempos" num combate entre invictos), que venceu de forma esclarecedora McGregor em outubro de 2018? Se esse fosse o plano num futuro próximo, combater com um nome menos popular no outro canto do planeta parecia um óptimo começo. Mas não.

Apenas dias depois, já em solo norte-americano, "Money" utilizou os mesmos canais para dar a entender que "nunca tinha concordado" em participar naquele combate com as regras que estavam a ser vinculadas pela imprensa. E pensou-se que o evento já não tinha condições para andar para a frente. Porém, a RIZIN não desistiu e oficializou o combate a meio de novembro. "Esta é uma maneira excelente de eu ir lá e dar às pessoas algum entretenimento", disse na altura Mayweather. "É um combate de exibição, mas que me permite fazer algo diferente. Adoro competir contra lutadores de todos os estilos de vida, como nos meus dias de lutador amador. Tudo se resume a entretenimento. Nove minutos de entretenimento. Vai ser incrível", afirmou.

Mayweather e Pacquiao
Floyd Mayweather (à esquerda) e Manny Pacquiao (à direita) durante uma conferência de imprensa no MGM Gran Casino em Las Vegas, nos EUA, em abril de 2015. créditos: EPA/MICHAEL NELSON

Muitos milhões depois, o que se segue?

Em setembro de 2018, Mayweather afirmou que tinha planos para sair (novamente) da reforma e que tinha intenções de dar uma desforra a Pacquiao, naquele que seria um rematch de um combate que deixou muitos aficionados do boxe insatisfeitos com o desfeito — quer pela decisão final dos juízes, quer pelo comportamento de Floyd, que muitos acusam de ter "fugido" durante grande parte do combate. No entanto, embora Mayweather ainda que seja "um tiro no escuro" que envolve um sem número de negociações morosas, é certo que isto não acontecerá — se é que acontecerá de todo — até ao verão, uma vez que Pacquiao tem combate agendado contra Adrien Broner já no próximo dia 19 de janeiro, em Las Vegas.

Porém, a julgar pelas últimas declarações de Mayweather, no desfecho da exibição da Passagem de Ano, o norte-americano está "reformado" e não tem planos para regressar à séria aos ringues. Segundo ele, as luvas estão penduradas.

"Continuo retirado. Não tenho intenções de voltar ao boxe. Mas, como sabem, fiz isto para entreter os fãs no Japão. Quiseram fazer isto, pelo que eu disse 'porque não'. Portanto, mais uma vez, eu ainda estou aposentado. Continuo 50-0", disse antes de deixar rasgados elogios ao adversário. "Quero que os fãs de todo o mundo apoiem Tenshin. É um rapaz fantástico, um excelente lutador, um grande campeão", revelou.

Nasukawa começou a sua carreira profissional aos 16 anos e a sua popularidade tem aumentado no Japão graças ao seu recorde invicto. Porém, tem feito carreira na categoria de 55 kg enquanto Mayweather fez a maioria do ser percurso sempre a rondar os 68 kg. E isso — e a qualidade no boxe — fez a diferença na passada segunda-feira.

Mayweather, retirado desde setembro de 2015 após lutar contra Andre Berto, regressou dois anos depois ao ringue para continuar invicto e chegar às 50 vitórias, quando derrotou por nocaute técnico McGregor ao décimo assalto. Contudo, é um homem de negócios. E apesar de "reformado" e com luvas penduradas, já se sabe que, se aparecer a proposta certa, pode encontrar o caminho de volta ao ringue. Na noite de 31 de dezembro chegou atrasado, lutou por 2 minutos e houve quem pagasse para ver aquilo que muitos consideraram ser uma "farsa" — o próprio admitiu que não treinou arduamente para o evento porque aguentava três assaltos de três minutos "a dormir". E tal como pagaram para ver a luta com o McGregor, tudo indica que muitos vão pagar para ver um novo combate com Pacquiao.

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