O que é que Diego Alves, guarda-redes, Pablo Marí, defesa, Gerson, médio, e Gabriel Barbosa, avançado, têm em comum? Para além de vestirem as cores do Flamengo e de se terem sagrado campeões brasileiros, une-os um passado comum, de passagem pelo futebol europeu.

O pormenor é importante porque é nele que assenta o sucesso do Mengão de Jorge Jesus. Aquando da chegada do técnico português ao Brasileirão, muitos questionaram a aposta do clube num treinador europeu, ainda para mais português, principalmente depois dos recente insucesso de Paulo Bento ao serviço do Cruzeiro (4 vitórias, 3 empates e 8 derrotas em 15 jogos no principal campeonato brasileiro). A desconfiança, contudo, é justificada e já vem de trás. Afinal de contas, só um timoneiro não-brasileiro é que conseguiu levar a taça do Brasileirão para casa: o argentino Carlos Volante no ano distante de 1959.

Além da história e da estatística - essa profeta da desgraça que apenas existe para ser contrariada -, existe uma realidade futebolística que não se pode ignorar: em relação ao futebol europeu, o brasileiro é, taticamente, mais liberal (muito mais liberal). Do outro lado do Atlântico, o talento individual continua a predominar sobre a capacidade coletiva, imperando sistemas e estratégias táticas muito básicas que, por norma, permitem aos criativos do ataque brilhar.

Contudo, bastava conhecer a carreira de ‘JJ’ para se saber que este Flamengo iria passar ao lado daquela que é a realidade brasileira. Logo nos primeiros jogos, os sinais do estilo de jogo do técnico português começaram a tornar-se visíveis com a linha defensiva subida, próxima dos dois médios, num sistema 4-4-2, a lembrar os tempos do Benfica, e as movimentações ofensivas, nas costas dos laterais adversários, a recordar os extremos do Sporting que serviam os golos a Bas Dost numa bandeja.

O futebol coletivo de Jesus estava pronto a ser servido a 19 equipas que continuavam a viver de uma ideologia quase imposta no campeonato brasileiro. Mas nenhum treinador, por mais revolucionário que seja, consegue em tão pouco tempo mudar a génese de jogo de um conjunto. Por isso é que é importante olhar para a fórmula a que o treinador português recorreu para tornar a sua metodologia real e efetiva: juntar jogadores com experiência europeia a jogadores conhecedores do futebol brasileiro. E assim nasceu este Mengão campeão.

A defesa, ou porque não se começa uma casa pelo telhado

Neste primeiro setor do terreno, habitam quatro jogadores que já passaram pelo velho continente. Na baliza, Diego Alves, que durante mais de nove anos em Espanha representou os emblemas do Almería e do Valência; do lado direito, Rafinha, antigo campeão europeu pelo Bayern Munique, e que vestiu as cores do Génova e do Schalke 04; do lado esquerdo Filipe Luís, que passou pelo Deportivo, Chelsea e Atlético de Madrid, onde conquistou duas Ligas Europa; e por último, mas não menos importante, o central Pablo Marí, resgatado pelo Flamengo ao segundo escalão do futebol espanho (Deportivo), onde jogava por empréstimo do Manchester City.

Destes quatro nomes, apenas Diego Alves se encontrava no Mengão aquando da chegada de Jesus. O português sabia que uma defesa experiente seria uma mais valia, sobretudo nos momentos de perda de bola, para conseguir anular o talento descontrolado dos jogadores criativos brasileiros, que tantas vezes começam com a bola nos pés no seu meio-campo e só param quando a colocam no fundo da baliza do adversário. Para uma eficácia maior, JJ aliou à cultura europeia um nome experiente do Brasileirão, de seu nome Rodrigo Caio, central que durante toda a sua carreira apenas tinha representado o São Paulo antes de se mudar para o Maracanã.

É esta a base de tudo o resto que o Flamengo foi e poderia ser.

O ‘miolo’, ou porque “no futebol uma grama de tecido cerebral pesa mais que cem gramas de músculo”

A frase entre aspas pertence a Horst Wein. O nome pode soar estranho e se o tentar pronunciar pode acabar num inglês para mau vinho (worst wine), mas este antigo jogador e treinador de hóquei em campo, um dos grandes nomes do futebol de formação, chama a atenção para algo que não podia ser mais atual no futebol moderno: a capacidade e necessidade de ter jogadores inteligentes e capazes de ler e estar no jogo.

O dito tanto é fundamental num modelo de jogo com uma forte dimensão tática, permitindo ao jogador integrar as ideias do treinador, como num jogo mais liberal, em que perante as movimentações anárquicas adversárias "uma grama de tecido cerebral" pode acabar por ajudar a decidir melhor.

É no meio campo que se encontram muitos dos pensadores de jogo e neste Flamengo de Jorge Jesus a regra não poderia ser outra. Willian Arão e Gerson são os médio-defensivos responsáveis para, com os centrais, travar as iniciativas de jogo adversárias, um deles mais junto aos avançados da equipa contrária (Arão) e o outro perto da linha de médios (Gerson). Depois há Éverton Ribeiro e De Arrascaeta, o extremo e o maestro que dão vida às ofensivas do Mengão e que, não tendo experiência no futebol europeu, são "veteranos" do Brasileirão e jogadores internacionais pelos respetivos países.

De Arrascaeta, criativo de excelência, nunca jogou fora da América do Sul, tal como Éverton, que apenas deixou o Brasil para representar o Al Ahli durante três temporadas, jogadores cujas funções são encontrar (e abrir) espaços entrelinhas, que nunca pararam de fermentar a criatividade. Já Gerson, talvez o principal pêndulo do Mengão de Jesus: saído do Fluminense para a Roma em 2016, o médio voltou ao Brasil depois de duas épocas na capital italiana e uma, por empréstimo, na Fiorentina, para ser o motor da equipa de Jorge Jesus, conhecido por potenciar os seus "8's" em cada equipa por onde passa (Enzo Pérez, Adrien...). Ao balanço perfeito que JJ conseguiu no Flamengo (entre jogadores com experiência na Europa e atletas rodados no campeonato brasileiro), pode - e deve -, somar-se ainda a experiência de Diego.

Saído do Santos em 2004 (num conjunto onde pontificavam nomes como o de Elano ou Robinho) para ingressar num FC Porto acabado de ganhar a Liga dos Campeões, não se pode dizer que o internacional brasileiro tenha sido feliz no Dragão. Contudo, depois da cidade Invicta, o médio criativo passou por Werder Bremen, Juventus, Wolfsburgo, Atlético Madrid e Fenerbahce, antes de regressar ao futebol brasileiro e ingressar no Flamengo em 2016.

A frente de ataque, ou o que nos leva aos estádios

No futebol, uma defesa ou um corte podem ser tão - ou mais - importantes que um golo. Mas, por norma, não é isso que faz um adepto vibrar num estádio. E no caso do Mengão, o que faz o Maracanã 'ir abaixo' são os golos.

Na frente, o Flamengo tem como duas grandes estrelas dois atletas que já passaram pelo futebol europeu: Bruno Henrique e Gabriel Barbosa. Juntos, somam um total de 40 golos no Brasileirão.

Bruno Henrique passou pelo Wolfsburgo de 2015 a 2016 e Gabigol, talvez a principal estrela deste Flamengo de JJ, é provavelmente o nome mais conhecido dos portugueses, pela sua passagem recente (2017) e sem sucesso (um golo em cinco jogos) pelo Benfica, ele que tinha sido contratado pelo Inter de Milão no ano anterior (10 jogos e um golo pelo nerazzurri).

Mas o regresso ao Brasil fez bem a Gabigol: Gabriel Barbosa ultrapassou Zico como melhor marcador do Mengão numa só temporada. Atualmente com 22 golos, o avançado ultrapassou a lenda do futebol brasileiro e está a dois golos de passar Jonas - sim, esse - (Grémio, 2010) e Borges (Santos, 2011) que com 23 golos cada detêm a melhor marca de sempre de um jogador no atual Brasileirão.

Ambos são o balanço entre criatividade, capacidade tática de encontrar o espaço entre as linhas adversárias e, claro está, capacidade de transformar tudo isto em golos. São o espelho do futebol espetáculo de Jorge Jesus, são a cereja no topo do bolo, são a capacidade individual tão característica do futebol brasileiro que o técnico não negligenciou nem procurou abafar, o corolário de um futebol-espetáculo assente na experiência e no trabalho coletivo.

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