Estávamos no final de 2000, José Mourinho era o treinador do SL Benfica, a anos de imaginar que se tornaria mítica entre os fóruns de adeptos de futebol uma certa conferência de imprensa que terminava com a frase: “Isto é o Sport Lisboa e Benfica, não é o PAOK de Salónica”.

Aquele que viria a ser conhecido como Special One dava os primeiros passos na carreira e começava a mostrar ao mundo aquilo que podíamos esperar ao nível de atitude do jovem Mourinho. Uma desavença com o avançado egípcio Abdel Sabry tinha sido resolvida de forma fria e direta durante longos minutos em que o técnico português discriminou os defeitos do jogador enquanto profissional, incluindo um episódio em que este demorou oito minutos a colocar as caneleiras para entrar em campo. A expressão perpetuaria-se no léxico do desporto rei e separava as duas equipas, não tivesse Sabry vindo do clube grego antes de chegar ao Benfica.

Hoje, depois da derrota por 2-1 no estádio Toumba, um projeto milionário, teoricamente muito mais forte, com processos táticos muito mais elaborados, caiu perante um PAOK menos bonito, mas eficaz e cirúrgico guiado pelo treinador português Abel Ferreira e — porque não — pelo sérvio Andrija Zivkovic; hoje um dos nomes dos marcadores da equipa grega neste encontro, na semana passada um dos nomes na ficha de treino de Jorge Jesus dos encarnados; é caso para inverter a frase: “Isto é o PAOK Salónica, não é o Sport Lisboa e Benfica”.

Se a expressão há 20 anos serviu para espelhar a diferença e a exigência dos dois emblemas, distinta e incompreendida por Sabry, é justo transpor as exigências e a realidade de cada um dos clubes aos dias de hoje. O PAOK, na primeira época de Abel na Grécia, ficou em segundo lugar num campeonato que foi vencido pelo Olympiacos, orientado pelo português Pedro Martins, antigo treinador do Vitória de Guimarães, e não conseguiu ultrapassar nem os play-offs da Liga dos Campeões, nem da Liga Europa, tendo por isso tido um ano dedicado às competições caseiras. O plantel está avaliado em pouco mais de 58 milhões de euros, de acordo com o Transfermarkt, tendo os gregos gasto um milhão e seiscentos mil euros em reforços esta temporada, sendo que a maioria do novo contingente veio a custo zero, com destaque para, lá está, Zivkovic, Stefan Schwab, desvinculado do Rapid Viena, e Georgios Vrakas, proveniente da equipa de sub-19 do Nápoles.

O SL Benfica vem de uma época em que foi segundo no campeonato e finalista vencido na Taça de Portugal. No que concerne à Europa, não passou da fase de grupos da Liga dos Campeões e na Liga Europa não foi além dos dezasseis avos de final, a eliminatória para onde caiu logo após sair da liga milionária. Para inverter uma época desastrosa, contratou Jorge Jesus, treinador de legado no clube, pouco unânime entre os adeptos, mas de palmarés internacional fresquinho conquistado ao serviço do Flamengo no último ano e que inclui um campeonato brasileiro e uma Taça Libertadores. Tem um plantel avaliado em 383 milhões de euros e em reforços, esta temporada, gastou 80 milhões — integrou nomes de gabarito como Jan Vertonghen, valores apetecíveis como Everton Cebolinha e jovens promessas como Luca Waldschmidt ou Darwin Núñez.

Pontos de partida diferentes? Muito. Perante a natureza clara de cada equipa, Abel Ferreira partiu para a conferência de imprensa de antevisão para dizer aquilo que apenas podia dizer, que ia tentar surpreender o Benfica, ele que conhecia Jorge Jesus, que fora seu treinador quando o antigo defesa militava no Vitória Sport Clube, e ele que tinha agora um extremo sérvio que até à semana passada tinha estado ao serviço de JJ como espião ao seu serviço.

O Benfica partiu para o jogo de acordo com a premissa europeia do seu projeto. Afinal de contas, esta não era uma equipa para disputar a Liga Europa, muito menos para ser “apenas” campeã nacional. Este é um plantel para voos mais altos, voos de que os encarnados estão afastados desde a década de 60 em que conquistaram o bicampeonato europeu e foram amaldiçoados pelo treinador Béla Guttmann, húngaro que sentenciou o futuro além fronteiras do clube que guiou à glória: “Sem mim, nem daqui a cem anos o Benfica conquistará uma taça continental”, disse. 58 anos depois, o Benfica vocacionado para a Europa não chegou à competição de clubes mais apetecível do mundo.

E como é que isto aconteceu? Não é que o Benfica não tenha mostrado qualidade. Pelo contrário, foi demonstrada uma diferença substancial em relação ao futebol praticado no ano passado. Bastaria dizer que as águias chegaram ao final da primeira parte com 73% de posse de bola, com 10 remates contra 2, com 17 ações na área adversária contra 2 do PAOK, mas isso seria insuficiente.

A equipa orientada por JJ mostrou-se extremamente móvel do meio-campo para a frente, desdobrando-se em possibilidades para satisfazer os pés de Weigl e Taarabt. Já os gregos, optavam pela organização e pela pressão instantânea no momento de posse do Benfica, tentando impedir os jogadores da formação portuguesa de aplicar o plano trazido de Lisboa. E se os desequilíbrio de Everton Cebolinha e o jogo entrelinhas de Pedrinho enchiam as medidas do jogo, a facilidade com que Haris Seferović vacilava na geografia mais avançada do terreno desmanchavam uma ideia que só falhava na concretização.

Não há melhor exemplo do parágrafo acima que esta sequência de oportunidades das águias em apenas 10 minutos. Aos 26’, Taarabt disparou de fora da área com potência para uma defesa, à figura, do guarda-redes dos gregos. No minuto seguinte, o avançado suíço teve uma perdida monumental ao responder de forma desenquadrada a um cruzamento teleguiado de Cebolinha. Aos 30 minutos, Pizzi atirou de livre direto ao poste e, pouco depois, o internacional português respondeu a uma variação de corredor do extremo brasileiro ex-Grémio com um remate ao lado. Aos 42 minutos, Pedrinho ainda fez um grande remate de longe que teve uma grande resposta do guardião adversário. Havia jogo, não havia golo.

Do lado dos pupilos de Abel Ferreira, pouco ou nada havia a contar.

Os factos da primeira parte da partida faziam antever uma segunda parte que confirmasse a chegada dos encarnados aos play-offs da ‘Champions’, onde já era certo que o vencedor do encontro iria jogar com os russos do Krasnodar, carrasco do FC Porto no acesso à competição milionária na última época. No entanto, a história da partida escrever-se-ia de outra maneira à medida que o Benfica se ia acomodando do jogo à espera que o golo aparecesse naturalmente, na ingenuidade de achar que, do outro lado, não estava uma equipa diferente, pronta para responder no erro cirúrgico. Logo aos 54 minutos, dois ‘tiros’ bloqueados pela defesa das águias faziam antever uma outra vontade de contrariar os números vinda do balneário grego.

O Benfica podia muito bem ter matado a motivação do intervalo da equipa de Salónica com um golo aos 57 minutos numa excelente jogada coletiva que terminou com Cebolinha, sozinho, sobre o lado esquerdo na cara do golo a permitir uma grande defesa a Zivko Zivkovic, mas quem não marca sofre, dizem as boas linhas do comentário desportivo, e foi o que aconteceu ao Benfica. Numa das primeiras ações de perigo real na área do Benfica, Akpom cruza para o interior da pequena área e Vertonghen, numa tentativa de corte, empurra a bola para o fundo das redes da própria baliza. Foi o terceiro jogador da história dos encarnados a estrear-se com um auto-golo, a par de Melgarejo (2012) e Cabral (2001).

A alteração do placard do jogo obrigou os dois treinadores a mexer, de um lado entrou Darwin Nuñez, do outro Živković. De um lado, a teoria da evolução do resultado procurava sobrepor-se a uma tradicional história de vingança do filho mal tratado que mostra à sua antiga equipa o seu verdadeiro valor, mas há coisas que nem a ciência explica.

Já com Carlos Vinicius em campo, num 4-4-2 a viver à base de dois avançados puros, e com uma defesa a carecer de organização, o sérvio recebeu a bola sozinho na lateral direita do campo, aproximou-se da área e colocou a bola entre a luva de Vlachodimos e o poste da baliza. Qual Sabry entre Benfica e PAOK, qual quê. Foi o primeiro golo de Zivckovic em dois anos e meio, ele que de águia ao peito fez apenas quatro golos.

Os encarnados ainda conseguiram reduzir por intermédio de Rafa, que viria a entrar para o lugar de Adel Taarabt, mas foi insuficiente. As estatísticas não mostravam um jogo mais equilibrado, apesar de os pupilos de Abel Ferreira terem crescido na segunda parte. O problema é que o fizeram no aproveitamento das poucas oportunidades que tiveram e por isso os 29% de posse de bola com que os gregos terminam a partida, a par dos 65% de eficácia de passe ou os 42% de eficácia de passe vertical são insuficientes para explicar o resultado. Já dois remates enquadrados à baliza e dois golos poderão ser uma explicação mais certeira daquele que foi o primeiro jogo em que Abel Ferreira venceu o Benfica.

Garantidamente, sem os milhões prometidos da maior competição de clubes do mundo, o Benfica parte para uma nova epopeia, menos entusiasmante, mas talvez mais ao seu alcance, a Liga Europa, cuja presença — aviso à navegação! — tem ainda de ser confirmada em play-off. Nesta espécie de segunda divisão europeia, JJ já alcançou duas finais, ambas ao serviço dos encarnados e ambas com o mesmo desfecho: uma derrota. Para já, a premissa europeia não é a melhor, uma vez que este foi o sétimo jogo consecutivo dos encarnados sem vencer fora, um registo sem igual nos últimos onze anos.

Ensombrado por ter ousado ir ao mercado como gastam os grandes europeus, Jorge Jesus e companhia começam já esta sexta-feira a mostrar em Famalicão aquilo que gostavam de ver a poder mostrar à elite da Europa do futebol. Não deixa de ser curioso que seja a primeira vez em 10 anos que o Benfica não participa na competição milionária, a última tinha sido em 2009/10 no primeiro ano de JJ na Luz.

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