A competição para disputar o galardão da UEFA não era nada fácil: Luka Modric tinha a concorrer consigo dois monstros do futebol: o seu ex-colega no Real Madrid, Cristiano Ronaldo, papa-distinções e demolidor de recordes, e Mohammed Salah, homem que teve uma época meteórica e que tinha enfrentado em campo, há três meses, na final da Liga dos Campeões. Ambos matadores de serviço, ambos marcadores de um número anormal anormal de golos na temporada passada.

No entanto, a instituição futebolística viu para além dos números e destacou antes a completude de um jogador ao serviço de um clube, de uma seleção e, acima de tudo, do jogo em si. De resto, tem sido assim a carreira do croata, feita de desafios aparentemente intransponíveis mas ultrapassados com elegância e ligeireza.

O mundo do futebol é mais rico consigo em campo, mas poderia ter sido prematuramente privado dos seus talentos. Nascido em 1985, Luka Modric era apenas uma criança a viver em Modrici, pequena aldeia rural da sua família, quando rebentou a Guerra Civil Jugoslava. Os conflitos fratricidas chegaram até às encostas das montanhas Velebit em 1991, quando tropas sérvias tomaram a localidade de assalto e executaram o seu avô, também ele Luka, enquanto tratava do gado. Forçados a fugir pelas suas vidas, Luka e a sua família dirigiram-se para a cidade costeira de Zadar.

Vivendo num hotel enquanto refugiado durante boa parte da sua infância, Luka Modric nunca deixou que os confrontos o impedissem de jogar futebol, indo frequentemente treinar por entre escombros e crateras espalhadas pela cidade. Apesar de possuir um físico frágil e pouco atlético, o pequeno Luka compensava com entusiasmo e um controlo de bola fora do comum.

O seu primeiro clube foi o da terra, o NZ Zadar, onde foi crescendo e impressionando, de tal forma que, com 12 anos, foi incentivado a concorrer ao Hajduk Split, seu clube de infância. Os responsáveis deste emblema, contudo, não viram para lá da sua fraca figura e não o aceitaram. Tal desfeita desencorajou Modric, de tal forma que teria desistido logo ali, não fosse Tomislav Bašić, treinador das camadas jovens do NZ Zadar, acreditar no seu talento. Foi este gesto de confiança que fez Modric manter vivo o sonho e considerar Bašić o seu grande mentor.

créditos: EPA/ANTONIO BAT

A persistência traria frutos: em 2002, já em plena adolescência, Modric seria abordado pelo Dínamo Zagreb para enfileirar as suas camadas jovens, onde ficaria apenas um ano até ser chamado à equipa principal. Encarando-o como um talento com potencial mas ainda sem traquejo para jogar entre a elite croata, o clube emprestou-o dois anos seguidos. No primeiro, a envergar as cores do Zrinjski Mostar, impressionou pela inteligência e maturidade com que lidou com a dureza do campeonato bósnio; no segundo, de volta à Croácia, ajudou o modesto Inter Zaprešić a disputar a liga contra o seu próprio clube, tanto que foi chamado de volta no mercado de inverno.

Mais refinado e senhor de si, Luka Modric pegaria de estaca no Dínamo Zagreb, que lhe ofereceu um contrato de 10 anos, o que lhe permitiu comprar uma casa para a sua família. Na capital, assumiu-se enquanto cérebro da equipa durante quatro anos, ajudando à conquista de três campeonatos, duas taças da Croácia e uma Supertaça, somando com 31 golos e 29 assistências nesse período.

Perserverança e sorte, um cocktail vencedor

A sua performance pelo Dínamo Zagreb não deixaria o mundo do futebol indiferente, nem aquém - foi chamado pela primeira vez à seleção croata em 2006, numa vitória por 3-2 contra a Argentina -, nem além-fronteiras, já que começou a despertar a cobiça de outros clubes europeus. Barcelona e Arsenal foram equipas que consideraram a sua contratação mas julgaram-na uma aposta arriscada dado, lá está, o seu físico pouco corpulento.

Desde que saiu da Croácia, o percurso de Luka Modric tem tido paralelos interessantes nos dois clubes que passou: Tottenham e Real Madrid. Chegado a White Hart Lane em 2008 por uma verba recorde à época para o clube londrino - 16,5 milhões de libras (quase 21 milhões de euros), o mesmo pago por Darren Bent em 2007, - Modric teria um problema semelhante ao que sentiu quando o Real Madrid desembolsou 35 milhões de euros pelo seu passe em 2012: inadaptação.

No Tottenham, o mesmo Juande Ramos que optou pela sua contratação foi o treinador que foi incapaz de fazê-lo render, forçando Modric a jogar em posições pouco naturais para si, descaídas para as alas. Já em Espanha, apesar de ganhar o seu primeiro título apenas 36 horas depois de chegar, entrando aos 83 minutos na vitória do Real na segunda mão da Supertaça contra o Barcelona, também sentiu dificuldades, desta vez sob as ordens de José Mourinho. Com o treinador português, não foi capaz de assumir as funções defensivas que lhe eram exigidas e não passou de um jogador de banco. A sua vinda foi tão atribulada que foi considerado pelos leitores do jornal Marca como o maior flop de 2012.

créditos: EPA/FELIPE TRUEBA

Mas, seja acaso ou destino, em ambos os clubes, foi também uma mudança súbita que mudou a sorte de Modric. Em Londres, o despedimento de Juande Ramos significou a vinda de Harry Redknapp, que colocou o jogador bem no centro do campo, onde já pôde encantar os adeptos dos Spurs com o seu futebol cerebral e perfumado em partes iguais. Já pelos “Merengues”, a saída de Mourinho na época seguinte à da sua chegada trouxe Carlo Ancelotti, e com ele, um estilo de jogo adequado às características de Modric e que fez do croata dono de um lugar no onze nos anos seguintes.

Num caso e noutro, Luka Modric mostrou ser o exemplo paradigmático dos perigos em desperdiçar talento incompreendido e das virtudes em saber justamente entendê-lo. Sem estatísticas sonantes nem grandes momentos para serem compilados em vídeos de Youtube, Modric veio a cimentar a sua posição como um médio completo por quem passam todas as fases do jogo (ou, como o These Football Times lhe chamou, “um marionetista em campo”), destacando-se pela capacidade de decisão e pela técnica refinada. Apesar de não ter ganho títulos pelo Tottenham, deixou saudade em White Hart Lane pela forma como jogou e fez jogar; no Real Madrid, ao lado de craques como Xabi Alonso e Toni Kroos, teve a fama e o proveito, arrecadando 14 títulos desde a sua estreia, incluindo três históricas conquistas consecutivas da Liga dos Campeões.

De um ano perfeito para um futuro incerto

A atribuição do galardão de melhor jogador do ano pela UEFA não é fruto do acaso. Aos préstimos demonstrados na campanha vitoriosa do Real Madrid na Liga dos Campeões, Modric mostrou grandes capacidades de liderança e de abnegação ao capitanear uma improvável Croácia até à final do Campeonato do Mundo. O percurso, altamente atribulado, foi semelhante ao de Portugal no Euro 2016 (tendo uma boa equipa, a seleção croata partia como underdog na competição), sendo a única diferença a queda contra a França na final. O seu esforço, ingrato, foi compensado com a obtenção da Bola de Ouro do Mundial.

Com todos estes títulos e distinções arrecadadas, seria de esperar que 2018 fosse o melhor ano de sempre na carreira de Luka Modric, mas há um caso que está a ameaçar tudo isto. Enquanto encantava fãs de todo o mundo com o seu trabalho dentro de campo, Modric escandalizava o público croata com o seu envolvimento no caso Zdravko Mamić.

Ainda antes do Campeonato do Mundo, o jogador foi considerado suspeito de prestar um falso testemunho para ajudar Zdravko Mamić, ex-dirigente do Dinamo Zagreb responsável por um dos maiores escândalos de corrupção desportiva do país. Considerado uma espécie de “padrinho” do futebol croata (acumulava, inclusive, funções na Federação), Mamić foi condenado no início de junho a seis anos e meio de prisão por corrupção, fraude fiscal e desvio de fundos em transferências de jogadores, sendo uma delas a de Modric, do Dinamo Zagreb para o Tottenham.

créditos: EPA/STRINGER

Sendo uma peça central do caso, o jogador explicou ter assinado um acordo com Mamić em 2004, que lhe prometeu metade dos lucros da sua próxima transferência. Todavia, em 2015, disse uma coisa diferente, ao referir que esse anexo foi assinado retroativamente, quando já estava jogar pelos ingleses do Tottenham, em 2008. A investigação comprovou que o jogador passou a maioria desse dinheiro à família de Mamić e dos 10,5 milhões de euros que supostamente receberia, ficou apenas com aproximadamente 1,95 milhões

Ao ser confrontado com essa mudança quando foi chamado a depor em tribunal, em junho de 2017, Modric negou ter feito a alteração e voltou a defender a declaração inicial. O episódio foi especialmente visado pela imprensa croata, já que o jogador se mostrou balbuciante e incapaz de dar respostas claras (não se lembrando, inclusive, da data em que se estreou pela seleção, sendo ele o capitão), o que o tornou alvo de fúria e chacota por parte do público croata. O mesmo hotel onde cresceu enquanto refugiado, em Zadar, foi alvo de vandalismo, tendo sido escrita a frase: "Luka, vais lembrar-te deste dia".

Só com a sua prestação no Campeonato do Mundo é que os croatas começaram a perdoá-lo, tendo sido recebido apoteoticamente no regresso da seleção à Croácia. O Ministério Público, no entanto, não se embeveceu, e considera que Modric poderá ter mudado o seu testemunho para favorecer Mamić, o que poderá significar uma pena de prisão até 5 anos por perjúrio.

Luka Modric pode agora olhar para o seu futuro com ambivalência: por um lado, espera-lhe quase certamente uma nomeação para a Bola de Ouro, o prémio atribuído pela France Football para determinar o melhor jogador do mundo naquele ano; por outro, aguarda-se a marcação da data do julgamento do caso Mamić e o jogador ainda não foi titular nesta época sob as ordens do novo treinador do Real Madrid, Julen Lopetegui.

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