“Em 1995 estava fora do estádio. Estava cheio. Fiquei horas e horas lá fora”. Tim Vieira, empresário sul-africano e lusodescendente, recorda aquele 24 de junho, no Ellis Park, em Joanesburgo, África do Sul, dia da final do campeonato do mundo de râguebi.

A equipa africana tinha pela frente a poderosa Nova Zelândia, na qual pontificava Jonah Lomu. “Não eram só 15 jogadores de campo. Eram 55 milhões de pessoas à espera. Isso é que fez a diferença”. De todos os presentes no estádio, o foco estava, para além do jogo entre as duas nações, em Nelson Mandela, presidente sul africano, cuja presença na final imortalizou o que foi muito mais que um simples jogo de râguebi ou uma vitória da seleção que jogava em casa transformando-se num dos mais importantes acontecimentos políticos mundiais de então.

Mandela, primeiro presidente negro (1994-1999), preso político (27 anos), ativista e lutador contra o regime de Apartheid e Prémio Nobel da Paz (1993) líder máximo de um país que vivera durante décadas dividido pela segregação racial, uniu, nos dias que precederam aquela final, a nação à volta da bola oval. E de si mesmo.

“Estávamos com medo que tudo caísse e o país desaparecesse. Mandela mostrou que não era preciso ter medo. Nem brancos nem negros. No fim, queria um país só”, sublinha Tim Vieira ao SAPO 24.

“O râguebi ajudou a mudar a África do Sul. E o Mandela conseguiu. Foi uma vitória de Mandela”, relembrando que Madiba, como era conhecido, usou na final “a camisola dos Sprinkboks com o nº 6 nas costas”, numa seleção em que Chester Williams era o “único negro” e num país cuja maioria negra “torcia até então pelos All Blacks”.

“Os brancos viram-no [Mandela] como um herói. O que fez ninguém esperava. E isso mostra o que é um líder autêntico que conseguiu amar e perdoar. Seria importante ter hoje líderes assim”, frisa.

Sobre a final, aquele jogo “mudou a mentalidade” do país, explica. “O desporto tem essa força, tal como o Europeu de futebol 2016 mudou a mentalidade portuguesa. Começámos a acreditar, já não temos medo de perder, sabemos que podemos ganhar. Quando ganhamos títulos os outros é que têm que nos ganhar”, remata. No “râguebi conseguimos usar o melhor de tudo: temos o gordinho que corre menos, mas é forte; o alto é comprido e salta; o rápido do meio; temos o hábil com os pés; o pequenino que fala muito e é quem vai buscar a bola e dita o jogo. Há pessoas diferentes, há lugar para todos e cada qual encontra o seu espaço”.

Uma lição de história e de vida

Se fosse vivo, Nelson Mandela, completaria 100 anos este sábado, dia 2 de junho, quase 23 anos depois do tal título que uniu um país.

Para recordar o centenário desta “figura mundial” e tendo o râguebi como pano de fundo, Tim Vieira trouxe a Portugal os South African Legends, antigos jogadores que vestiram a camisola dos Springboks (Percy Montgomery, Jean de Villiers, Butch James, entre outros).

Vão estar no Estádio Nacional, Jamor, dia 2, às 15h30, defrontando os Portuguese Barbarians Legends, que terá na sua base os “Lobos”, jogadores da seleção nacional que participaram no Mundial de 2007, em França, como João Correia  e Vasco Uva, além de Nuno Mourão, Shane Williams (País de Gales) e Kelly Brown (Escócia), liderados por Tomaz Morais”, acrescenta.

“Gostava que muitas crianças perguntassem o que é o Mandela’s Cup?”, questiona. Se a resposta sobre a figura que dá nome à taça em disputa está acima, em baixo segue a descrição de um evento que se prolonga até sábado, dia do encontro das “Lendas”.

“Ao todo teremos 9 campeões do mundo”, enumera. Chester Willians, o tal jogador que “conseguiu mostrar que tudo é possível na África do Sul é o convidado de honra” de uma partida que terá a presença de mais quatro jogadores que há 23 anos apertaram a mão a Mandela e foram “próximos” do líder africano. “Teremos o Mark e o Ian MacIntosh, e os All Blacks, Franck Bruce e Walter Little”, descreve Tim Vieira. “Mostra que a influência de Mandela era mundial”.

Para além do jogo em si, até lá, em palestras por clubes “os jogadores e treinadores vão falar de râguebi e de Mandela. Do que conseguiu fazer. É uma "lição de história e de vida" dada pelas lendas sul africanas que se deslocam à Agronomia e à St. Juliens School, em Carcavelos, onde terão um encontro com a Escolinha de Rugby da Galiza, Cascais, projeto de integração social.

A passagem dos SA Legends culminará num jantar de gala e num leilão para angariar verbas para a Fundação Mandela, Fundação das lendas sul africanas e para a Escola da Galiza. “Será tem um tour de caridade com eventos virados para a caridade. No fim é uma forma de retribuir”, resume Tim Vieira.

Em relação ao evento, que visitou pela vez Portugal em 2016, é para repetir. “Queremos transformá-lo num acontecimento anual. Se não sabe o que é o râguebi e quer aprender sobre o jogo e sobre história de Mandela é só aparecer. A entrada é gratuita”, finalizou Tim Vieira.

Por último, uma curiosidade vinda da África do Sul. A equipa dos Springboks será capitaneada por Siya Kolis, 26 anos. Siya Kolisi é negro e é a primeira vez que, em 127 anos de râguebi na África do Sul, tal acontece num jogo oficial. A braçadeira entregue pelo selecionador Rassie Erasmus acontece diante o primeiro de três jogos com a Inglaterra, o primeiro dos quais no dia 9 no Ellis Park, em Joanesburgo. O tal palco que ajudou a mudar o país.

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