Rasheed Wallace

Se falarmos de temperamento volátil, faltas técnicas e exclusões, Rasheed Wallace é um dos primeiros nomes que nos vem à cabeça. Com mais de 300 faltas técnicas durante a carreira, o extremo/poste atingiu o seu pico em 2000/2001, época durante a qual recebeu 41 faltas técnicas e foi excluído em sete ocasiões. Conhecido por “mandar bocas” a tudo o que se mexia, era especialista em trash talk quando os adversários iam para a linha de lance livre e um desses episódios ficou na história como um dos mais icónicos no que ao trash talk diz respeito. “Ball don’t lie” (A bola não mente) saia da boca de Wallace sempre que um atleta de outra equipa falhava um lance livre após falta sua (todas mal assinaladas, pois claro!). E o que acontecia depois de gritar “Ball don’t lie”? Falta técnica.

Gary Payton

Tal como Rasheed Wallace, Gary Payton era um defensor de elite. E tal como “Sheed”, “A Luva” também era completamente desbocado, dentro e fora das quatro linhas. Dentro de campo, não sabia estar sem tentar ganhar vantagem psicológica sobre os seus adversários directos, através de “bocas” e olhares. Defrontou Michael Jordan no primeiro jogo de pré-época da sua temporada de rookie e não se coibiu de atacar verbalmente o melhor jogador de todos os tempos. Mas se há algo em que Payton era exímio era na arte de inventar alcunhas humilhantes para os adversários: Earvin Johnson (não o “Magic”, mas o poste tosco) era o Tragic Johnson e Jason Kidd foi baptizado de Ason Kidd porque, na opinião de Payton, Kidd “had no J”, ou seja, era incapaz de concretizar lançamentos longos.

Kevin Garnett

Acusado por muitos de ser um falso duro — Udonis Haslem disse, em tempos, que seria incapaz de atirar arroz num casamento, quanto mais um murro à cara de alguém —, Garnett tinha como imagem de marca as constantes picardias com oponentes. Tinha uma predilecção por atletas brancos ou não-americanos. E não tinha limites. Terá chamado “doente com cancro” a Charlie Villanueva, que sofre de alopecia. E num jogo em pleno Madison Square Garden, em Nova Iorque, disse à então estrela dos Knicks, Carmelo Anthony, que a mulher tinha o sabor de cereais com mel. Resultado? Carmelo falhou vinte dos 26 lançamentos que tentou nessa noite, a equipa de Garnett venceu o jogo e o jogador dos Knicks perseguiu-o até ao autocarro da equipa para pedir justificações.

Reggie Miller

Consta que, ainda hoje, o ex-jogador dos Knicks, John Starks, acorda sobressaltado durante a noite com pesadelos sobre Reggie Miller. O antigo “atirador” dos Indiana Pacers tinha a mira especialmente afinada e a língua especialmente afiada quando defrontava o conjunto de Nova Iorque. Ficaram célebres as trocas de palavras com o realizador Spike Lee, adepto ferrenho dos Knicks, mas também com alguns dos jogadores mais importantes da história do jogo, como Michael Jordan e Kobe Bryant. O famoso gesto em que coloca as mãos no pescoço para mostrar que os Knicks se engasgavam sempre nos quartos períodos é o maior exemplo da forma como entrava na mente dos adversários.

Michael Jordan

Não foi só o melhor jogador da história, como era um trash talker do mais refinado que a liga norte-americana já conheceu. Tinha tanta confiança que era melhor do que todos os outros que chegou a marcar um lance livre com os olhos fechados, só para responder a um desafio de Dikembe Mutombo. E até os colegas de equipas eram alvo das “bocas” do número 23 dos Bulls. Chamava Will Vanderbilt ao colega Will Perdue, porque considerava que o poste não merecia ter como apelido o nome de uma universidade tão conceituada. Mas o episódio mais famoso de trash talk de Jordan aconteceu numa partida frente aos Charlotte Hornets, onde jogava o jogador mais baixo da história da NBA. Do alto dos seus 1,98 metros, MJ desafiou Tyrone “Muggsy” Bogues, de 1,59 metros, a lançar ao cesto na sua frente usando a expressão “Lança, seu anão de m****”. Bogues lançou, falhou, terminou o encontro com dois lançamentos marcados em 12 tentativas e dizem as más línguas que a carreira de “Muggsy” acabou nesse momento.

Larry Bird

É considerado de forma (quase) unânime o rei do trash talk. A lenda dos Boston Celtics transpirava confiança por todos os poros e não tinha quaisquer problemas em dizê-lo. E em mostrá-lo. Foi assim no All-Star Weekend de 1986, quando perguntou aos outros participantes do concurso de lançamentos de três pontos qual deles ia ficar em segundo lugar. Foi assim num jogo frente aos Chicago Bulls, quando apontou para um sítio específico no campo e disse ao seu defensor direto, Horace Grant, que era ali que ia lançar… e marcou 11 pontos consecutivos desse mesmo local. E foi assim num jogo frente aos Indiana Pacers no dia de Natal, quando disse a Chuck Person, um dos seus alvos preferidos, que tinha um presente para ele. Numa altura em que Person estava no banco de suplentes, Bird marcou um triplo mesmo à sua frente, virou-se para o jogador dos Pacers e afirmou: “Merry fucking Christmas!”

Na NBA actual também há trash talkers que podem vir a ganhar um lugar na lista dos melhores de sempre. O treinador dos Spurs, Gregg Popovich, usa o seu estatuto para “esticar a corda” com os árbitros e até com os seus próprios atletas, mas também sabe fazê-lo com a maior classe do mundo, sobretudo quando usa as conferências de imprensa para “rasgar” o presidente norte-americano Donald Trump.

O técnico dos texanos não é o único a levar o trash talk para fora de campo. Joel Embiid é o verdadeiro MVP das redes sociais, mas sempre com muito humor. Desde tweets hilariantes a post de Instagram com localizações de chorar a rir, o poste dos Philadelphia 76ers aproveita-se das novas tecnologias para incendiar os ânimos dos adversários. Que o diga Hassan Whiteside.

No entanto, o maior trash talker dos dias que correm é Draymond Green. O extremo/poste dos campeões Golden State Warriors é dos atletas mais audíveis da liga e já conta com alguns episódios dignos de registo, como na altura em que disse, após as últimas Finais, que ficou chateado por só ter vencido os Cleveland Cavaliers por 4-1. “Fiquei f***** por não os termos varrido”, afirmou.

Outra das vítimas de Green foi Paul Pierce, que se retirou após o final da época passada. Em pleno jogo e durante dois lances livres de Blake Griffin, Green virou-se para Pierce e atirou: “Tu não tens direito a ‘farewell tour’. Os fãs não gostam assim tanto de ti. Pensavas que eras o Kobe? Tu não és o Kobe”.

A boca grande de Draymond Green já lhe valeu sete faltas técnicas e uma exclusão, esta temporada. É o reverso da medalha para quem, como ele, gosta de explorar a vertente psicológica dos adversários para tirar vantagens no jogo jogado. Mas, por muitas técnicas ou exclusões que surjam, um trash talker não se cala. Na verdade, todos os nomes citados nesta crónica têm mais em comum do que apenas o trash talk. São competidores de excelência. O trash talk faz parte do seu jogo e torna-os melhores na sua arte. Que nunca se calem.

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