O jogo desta noite disputou-se quando o destino das quatro equipas do Grupo E da Liga Europa já estava traçado desde a penúltima jornada. Acontecesse o que acontecesse em qualquer um dos jogos, o primeiro lugar estava entregue aos ingleses do Arsenal e o segundo ao Sporting. Portanto, não se estranharam as cinco mudanças impostas por Keizer no onze inicial. Por isso, mesmo que não existisse grande coisa em disputa no jogo de hoje (para além dos euros que uma vitória implica), existiria sempre a curiosidade de ver algumas peças menos habituais por estas bandas. Porque se por um lado sabíamos que existiam cartas fora do baralho, outras podiam agarrar a oportunidade, já que Keizer tinha avisado que ia dar descanso a vários habituais titulares (Mathieu, Gudelj, Nani e Bas Dost).

Assim, nesta noite existiram apenas três sobreviventes em relação ao onze que derrotou o Desportivo das Aves para a Liga: Coates, Acuña e Bruno Fernandes. A esses juntaram-se Salin, André Pinto, Ristovski, Petrovic, Jovane, Montero e Mané. E Miguel Luís.

“A confiança está boa. As vitórias têm ajudado e o futebol praticado também", revelou ontem o jovem médio que já tinha sido aposta de Tiago Fernandes no seu reinado leonino antes de partir para Chaves. Por alturas dessa conferência, o médio só não sabia dizer se ia ser ou não titular, mas era um daqueles nomes cuja probabilidade de figurar entre os que iam alinhar de início era maior. Tanto era, que se confirmou: alinhou mesmo de início. E a equipa (Miguel Luís incluído), para além de mostrar confiança, mostrou bom futebol. Aliás, parece que há duas palavras que caracterizam este novo Sporting: confiança e alegria. Porque o seu futebol desta noite foi uma simbiose de ambas.

A turma portuguesa foi completamente dominadora; jogados os 45’ iniciais, nada resta a acrescentar para além do chavão "disputados em sentido único". Jogados outros 45’, mais do mesmo. E se ninguém sabia quem era Keizer na altura da sua contratação, parece que o holandês está a começar a trilhar o seu caminho e a dar uma resposta bem positiva, ao somar cinco vitórias no mesmo número de jogos disputados. E, ainda que exista muito a provar e que seja verdade que a maioria dos seus adversários não eram dos que teoricamente poderiam levantar problemas, não há como negar que o seu 'leão' mostra as garras e parece que está a assimilar as ideias de jogo e a identidade do seu treinador.

Relativamente à partida, desde cedo ficou assente que o Sporting queria mandar no jogo. Os homens da casa entraram a todo gás. E isto ficou bem evidente logo aos 8’ quando iam marcando golo. Num mau alívio da defesa ucraniana, Miguel Luís ganha a bola na antecipação, esta pinga na direção de Montero, e o colombiano, de primeira, num toque subtil, devolve-a ao jovem de 19 anos, que ficou na cara do guarda-redes mas desperdiçou o primeiro.

E se se pode dizer que a boa exibição de Miguel Luís começou neste lance, pode também dizer-se que o resto veio em catadupa. Sempre sereno, mostrou compostura na hora de entregar a bola aos colegas, na ocupação de espaços e no apoio a Bruno Fernandes (no ataque) e a Petrovic (na defesa). Se a titularidade frente ao Arsenal foi uma surpresa, a de hoje era esperada e deu para confirmar aquilo que dele é esperado. E só não foi o melhor em campo porque havia um Bruno Fernandes a exibir-se a um grande nível durante os 73’ que esteve no relvado.

Bruno Fernandes parece agora voltar à sua melhor forma, num plano bem mais próximo daquilo que vimos na época passada. Correu, lutou e esteve bem em ambos os momentos de jogo; foi importante a defender (várias vezes era o primeiro homem do meio-campo a sair na pressão), assim como foi preponderante a atacar (orquestrou facilmente o ataque com a sua visão de jogo e qualidade no último passe). Se há lance que explica bem estas linhas, é o do primeiro tento do encontro. O golo (17’) foi às três tabelas e saiu da cabeça de um Fredy Montero estacionado no sítio certo, mas a recuperação do médio português e consequente toque de calcanhar a abrir caminho a Acuña fazer o cruzamento para a área é o melhor exemplo da sua importância no jogo verde e branco.

No entanto, os ucranianos, atualmente no 5.º lugar do seu campeonato, continuaram com uma particularidade que os tem caracterizado esta época: ou ganham ou perdem. Empatar? Nem uma única vez; parece que a partilha de pontos não é com eles. Senão vejamos: a nível doméstico, 18 jogos divididos por 9 derrotas e 9 vitórias. Na Liga Europa, 6 jogos, 1 vitória e 5 derrotas. E isso talvez se deva à qualidade de equipa. Porque futebol jogado, nem vê-lo. Tanto na primeira parte como na segunda, era bater direto para a corrida de Careca (avançado que acabou substituído aos 67’ por Mikhailo Sergiychuk) ou de Artur. De resto, pouco mais. Jogaram sempre com um bloco muito recuado à procura de sair em contra golpe. Mas, verdade verdadeira, nunca chegaram a incomodar Salin. Fizeram 6 remates; todos desenquadrados, todos para fora de área e para o mesmo sítio: a bancada.

Sobre a restante história do jogo, diga-se que o resultado ficou feito na primeira parte e que o segundo tempo ficou marcado pela lesão de Montero, que havia regressado depois de uma paragem. O "Avioncito" encaixou bem no esquema tático de Keizer, mas teve a infelicidade de sair lesionado na disputa de um lance aos 59’ (entrou o jovem Pedro Marques para o seu lugar), quando estava a ser um dos melhores elementos do conjunto leonino. Porém, se não é mentira dizer que numa situação destas é difícil ver algo positivo, a hora em que esteve em campo deu para ver que no futebol apoiado do timoneiro holandês a coisa tem tudo para correr bem ao colombiano.

Depois da jogada iniciada por Bruno Fernandes e finalizada por Montero, existiram mais dois momentos que levantaram os mais de 25.000 que estiveram nas bancadas de Alvalade. O segundo golo, contudo, foi um que muito se assemelha aos 20 já marcados pelo Sporting desde que Keiser assumiu o comando. Os leões pressionam, os ucranianos aliviam largo e sem critério para onde estava Petrovic, que ganha de cabeça para Montero "adormecer" a bola no peito e devolver a Coates; o central galga terreno confiante (lá está…) para entregar curtinho para Mané, que vê bem a desmarcação de Bruno Fernandes sobre a direita à entrada da área e entrega de bandeja para a área de penálti, encontrando um Miguel Luís que só teve de encostar.

O terceiro, por seu lado, foi mais um bom lance coletivo e de ataque por parte do Sporting. Depois de sofrer falta, Ristovski marca rápido para Bruno Fernandes; o português abre para Mané, que devolve para o médio descaído sobre a direita; este cruza rasteirinho para o coração da área onde Montero, embrulhado com Ardin Dallku, desviou a bola para o fundo da baliza.

No regresso do balneário não se pode dizer que não existiram lances para ampliar a vantagem na segunda parte - o Sporting marcou três, mas podiam ter sido mais. No entanto, serviu para dar tempo de jogo a elementos menos utilizados e notar que se respira confiança e tranquilidade no reino do 'leão'. Mais: não só se jogou bem, como se jogou bem recorrendo a jovens que normalmente não são titulares. Se a passagem aos 16-avos de final da Liga da Europa já estava consumada, ver os miúdos da academia a criar chances e oportunidades de golo numa competição europeia é sempre positivo.

O Sporting CP acabou com 6 jogadores da formação em campo: Thierry Correia (entrou para o lugar de Ristovski aos 64’), Miguel Luís, Bruno Paz (para o lugar de Bruno Fernandes), Pedro Marques, Carlos Mané e Jovane Cabral. No final do jogo, Keizer disse que ficou satisfeito "pelos miúdos" e que para a "academia tinha sido muito bom" de se ver. E realmente foi. A equipa leonina foi a melhor em todos os domínios do jogo e saiu de Alvalade visivelmente satisfeita porque tinha todas as razões para isso; até porque esta noite teve a sua baliza inviolável pela primeira vez no reinado Keizer e voltou a ter razões para sorrir quando o tópico é a Academia de Alcochete.

Agora, há que pensar no jogo de domingo frente ao Nacional.

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

A falta de "noção espacial" de Pavlo Rebenok no primeiro golo de Montero (o 3.º acabou atribuído a Dallku) foi gritante. É daqueles lances que deixará qualquer treinador com os cabelos em pé. Parece ter ficado a dormir à sombra da bananeira e quem agradeceu foi Montero, que estava um pouco adiantado ao segundo defesa, mas bem em jogo para inaugurar o marcador em Alvalade.

Fica na retina o cheiro a bom futebol

Não é preciso ter uma visão de excelência, nem tão pouco um olfato do mais apurado, para se dar valor a um golo quando este é marcado fruto de uma jogada coletiva. Foi isso que aconteceu no caso do tento marcado por Miguel Luís. A bola passou por todos os setores da equipa (defesa, meio-campo e ataque) sempre com carinho, sempre redondinha. E, quando assim é, sai tudo satisfeito: treinador, jogadores e adeptos.

Bruno Fernandes, a vantagem de ter duas pernas

Encheu o campo de uma ponta à outra. Andou uns tempos apagadito, mas agora parece que se voltou a reencontrar e está a assumir-se como o verdadeiro patrão do Sporting de Keizer. Seja no último passe ou a pautar as jogadas, tudo passa pelos seus pés. Um jogo de encher o olho e em que esteve envolvido em todos os golos apontados pelos leões.

Nem com dois pulmões chegava a essa bola

Taras Sakiv, lateral esquerdo ucraniano de 21 anos, não teve um jogo nada fácil. Quer fosse a correr atrás de Mané, de Ristosvi ou, na segunda parte, Thierry Correia, nunca pareceu ter pernas ou pulmão para os acompanhar. Há dias e jogos assim, em que 'é só vê-los passar'. Hoje, infelizmente para si, foi um deles. Um exemplo disso é o lance de Thierry Correia, isolado por Bruno Paz (boa desmarcação) aos 85’, em que nem pareceu que com pulmão extra e uma botija de gás ligada diretamente nas chuteiras conseguia apanhar o campeão mundial de sub-17. Valeu-lhe que o defesa quis finalizar e não dar a Pedro Marques, que se encontrava isolado, atirando ao lado da baliza de Tkachenko.

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