Naquilo que se assemelha a um argumento cinematográfico, Fernando Diniz superou a pressão de derrotas humilhantes e eliminações decepcionantes no Paulista e na Libertadores, para embalar o São Paulo numa sequência de bons resultados e foi posto contra o bicho-papão da última temporada no sorteio da Copa do Brasil.

A sua vitória por 4-1, contra o Flamengo no Brasileirão, já tinha ajudado na demissão do treinador espanhol Doménec Torrent e acirrado a rivalidade dos adeptos nas redes sociais. Para piorar, os Cariocas contrataram o ídolo dos rivais, Rogério Ceni, como treinador e sua estreia seria, justamente, contra o São Paulo. Rogério era o favorito dos adeptos para uma possível sucessão de Fernando Diniz após as eleições do clube em dezembro. Não tinham voltado ao clube que o consagrou por desavenças com o atual presidente, mas após o último mês do ano, o caminho estaria livre para o seu retorno.

Acumulando oito anos sem títulos, o adepto são-paulino via no retorno de Rogério Ceni a maior chance de reencontrar os caminhos da glória. Mas Diniz trabalhava silenciosamente e vinha a evoluir o São Paulo, com um plantel jovem e com potencial.

Eis que a vaga de treinador no Flamengo se abre e Rogério Ceni vê a chance de assumir o melhor plantel do Brasil e lutar por títulos. Entre a possibilidade de retornar ao São Paulo e a certeza de assumir o Flamengo agora, escolheu a segunda opção. Decisão acertada e racional para o seu plano de carreira como treinador, mas uma traição na visão dos apaixonados adeptos paulistas.

A resposta instantânea foi valorizar a equipa e o treinador que estão lá. No jogo de ida, no Rio, a claque fez festa no aeroporto para o embarque dos jogadores. A nova vitória, por 2-1, encheu os adeptos de orgulho e confiança para a segunda mão. Mas nem o mais otimista tricolor tinha a certeza que o seu clube se classificaria. Indo bem na Liga, com apenas 17 golos sofridos em 18 jogos, a equipa era outro nas eliminatórias: tinha sofrido 14 golos em cinco jogos e só se tinha classificado apenas uma única vez, no sufoco contra o Fortaleza nos jogos eliminatórios da Copa do Brasil, Campeonato Paulista e Taça sul-americana (sendo que já foi eliminado destas duas).

A noite de quarta-feira foi a redenção completa. Milhares de adeptos aguardavam a equipa fora do estádio (péssima ideia em tempo de pandemia, mas uma festa linda para quem tem saudades das 'torcidas' nos estádios) e cantaram o jogo todo para incentivar a equipa que decidia o seu futuro lá dentro. O primeiro tempo sólido, defensivamente, mas inoperante no ataque manteve a tensão, mas a segunda parte dominante e a vitória por 3-0 fez a massa explodir nas ruas ao redor do estádio.

O São Paulo confirmou a vitória, superou o adversário mais forte do país e ganhou confiança. Com três jogos atrasados na Liga, pode assumir a liderança e abrir vantagem para o Flamengo e Atlético-MG, atuais concorrentes ao troféu. Vai enfrentar o Grêmio e, agora, ninguém dúvida que pode passar para a final.

O mais incrível é que Fernando Diniz passou de alvo de protestos para homenageado por cantos acalorados. Em campo, a equipa demonstra sintonia com as suas ideias e união para procurar 'tirar o time da fila' [finalmente ganhar um título]. Diniz melhorou o desempenho dos jogadores jovens e revelou bons talentos como Gabriel Sara e Brenner. Entrosados, jogadores como Luciano, Juanfran e Reinaldo cresceram de produção, sendo que Dani Alves abriu a cartola e foi decisivo. Embalado, o São Paulo pode surpreender e almejar voos mais altos neste ano.

No futebol tudo pode acontecer e, inconstante como tem sido neste ano, o São Paulo pode não manter a sequência positiva. Diniz pode ser questionado novamente e tudo ir por terra. Mas, para um treinador sob constante pressão e questionamento por tentar ser diferente, mostrar bom desempenho mas não ter bons resultados, a noite de ontem pode marcar uma nova fase na sua carreira.

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